Capítulo 6 – Comandante

1834 Palavras
O sol de meio-dia no Rio de Janeiro não tem misericórdia, mas aqui no topo do Alemão, o calor parece ser filtrado pelo concreto e pelo metal. Eu estava sentado na minha poltrona de couro, no escritório que mais parecia um bunker de comando, observando os monitores de segurança. As imagens em preto e branco mostravam a rotina do morro: os vapores nos seus postos, os moradores subindo as ladeiras com sacolas de compras, a vida pulsando sob o meu domínio. Mas o meu olhar, aquele que deveria estar focado na estratégia e na segurança do meu império, voltava obsessivamente para a câmera 04. O quarto dela. Antonella estava sentada na beira da cama, com os pés descalços tocando o tapete felpudo. Ela segurava um livro que eu nem sabia que existia naquela casa, e o modo como ela mordia o lábio inferior enquanto lia estava me levando ao limite da sanidade. Passaram-se três dias desde que provei o gosto daquela boca na sala. Três dias em que o sono se tornou meu inimigo e o desejo se tornou uma ferida aberta. Eu devia estar focado no carregamento de armas que o Terceiro Comando está tentando interceptar na Baixada. Devia estar pensando em como vou calar a boca do delegado que está pedindo um arrego maior este mês. Mas, em vez disso, eu me pegava imaginando o cheiro da pele dela, aquele aroma de baunilha e inocência que parecia limpar, por um segundo, o cheiro de pólvora que exala dos meus poros. A porta do escritório se abriu sem bater. Só um homem tem essa audácia, e ele sabe que está brincando com a morte cada vez que o faz. — Chefe, o carregamento da Grota chegou. Mas o pessoal da logística diz que falta uma caixa de granadas — Marreco entrou, suado, com o fuzil pendurado no ombro de qualquer jeito. Eu não respondi de imediato. Continuei olhando para o monitor, vendo Antonella passar a mão pelos cabelos ruivos, ajeitando uma mecha atrás da orelha. A vulnerabilidade dela era a minha maior tentação. — Chefe? — Marreco insistiu, dando um passo à frente. Virei a cadeira lentamente. O movimento foi calculado, predatório. O olhar que lancei a Marreco fez o sorriso cínico dele desaparecer no mesmo instante. O silêncio no escritório tornou-se pesado, carregado com a promessa de violência que eu sempre carregava comigo. — Marreco, eu te pago para resolver problemas, não para me trazer relatórios de fracasso — minha voz saiu como um rosnado baixo, vinda do fundo do peito. — Se falta uma caixa de granadas, alguém roubou. E se alguém roubou no meu morro, é porque perdeu o amor à vida. Vai lá e resolve. Se eu tiver que sair desta cadeira para contar granada, a primeira coisa que eu vou explodir é a tua paciência. Fui claro? — Sim, senhor... claro como o dia — ele gaguejou, recuando. Ele sabia que eu estava no limite. Ele sentia o cheiro da minha irritação, embora não soubesse a causa real. Quando ele saiu, desliguei os monitores. Eu precisava de um confronto real, não de imagens filtradas por lentes de vidro. Saí do escritório e caminhei pela casa, meus passos ecoando no mármore. Eu me sentia como um predador rondando a própria toca, inquieto porque havia uma presa que eu não podia — ou não queria — devorar de uma vez. Fui até a cozinha. Eu sabia que ela estaria lá. Antonella não aguentava ficar trancada no quarto por muito tempo; ela precisava de espaço, mesmo que esse espaço fosse vigiado por homens armados. Quando entrei, ela estava de costas, tentando alcançar um pote de café na prateleira de cima. Ela usava um dos camisões de linho que eu mandei comprar. Era branco, levemente transparente contra a luz da janela, e terminava bem no início das suas coxas. Fiquei ali, na ombreira da porta, apenas observando o modo como o tecido se esticava sobre as suas curvas. Eu sou o Terror do Alemão. Já tive as mulheres que quis, desde as modelos internacionais que buscam a adrenalina do crime até as rainhas de bateria mais cobiçadas do Rio. Mas nenhuma delas me fez sentir essa fome. Essa necessidade de possuir não apenas o corpo, mas a alma. — Não temos empregadas aqui, Antonella — eu disse, quebrando o silêncio. Ela deu um pulo, soltando um pequeno grito abafado e deixando o pote de café cair. O vidro se estilhaçou no chão, e o pó marrom se espalhou como uma mancha na brancura do mármore. Ela se virou rapidamente, com a mão no peito, a respiração ofegante. — Você... você gosta de fazer isso, não é? De aparecer como uma sombra para me assustar — ela disse, os olhos azuis faiscando de raiva. — Eu não apareço, eu estou aqui. Esta é a minha casa. Você é quem é a intrusa — aproximei-me, ignorando o vidro quebrado sob as solas das minhas botas. — No Alemão, quem quer comer, cozinha. No Leblon você apertava um botão e a mágica acontecia. Aqui, a mágica sou eu quem faz, e geralmente ela envolve sangue. Ela não recuou. Pelo contrário, ela deu um passo à frente, desafiando a minha zona de conforto. As sardas no nariz dela pareciam brilhar sob a luz intensa que vinha da varanda. — A sua mágica é bater em garotos? — ela perguntou, a voz carregada de veneno. — Ontem eu ouvi você no rádio. Você