As horas no topo do Complexo do Alemão não passam como as horas no Leblon. No asfalto, o tempo é marcado pelo som do trânsito, pelo tilintar dos copos de cristal e pela brisa do mar. Aqui, o tempo é medido pelo ritmo dos rádios comunicadores, pelo ladrar dos cães nas vielas e pelo silêncio opressor que se instala sempre que o Comandante sai para a guerra.
Eu estava sentada no parapeito da janela da sala, com as luzes da casa apagadas para não me tornar um alvo fácil. O asfalto lá em baixo era uma galáxia de luzes distantes e indiferentes, mas aqui em cima, a escuridão era absoluta, cortada apenas pelo brilho dos postes de luz precários. O Comandante tinha saído há seis horas. Seis horas desde que ele me olhou com aquele fogo sombrio nos olhos e me perguntou se eu rezaria por ele.
Eu não rezo. Mas a verdade é que as minhas mãos não paravam de se entrelaçar, e o meu peito doía com uma ansiedade que eu não conseguia explicar. Eu devia estar a torcer para que ele não voltasse. Se ele morresse naquela operação na Baixada, talvez o meu pai conseguisse negociar com o seu sucessor. Talvez eu pudesse fugir. Mas a ideia de um mundo sem a presença esmagadora daquele homem fazia o meu estômago dar voltas. O que é que eu me tornei?
De repente, o silêncio da noite foi estilhaçado. Primeiro, foi um estrondo distante, como um trovão num céu sem nuvens. Depois, o som inconfundível de fuzis a cantar na base do morro. O rádio que o Marreco tinha deixado na cozinha começou a chiar freneticamente.
— O bicho tá pegando! Eles tão voltando, mas tem contenção da polícia na entrada da Grota! O Comandante tá vindo por cima! Abram os portões! — a voz era desesperada, cortada por interferência.
O meu coração saltou para a garganta. Corri para a varanda, protegendo-me atrás de uma pilastra. Eu conseguia ver os feixes de luz das carrinhas blindadas a subir a ladeira a toda a velocidade, os pneus a chiar contra o cascalho. Tiros de traçantes riscavam o céu noturno como estrelas cadentes carregadas de morte.
Poucos minutos depois, o som pesado do portão de ferro da fortaleza a abrir-se ecoou por toda a casa. Ouvi gritos, ordens rudes e o som de botas pesadas a correr. Eu estava paralisada no corredor quando a porta principal se escancarou.
O Comandante entrou como um furacão de adrenalina e destruição. Ele estava coberto de poeira, suor e... sangue. Muito sangue. A camisa de linho que ele usava estava rasgada no peito, e ele segurava o fuzil com uma força que fazia as veias dos seus braços tatuados saltarem. O rosto dele estava lívido, os olhos negros mais profundos do que nunca, brilhando com a euforia selvagem de quem acaba de enganar a morte.
— Sai da frente, Marreco! — rosnou ele, empurrando o seu sub-chefe. — Quero a casa vazia. Ninguém entra, ninguém sai. Se aparecer no céu um drone da polícia, derrube!
Ele parou no meio da sala e os seus olhos encontraram os meus. Eu estava ali, pequena e trémula, vestida com o camisão branco que ele me tinha dado. O contraste entre a minha brancura e o estado deplorável dele era violento.
— Você esta... está bem? — a pergunta saiu num sussurro, quase inaudível entre o barulho lá fora.
Ele não respondeu. Deixou o fuzil em cima da mesa com um baque surdo e caminhou na minha direção. O cheiro dele era uma mistura tóxica de maconha, suor, pólvora e ferro. Ele parou a centímetros de mim, a sua respiração ofegante batendo no meu rosto como uma lufada de calor.
— Eu disse que voltava, ruiva — disse ele, a voz rouca, quase um rosnado de triunfo.
Vi que ele tinha um corte na testa e que o sangue escorria pelo seu rosto, manchando o maxilar rígido. Sem pensar, levada por um instinto que eu não reconhecia como meu, levantei a mão e toquei na ferida. O sangue dele era quente e pegajoso.
