Capítulo 5 – Alntonella

1093 Palavras
O trajeto de volta para o topo do morro foi um borrão de luzes de favela e o som constante do rádio comunicador do Marreco. Minhas mãos não paravam de tremer. Eu as escondia entre as pernas, apertando o tecido do vestido preto, tentando processar o que tinha acabado de acontecer naquele galpão. Eu vi homens que não pareciam humanos; vi olhares que me despiram e me leiloaram em pensamento. E vi a faca do Comandante cravar na mesa, a milímetros de uma mão que tentou me tocar. Ele não se mexia ao meu lado. Era uma sombra maciça, exalando uma fúria silenciosa que parecia consumir o oxigênio do carro. Quando finalmente chegamos à fortaleza dele, o silêncio da casa me atingiu como um choque. O Comandante entrou primeiro, jogando a chave e o rádio sobre o balcão de mármore. Eu parei no meio da sala, sentindo o peso do mundo desabar sobre os meus ombros. A adrenalina estava esvaindo, deixando apenas o cansaço e a percepção de que eu era um troféu em uma guerra de feras. — Bebe isso — ele disse, estendendo um copo de uísque. — Eu não quero beber — respondi, minha voz saindo falha, quase um sussurro. — Bebe, Antonella. Você está branca como um fantasma. Não quero que você desmaie no meu chão. Peguei o copo. Minhas mãos bateram no vidro e o líquido balançou. Ele percebeu. Antes que eu pudesse levar o copo à boca, ele envolveu minhas mãos com as dele. O calor da pele dele, marcada por calos e cicatrizes, contrastava com o frio do cristal. Ele me forçou a dar um gole. O líquido queimou minha garganta, mas aqueceu meu peito por um segundo. — Por que você fez aquilo? — perguntei, olhando diretamente para os abismos negros que eram seus olhos. — Você podia ter morrido. Eles são seus aliados... você desafiou todos eles por... por nada. O Comandante soltou minhas mãos, mas não se afastou. Ele deu um passo à frente, me encurralando contra a lateral do sofá. — Eu não fiz por nada — ele rosnou, a voz vibrando tão baixo que eu sentia no meu próprio osso. — Eu fiz porque você é minha dívida. E ninguém encosta no que me pertence sem pagar o preço. O Lobo é um porco. Ele precisava ser lembrado de quem manda no Alemão. — Eu não sou uma coisa! — gritei, a frustração explodindo. — Eu tenho nome! Eu tenho uma vida que você destruiu! Você fala de mim como se eu fosse um fuzil ou um pacote de droga! Ele riu. Foi um som sombrio, sem rastro de alegria. Ele se inclinou, as mãos espalmadas na parede atrás da minha cabeça, me cercando completamente. O cheiro dele — amadeirado, uísque e algo puramente masculino — inundou meus sentidos, me deixando tonta. — Você acha que eu não sei o seu nome, Antonella? — ele sussurrou perto do meu ouvido, o hálito quente arrepiando cada poro do meu corpo. — Eu sei cada sarda do seu rosto. Eu sei que você gosta de ler poesias tristes e que odeia o café sem açúcar. Eu estudei você muito antes de seu pai fugir. Meu coração disparou. — Você... você me vigiava? — Eu vigio tudo o que me interessa — ele disse, descendo o olhar para a minha boca. — E você me interessa desde a primeira vez que te vi naquela varanda no Leblon, meses atrás. A dívida do seu pai foi apenas a desculpa perfeita para trazer o fogo para o meio do meu gelo. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza assustadora, traçou a linha da minha mandíbula com o polegar. Eu deveria ter desviado. Eu deveria ter cuspido no rosto dele. Mas eu estava paralisada. Havia uma força gravitacional nele que me puxava para o abismo. — Você é um monstro — eu disse, embora minhas palavras tivessem perdido a força. — Eu sou — ele concordou, a mão descendo para o meu pescoço, onde a pulsação estava errática. — E monstros não pedem permissão, Antonella. Eles tomam o que querem. Ele me puxou para cima, eliminando qualquer espaço entre nós. O contato foi elétrico. O corpo dele era duro como pedra, e o meu parecia derreter contra o dele. Ele enterrou a mão no meu cabelo ruivo, puxando minha cabeça para trás, me forçando a expor a garganta. — Você me odeia? — ele perguntou, a voz rouca, carregada de um desejo que ele não tentava mais esconder. — Com cada fibra do meu ser — menti, enquanto meu corpo traidor se arqueava em direção ao dele. — Ótimo — ele murmurou. — Use esse ódio para se lembrar de que você ainda está viva. Ele me beijou. Não foi um beijo de amor; foi uma invasão. Tinha gosto de uísque e de perigo. Foi bruto, possessivo, como se ele estivesse reivindicando cada parte de mim. E o pior... o pior foi que eu correspondi. Minhas mãos, que antes tremiam de medo, subiram para a nuca dele, agarrando os fios curtos do seu cabelo, puxando-o para mais perto. Eu estava beijando o homem que destruiu minha vida. Eu estava me entregando ao Terror do Alemão. Ele gemeu contra a minha boca, um som animal, e me prensou com mais força contra a parede. Uma de suas mãos desceu pela curva do meu quadril, apertando a seda do vestido até quase rasgá-la. O contraste entre a sua força bruta e a minha fragilidade era inebriante. De repente, ele se afastou abruptamente. Ele respirava pesadamente, os olhos brilhando com uma intensidade que me fez recuar. Ele me olhou como se estivesse lutando contra o impulso de me destruir ali mesmo. — Vai para o quarto — ele ordenou, a voz falhando pela primeira vez. — Agora, Antonella. Antes que eu esqueça que você é uma refém e transforme essa sala no seu maior arrependimento. Eu não esperei. Corri para o quarto, batendo a porta e trancando-a, embora soubesse que nenhuma tranca pararia um homem como ele. Encostei-me na madeira, meu peito subindo e descendo, meus lábios ainda queimando com o toque dele. Eu estava perdida. No coração da favela, cercada por fuzis e criminosos, eu tinha descoberto que o maior perigo não era o que estava lá fora, nas ruelas escuras. O maior perigo era o que o Comandante estava despertando dentro de mim. A ruiva do Leblon estava morta. E o que estava nascendo em seu lugar tinha o perfume da pólvora e o gosto do pecado.
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