mandou darem um corretivo num menino de dezoito anos só porque ele cochilou no posto. Você é um monstro, Comandante. Segurei o queixo dela com força, forçando-a a olhar para mim. O contato da minha pele contra a dela foi como um choque elétrico que percorreu toda a minha espinha. Senti o pulso dela acelerar sob os meus dedos. — Esse "menino", Antonella, estava dormindo enquanto deveria estar vigiando o ponto cego da entrada norte. Se ele dorme, os inimigos entram. Se os inimigos entram, eles não vão perguntar se você é uma moça fina do Leblon antes de te estuprarem e te jogarem do alto do morro. Eu não bato por prazer, embora eu não tenha muita paciência para incompetência. Eu bato por disciplina. Sem disciplina, este império cai. E se ele cair, você cai junto. Ela ficou em silêncio, a respiração batendo no meu rosto. Eu conseguia ver o conflito nos olhos dela — o ódio puro lutando contra algo que ela ainda não queria admitir. Uma curiosidade mórbida. Uma atração pelo homem que a protegia da mesma violência que ele representava. — Você me protege... mas você é o meu carcereiro — ela sussurrou, a voz perdendo a força. — Como você consegue viver assim? Com essa contradição constante? — Eu vivo com a realidade, ruiva. E a realidade agora é que o teu pai te trocou por três milhões de reais. Ele está em algum lugar bebendo champanhe enquanto você está aqui, na cozinha de um traficante, perguntando sobre a minha humanidade. A mão dela subiu, hesitante, e tocou nas tatuagens do meu antebraço. O toque foi leve, quase um carinho, mas para mim pareceu um ferro em brasa. Ela traçou as linhas negras da águia que fecha o meu braço direito, descendo até o pulso. — Você não é o d***o que todos dizem — ela murmurou, quase para si mesma. — O d***o não teria salvo a minha vida naquela reunião. O d***o não teria me comprado roupas decentes. Você tem um resto de alma aí dentro, e é isso que te assusta, não é? Você tem medo de sentir algo por uma dívida. Soltei-a bruscamente. A insolência dessa mulher estava ultrapassando todos os limites de segurança que eu construí ao redor do meu coração. Eu não podia deixar que uma garota de porcelana visse através das minhas cicatrizes. — Não tente ler a minha mente, Antonella. Você não vai gostar do que vai encontrar lá. Você está aqui para ser uma garantia. No dia em que o dinheiro chegar, você volta para a sua vida medíocre de festas e futilidades. — E por que ainda não fez o vídeo? — ela perguntou, cruzando os braços e me encarando. — Você disse que ia filmar um pedido de resgate. Já se passaram dias. Por que o silêncio, Comandante? Você está esperando o dinheiro ou está esperando que eu comece a gostar daqui? A pergunta foi como um tiro de fuzil no meio do meu peito. Eu sabia a resposta. Eu não queria filmar o vídeo porque o momento em que eu pedisse o resgate seria o começo da contagem regressiva para ela ir embora. E a ideia de acordar nesta casa e não ouvir o som dos passos dela, ou não sentir aquele cheiro de baunilha invadindo os meus corredores frios, estava se tornando insuportável. — Eu faço as coisas no meu tempo — rosnei, tentando recuperar a minha autoridade. — Agora, vai para o quarto. Vou sair para uma operação na Baixada e não quero você circulando pela casa. O Marreco vai estar no comando da segurança interna, e você já sabe que ele não é tão paciente quanto eu. — Outra guerra? — ela perguntou, e juro que vi uma sombra de preocupação genuína naqueles olhos azuis. — Você volta? Eu parei na porta e olhei para ela uma última vez. Ela parecia tão pequena e frágil naquela cozinha imensa, e ao mesmo tempo, ela era a única coisa que tinha o poder de me desarmar. — Eu sempre volto, ruiva. O inferno ainda não está pronto para me receber. Rezaria por mim se eu te pedisse? Ela deu um sorriso triste, o primeiro que realmente atingiu os olhos. Um sorriso que me fez querer abandonar tudo e ficar ali, protegendo-a do resto do mundo. — Eu não rezo, Comandante. Mas... tome cuidado. Não quero ficar sozinha nesta casa com os seus soldados. Eu prefiro o meu monstro conhecido aos que eu ainda não entendo. Saí de casa com o sangue fervendo. Entrei na minha SUV, bati a porta e verifiquei o meu fuzil automático com uma fúria renovada. Eu precisava matar alguém. Precisava de barulho, de sangue, de caos. Qualquer coisa que abafasse a voz dela na minha cabeça. Eu sou o Comandante. Eu domino o maior complexo de favelas do Rio de Janeiro. Eu movimento milhões e decido destinos com um aceno de cabeça. Mas enquanto o carro descia o morro rumo ao combate, eu percebi que estava perdendo a batalha mais importante. A Antonella não era mais apenas uma dívida. Ela era o meu vício. E no meu mundo, vício é a única coisa que pode levar um homem à cova. Eu ia lutar naquela noite, ia disparar centenas de balas, mas sabia que, quando o silêncio voltasse, a única coisa que eu ia querer era subir aquele morro e provar, mais uma vez, que aquela ruiva me pertencia. Mesmo que isso custasse a minha coroa. Mesmo que isso custasse a minha vida.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR