Acordar entre lençóis de cetim preto deveria ser um sinal de luxo, mas para mim, naquela madrugada, pareceu o despertar dentro de um caixão. O silêncio no quarto do Comandante era absoluto, interrompido apenas pelo zumbido distante de um gerador e pelo bater frenético do meu próprio coração. Estiquei a mão para o lado esquerdo da cama, buscando o calor do corpo que, horas antes, tinha me possuído com uma fúria divina e profana.
Nada. Apenas o frio do tecido e o cheiro dele — aquele perfume de madeira, uísque e perigo que agora estava impregnado na minha pele como uma marca de propriedade.
Sentei-me na cama, puxando o lençol para cobrir minha nudez, sentindo cada músculo do meu corpo protestar. Eu estava marcada. Sentia o peso dos beijos dele no meu pescoço, a pressão dos seus dedos nas minhas coxas. Eu tinha me entregado ao monstro. Pior, eu tinha correspondido. A ruiva do Leblon, a garota que citava poesias e sonhava com amores de galeria de arte, tinha se perdido nos braços do maior criminoso do Rio de Janeiro.
— Comandante? — chamei, minha voz saindo rouca, um fio de som que se perdeu nas sombras do quarto imenso.
A insegurança me atingiu como uma onda gelada. Onde ele estava? Teria sido apenas uma transação para ele? Uma forma de cobrar os juros da dívida do meu pai com o meu corpo? A dúvida começou a corroer a paz efêmera que o prazer tinha me proporcionado. Eu me sentia descartada, uma peça de xadrez que ele usou e guardou na caixa quando o jogo ficou entediante.
Levantei-me, ignorando a tontura. Encontrei um roupão de seda preta dele pendurado atrás da porta e o vesti, afogando-me no tecido que exalava o seu cheiro. Eu precisava encontrá-lo. Precisava olhar nos olhos dele e ver que o que aconteceu não foi apenas uma descarga de adrenalina pós-guerra.
Saí do quarto e caminhei pelo corredor escuro. A fortaleza parecia diferente à noite; as sombras eram mais longas, e o eco dos meus passos descalços parecia um aviso. Eu desci as escadas em direção ao escritório inferior, o lugar onde ele costumava despachar as ordens de morte.
À medida que me aproximava da porta entreaberta, o som de vozes me fez parar. Uma voz masculina, profunda e tensa — a dele. E uma voz feminina. Uma voz que eu nunca tinha ouvido, mas que carregava uma confiança que me fez gelar o sangue. Era uma voz que soava como veludo sobre giletes.
Aproximei-me da fresta da porta, prendendo a respiração. O ar ali era pesado, carregado com o cheiro de cigarro e um perfume feminino forte, floral e invasivo.
— Você não mudou nada, Comandante — a mulher disse. Eu vi apenas a silhueta dela: cabelos escuros, postura de rainha, um casaco de couro que parecia uma armadura. — Continua guardando seus brinquedos em jaulas de ouro. Eu vi a ruivinha lá em cima pela câmera. Bonitinha. Mas ela não aguenta cinco minutos no nosso mundo.
— O que você quer, Beatriz? — a voz dele era um rosnado, mas não era a fúria que ele usava com o Marreco. Era algo mais complexo. Tinha história ali. Tinha um passado que ele nunca mencionou.
— Eu quero o que é meu por direito — ela deu um passo em direção a ele. Eu vi o Comandante imóvel, as mãos para trás, a postura rígida. — Eu ajudei você a construir este império antes de me darem como morta. Aquela garota... ela é só uma distração. Uma dívida de sangue que você resolveu cobrar entre as pernas. Não me diga que o grande Terror do Alemão se apaixonou por uma boneca de porcelana do Leblon?
Houve um silêncio que pareceu durar uma eternidade. Meu coração martelava contra as costelas, implorando por uma negação. Diga que não, Comandante. Diga que eu significo algo.
— Ela é útil, Beatriz — a voz dele saiu fria, cortante como um bisturi. — Ela serve para manter o pai dela sob controle e para me dar o que eu preciso nas horas vagas. Não confunda desejo com importância. No final do dia, ela continua sendo apenas uma moeda de troca. Uma mercadoria de luxo que eu estou desfrutando enquanto o pagamento não chega.
As palavras dele me atingiram com a força de um tiro de fuzil à queima-roupa. Recuei, tropeçando nos meus próprios pés, a mão na boca para sufocar o soluço que ameaçava explodir. Útil. Moeda de troca. Horas vagas. Cada carícia, cada palavra de posse na cama, cada vez que ele me chamou de "sua ruiva"... era tudo mentira. Uma estratégia de guerra para domar a refém. Eu não era a mulher dele. Eu era o entretenimento dele. A humilhação queimou em minhas veias, transformando o resto de carinho que eu sentia em um ódio purulento.
Corri de volta para o andar de cima, mas não para o quarto dele. Eu não suportaria o cheiro dele. Entrei no quarto que me foi dado originalmente e tranquei a porta, desabando no chão. O roupão dele agora parecia uma mortalha. Eu o arranquei com nojo, jogando-o longe, e vesti o primeiro vestido simples que encontrei na sacola.
