Capítulo 10 – Comandante

1624 Palavras
O perfume de Beatriz era como fumaça tóxica no meu escritório. Cada palavra que saía daquela boca pintada de carmim era uma tentativa de desenterrar um homem que eu tinha matado e enterrado há cinco anos. Ela falava de impérios, de glórias passadas e de uma lealdade que ela mesma tinha estraçalhado quando desapareceu. Mas eu não era mais aquele moleque que ela manipulava com olhares. Eu era o Terror do Alemão. E, naquele momento, a única coisa que me importava era o silêncio suspeito que vinha do andar de cima. — Acabou, Beatriz — cortei a fala dela, minha voz saindo como o estalo de um chicote. — Você não é um fantasma, é apenas um erro que eu esqueci de apagar. O morro mudou. Eu mudei. E você não tem lugar aqui. — Você está cometendo um erro, Comandante — ela sibilou, aproximando-se da mesa. — Aquela ruiva vai ser a sua ruína. Eu conheço o brilho no seu olho. Você está fraco. Levantei-me lentamente, o meu tamanho projetando uma sombra que a fez recuar um passo. A fúria fervia sob a minha pele tatuada. — Fraco? — ri, um som sem alegria. — Fraco é quem volta dos mortos esperando caridade. Marreco! A porta abriu-se num estrondo. Marreco entrou, a mão no fuzil, esperando apenas um aceno meu. — Tira esta mulher da minha vista. Joga-a fora do complexo. Se ela for vista em qualquer beco que me pertença depois do sol nascer, a ordem é para picar e jogar no lixo. — Você vai se arrepender disso! — Beatriz gritou enquanto Marreco a segurava pelo braço com força. — O meu único arrependimento foi não ter verificado o teu pulso há cinco anos — respondi, voltando as costas. — Agora some. Assim que a porta fechou, o silêncio voltou, mas não era o silêncio da paz. Era o silêncio do desastre. Subi as escadas em passadas largas, o meu instinto de predador gritando que algo estava errado. Abri a porta do meu quarto com um chute. Vazio. A cama estava revirada, o cheiro dela ainda estava lá, mas o calor tinha sumido. Fui até o quarto dela. Trancado por dentro. — Antonella! — gritei, esmurrando a porta. Sem resposta. Não pensei duas vezes. Arrombei a porta com o ombro. O quarto estava vazio. Ela tinha saído por algum lugar e eu descobriria, esse morro é monitorado e eu sei onde fica cada viela. Um frio que eu nunca senti na frente de um cano de fuzil atravessou o meu peito. Ela tinha fugido. A minha moeda de troca, a minha ruiva, a garota que eu tinha marcado horas antes, tinha se jogado na boca do lobo. Ela não conhecia o Alemão. Ela não sabia que para uma mulher como ela, aquelas vielas eram um labirinto de morte e perdição. Saí de casa como um demónio. Não chamei reforços pelo rádio para não espalhar que a "merenda" do chefe tinha escapado. Peguei a chave da SUV blindada e desci o morro fritando pneus. Meus olhos varriam cada esquina, cada beco iluminado por lâmpadas frouxas. A fúria que eu sentia era dupla: contra ela, por ser tão estúpida, e contra mim, por ter deixado as palavras de Beatriz ecoarem pelo corredor. Eu sabia que ela não teria ido longe. Alguém do asfalto não sabe se camuflar no morro. E foi perto da Rua 2, num ponto onde a iluminação é inexistente, que eu vi o brilho dos faróis bater naquele cabelo ruivo. Meu sangue gelou quando vi dois soldados de baixo escalão, dois moleques que eu m*l sabia o nome, cercando-a. Um deles estendia a mão para o rosto dela. A audácia daqueles vermes em tocar no que me pertencia fez o meu mundo ficar vermelho. Pisei no travão, a carrinha derrapando e levantando poeira. Saí do carro antes mesmo que ele parasse totalmente. O som da porta batendo foi o aviso do juízo final. — Entra. No. Carro. — ordenei a Antonella. Eu não olhei para ela, mas senti o seu pavor. Ela obedeceu, tropeçando, entrando no banco do passageiro. Eu não perdi tempo. Caminhei até os dois moleques, que agora estavam de joelhos, as mãos trêmulas na cabeça. — Chefe... a gente não sabia... a gente só estava patrulhando... — um deles gaguejou, a urina escorrendo pelas calças. — Vocês olharam para ela — eu disse, a minha voz saindo num tom que faria o d***o pedir clemência. — Vocês pensaram em tocar no que é meu. Segurei os dois pelo colarinho e os joguei na parte de trás da SUV como sacos de lixo. Entrei no carro e arranquei. O silêncio dentro da cabine era pesado como chumbo. Antonella estava encolhida contra a porta, os olhos azuis arregalados, as lágrimas secas no rosto manchado. Eu tentei questionar se ela tinha