— Está ferido — murmurei, os meus dedos tremendo contra a sua pele.
O Comandante soltou um som gutural, algo entre um gemido e um rosnado, e segurou a minha cintura com as mãos sujas. O toque dele foi bruto, possessivo, marcando o tecido branco do meu camisão com manchas escarlates. Ele puxou-me para ele, colando os nossos corpos com uma violência que me tirou o fôlego.
— Eu estou vivo, Antonella — sussurrou ele contra a minha boca. — E a única coisa que me impediu de fazer uma loucura lá em baixo foi saber que evocêstavas aqui em cima à minha espera.
Ele me beijou. Não foi como o beijo da sala, há dias atrás. Este era desesperado, carregado de uma luxúria sombria e de uma necessidade vital. Ele beijava-me como se eu fosse o seu oxigénio no meio de um incêndio. A língua dele invadiu a minha boca com a mesma autoridade com que ele comanda este morro, e eu, entregue a uma loucura que desafiava toda a minha lógica, correspondi.
As minhas mãos agarraram-se aos seus ombros largos, sentindo os músculos tensos por baixo da pele suada. Eu sentia o sabor do sangue dele nos meus lábios, o cheiro da guerra impregnado nele, e por mais que a minha mente gritasse "perigo", o meu corpo gritava "mais". Ele era o meu predador, o homem que me tinha tirado tudo, e no entanto, naquele momento, ele era o único porto seguro num mundo que estava a arder.
O Comandante se afastou, ele me olhou e percebeu que eu não queria que parece, estava entregue.
— Antonella, você tem certeza? — sussurrou sem desgrudar os olhos do meu.
Em resposta eu grudei a boca na dele, para que ele soubesse que eu não recuaria. Ele levantou-me, as minhas pernas enrolaram-se instintivamente na sua cintura, e ele prensou-me contra a parede de mármore frio. O contraste entre o frio da pedra e o calor febril do corpo dele era inebriante. As mãos dele desceram para as minhas coxas, apertando a carne com uma força que deixaria marcas, mas eu não me importei. Eu queria as marcas. Queria que ele marcasse o que ele dizia que era dele.
— Você é minha — ele murmurou entre beijos vorazes no meu pescoço. — Diz. Diz que é minha, ruiva.
— Eu... eu sou sua — as palavras saíram como um gemido de derrota. Eu tinha perdido a guerra contra mim mesma. Eu tinha aceitado o meu destino como a rainha cativa deste império de cinzas.
Ele parou por um segundo, olhando-me nos olhos. Havia uma vulnerabilidade terrível naqueles olhos negros, uma necessidade de ser humano que só eu parecia conseguir despertar. Ele tocou o meu rosto com as mãos manchadas de sangue, deixando rastros vermelhos nas minhas bochechas pálidas.
— Eu vou te destruir, Antonella — disse ele, a voz carregada de uma promessa sombria. — Se ficar aqui, eu vou te transformar em algo que o Leblon nunca reconheceria. Vou lhe tirar a luz até só restar o meu escuro.
— Você já tirou — respondi, as lágrimas a misturarem-se com o sangue dele no meu rosto. — Mas eu prefiro o teu escuro ao vazio que o meu pai me deixou.
O Comandante soltou um suspiro pesado e enterrou o rosto no meu pescoço, apenas segurando-me, sentindo o meu coração bater contra o seu. Lá fora, os tiros continuavam, as sirenes da polícia uivavam na base da montanha, e o império do crime estava em alerta máximo. Mas ali, naquele abraço manchado de sangue, o tempo tinha parado.
Eu não era mais a Antonella do Leblon. Eu era a mulher do Comandante. E enquanto ele me carregava em direção ao quarto, com o passo firme de quem sabe que conquistou o seu troféu mais valioso, eu percebi que a minha alma tinha sido vendida por muito mais do que três milhões. Tinha sido vendida pelo toque de um monstro que era o único que me fazia sentir viva.
A noite estava longe de acabar. E a guerra dentro de mim estava apenas começando.