Eu precisava sair dali. A fortaleza, que por um momento pareceu um refúgio, agora era uma prisão sufocante. Eu sentia as paredes se fecharem sobre mim. Eu era a "ruivinha bonitinha" que não aguentava cinco minutos. Pois eu ia mostrar a ele, e àquela mulher do passado dele, que eu não era uma boneca de porcelana.
Fui até a janela e olhei para o morro. O Alemão não era apenas um emaranhado de casas; era um organismo vivo. Eu via as luzes, ouvia o som do funk que nunca parava, o riso das crianças que brincavam mesmo na escuridão, o grito dos vendedores. Havia uma vida ali que eu nunca conheci. Uma vida crua, real, longe das falsidades do Leblon e da crueldade fria do Comandante.
Eu senti uma curiosidade súbita e desesperada. Eu queria conhecer o morro. Queria andar naquelas ruelas sem o peso da proteção dele. Queria ver a realidade que ele dizia que eu não entendia. Talvez, se eu me misturasse ao caos, eu pudesse encontrar uma saída. Ou talvez, eu pudesse encontrar a mim mesma, longe da sombra dele.
— Você acha que eu sou mercadoria? — murmurei para o vidro embaçado pela minha respiração. — Pois tente me vender agora, Comandante.
Abri a porta do quarto com cuidado. Eu sabia que Marreco e os outros soldados estariam lá fora, mas eu também sabia que o Comandante estaria ocupado demais com a sua "visita do passado". Usei o conhecimento que adquiri observando as câmeras no escritório dele dias atrás. Havia uma saída de serviço perto da lavanderia que levava a um beco lateral, geralmente usada pelos entregadores de gás.
Saí furtivamente, as sombras me abraçando. O ar da madrugada era úmido e carregado com o cheiro de esgoto e comida frita. Quando meus pés tocaram o asfalto irregular do beco, senti uma tontura de liberdade.
Eu estava no Alemão. Sem guarda-costas. Sem o Comandante.
Caminhei em direção à rua principal, onde o movimento era maior. As pessoas me olhavam — meu cabelo ruivo era um farol naquela escuridão —, mas ninguém me parou. Eles viam o pavor e a determinação nos meus olhos. Eu passei por um bar onde homens bebiam cachaça e jogavam dominó sob uma lâmpada nua. Passei por mulheres que penduravam roupas às três da manhã sob o brilho da lua.
A pobreza era gritante, mas havia uma dignidade naquela sobrevivência que me fez sentir pequena. Eu, que chorava por causa de um sequestro de luxo, estava cercada por pessoas que lutavam contra a fome e a polícia todos os dias.
Entretanto, o sentimento de estar sendo seguida começou a crescer. O Alemão não perdoa estranhos. Eu via os olhares mudarem. O que antes era curiosidade, agora era predação. Dois homens jovens, com radinhos na cintura e armas aparentes, começaram a caminhar na minha direção, rindo.
— Olha só o que caiu do céu, menor... — um deles disse, bloqueando meu caminho. — A ruivinha do chefe está passeando sozinha? O Comandante ficou cansado ou você que fugiu da jaula?
Recuei, meu coração disparando. A realidade do morro, que parecia fascinante de longe, agora mostrava seus dentes. Eu não era livre. Eu era apenas um alvo móvel fora da proteção do monstro.
— Deixem-me passar — tentei usar o tom autoritário que meu pai usava, mas minha voz falhou.
— A gente te deixa passar, gracinha... mas o pedágio é caro — o outro esticou a mão para tocar meu rosto.
Fechei os olhos, esperando o pior, amaldiçoando o Comandante por suas palavras e a mim mesma por minha estupidez. Mas o toque não veio. O que veio foi o som de um motor roncando alto e o brilho de faróis que cegaram os dois rapazes.
A porta do carro abriu com violência. Eu não precisei abrir os olhos para saber quem era. O ar ao meu redor mudou instantaneamente. O frio voltou.
— Entra. No. Carro. — a voz do Comandante não era um rosnado desta vez. Era o som da morte batendo à porta.
Os dois garotos caíram de joelhos, tremendo. O Comandante nem olhou para eles; seus olhos estavam fixos em mim, e neles eu vi algo que me assustou mais do que os dois traficantes: uma fúria possessiva que prometia que, desta vez, as paredes da minha jaula seriam muito mais altas.
Entrei no carro, em silêncio. A aventura tinha acabado. A insegurança tinha se transformado em um desespero gelado. Eu tinha visto o morro, mas agora, o morro — e o seu dono — iam me mostrar o que acontece com as mercadorias que tentam fugir do estoque.
— Você ouviu, não foi? — ele perguntou, sem tirar os olhos da estrada, enquanto subíamos de volta para a fortaleza.
Não respondi. Apenas olhei pela janela, vendo a liberdade desaparecer.
— Beatriz é o passado, Antonella. E o passado tem o hábito de mentir para sobreviver. Mas você... você acabou de garantir que eu nunca mais tire os olhos de você. Nem por um segundo.
Eu não era mais uma moeda de troca. Eu era uma prisioneira de guerra. E a guerra, eu percebi com um aperto no coração, estava apenas começando.