ouvido o que aconteceu, se viu a Beatriz, mas ela não respondeu. […] Parei em um ponto mais deserto próximo ao patio e arrastei-a para fora do carro pelo braço e fiz o mesmo com os dois infelizes. Marreco e mais quatro soldados já estavam no pátio, armados, esperando ordens. Joguei os dois garotos no chão de cimento, aos pés de Antonella. — Comandante, por favor... — ela começou a dizer, a voz falhando. — Cala a boca, Antonella! — gritei, e ela recuou como se eu a tivesse batido. — Você queria conhecer o morro? Você queria ver como as coisas funcionam aqui fora da sua bolha de seda? Pois agora você vai ver o preço da sua curiosidade. Virei-me para Marreco. — Eles tocaram nela? — perguntei. — O menor aqui tentou passar a mão no rosto dela, Chefe. Eu vi pelas câmeras da esquina antes de você chegar. Senti um espasmo de fúria cega. Caminhei até ao primeiro garoto e dei-lhe um pontapé no estômago que o fez dobrar-se, vomitando bile. — No meu morro, quem olha para a mulher do Comandante morre cego. Quem tenta tocar nela, morre sem as mãos. Mas como eu estou de bom humor, vou ser rápido. Saquei a minha pistola de ouro. O brilho do metal sob os refletores do pátio era a última luz que aqueles dois veriam. — Comandante, não! — Antonella gritou, agarrando o meu braço livre. — Eles não me fizeram nada! Eu que saí! A culpa é minha! Por favor, não os mate! Olhei para ela. A minha ruiva, com os olhos transbordando de uma compaixão que não tinha lugar aqui. Ela ainda achava que podia negociar vidas como se estivesse a negociar um vestido novo. — A culpa é sua, sim — respondi, aproximando o meu rosto do dela. — E o sangue deles vai ficar nas suas mãos para você nunca mais esquecer que as suas ações têm consequências. Você ouviu o que eu disse para a Beatriz, não ouviu? Que você era útil? Uma moeda de troca? Ela recuou, a dor daquelas palavras voltando a atingi-la. — Eu ouvi a verdade — ela soluçou. — Aquilo foi para ela ouvir, sua i****a! — rugi, embora uma parte de mim soubesse que eu estava a mentir para nós dois. — Mas se você quer ser tratada como algo mais do que uma mercadoria, aprenda a respeitar o dono do morro. No Alemão, a misericórdia é uma sentença de morte para o líder. Afastei-a com um empurrão firme, deixando-a nas mãos de um soldado para que ela não pudesse fechar os olhos. — Marreco. Executa. Agora. Na frente dela. — Não! — o grito dela foi abafado pelo som seco e ritmado dos disparos. Pá! Pá! Dois tiros na nuca. Limpos. Eficientes. Os corpos caíram pesadamente no cimento, o sangue começando a formar uma poça escura que se estendia em direção aos pés descalços de Antonella. Ela desabou de joelhos, as mãos no rosto, os soluços sacudindo o seu corpo pequeno. Caminhei até ela e agarrei-a pelo cabelo, não com força para machucar, mas para forçá-la a olhar para o que eu era capaz de fazer. — Olha para eles, Antonella — sussurrei no ouvido dela, enquanto o cheiro de pólvora e morte pairava sobre nós. — É isso que acontece com quem cruza o meu caminho. É esse o homem que te possuiu hoje à noite. Não há poesias aqui. Não há Leblon. Há apenas eu, você e o sangue que nos une agora. Levantei-a do chão, o corpo dela mole nos meus braços. Ela não lutou. Ela não gritou. Parecia que a alma dela tinha finalmente desistido de lutar contra a realidade. — Leva-a para dentro — ordenei a um soldado. — Tranca-a no meu quarto. Se ela respirar perto de uma janela, você morre em seguida. Observei-a ser levada, um trapo de seda e dor. Eu sentia um vazio imenso, uma raiva que não passava nem com a execução. Eu tinha marcado a Antonella de novo, mas desta vez não foi com beijos. Foi com trauma. Fiquei sozinho no pátio, olhando para os corpos. Eu era o Comandante. Eu era o Terror do Alemão. Eu tinha mantido a ordem, tinha expulsado o passado e punido a insubordinação. Mas enquanto eu limpava uma gota de sangue que tinha saltado para o meu braço, eu sabia que tinha acabado de perder a única coisa que me fazia sentir um pouco menos monstro. Antonella nunca mais me olharia com desejo. A partir de agora, só haveria medo. E o pior de tudo é que era exatamente assim que as coisas deveriam ser. Traguei o ar frio da madrugada, senti o peso da pistola na cintura e caminhei para dentro. A guerra civil dentro da minha própria casa tinha apenas começado, e eu tinha acabado de disparar o primeiro tiro contra o meu próprio coração.
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