Capítulo 15

1157 Palavras
Rafael narrando Depois que coloquei o Benjamim para dormir, o silêncio tomou conta da casa de um jeito diferente. Não era só ausência de barulho. Era aquele tipo de silêncio que vem depois de um dia pesado… quando tudo parece finalmente desacelerar, mas a sua mente continua correndo. Fiquei alguns segundos parado na porta do quarto dele, observando. Ele dormia tranquilo. Respiração leve. Abraçado no travesseiro, com o cabelo ainda úmido do banho. Passei a mão devagar pela cabeça dele, ajeitando um fio que caía na testa. — Boa noite, campeão… — murmurei baixo. Apaguei a luz e fechei a porta com cuidado e foi só quando virei as costas que senti o peso do dia cair de vez. Desci as escadas em silêncio, afrouxando o botão da camisa, já sem a mesma pressa de antes. A casa estava vazia… limpa… organizada… mas ainda assim carregada de tudo que tinha acontecido. Fui direto para o bar. Peguei um copo. Gelo e Whisky. O som do gelo batendo no vidro ecoou mais do que deveria. Servi devagar, observando o líquido preencher o copo. Levei até os lábios e tomei um gole. O gosto forte, desceu queimando, mas não o suficiente, para apagar o que estava na minha cabeça. Me encostei na bancada, apoiando uma das mãos no mármore frio e pensei em tudo. No dia inteiro. Na viagem. Na reunião interrompida. Na imagem do Benjamim chorando. Na forma como a Isabela estava… completamente perdida. Na forma como ele correu até mim. E, inevitavelmente… nela. Eduarda. Soltei um ar lento, passando a língua pelos lábios, ainda sentindo o gosto do whisky. Uma estranha. Era isso que ela era. E, ainda assim… meu filho não tratou ela como uma. Pelo contrário. Ele se abriu. Confiou. Brincou. Sorriu. Aquilo não era comum. Aquilo não acontecia e o mais estranho… era que eu não entendia o porquê. Ela não tinha nada de extraordinário. Pelo menos, não à primeira vista, mas tinha alguma coisa. Alguma coisa que fez o Benjamim baixar a guarda e isso… isso não é pouca coisa. Tomei mais um gole. Mais lento dessa vez. Pensativo. O jeito dela também não saía da minha cabeça. A forma como respondeu às mensagens. Questionando o valor. Querendo devolver. Qualquer outra pessoa… não pensaria duas vezes antes de aceitar, mas ela não. Ela hesitou. Isso dizia muito. Sobre caráter. Sobre princípios. Sobre quem ela era. Passei a mão pelo maxilar, olhando para o nada. — Interessante… — murmurei baixo. Mas não era só isso. Também tinha o erro. O descuido. A alimentação errada. Aquilo me incomodava. Mesmo que, no final, nada tivesse acontecido, mas ainda assim… ela não sabia e isso era um risco. Fiquei alguns minutos ali, em silêncio, analisando cada ponto, como sempre faço. Prós. Contras. Possibilidades. Até terminar o whisky. Coloquei o copo na bancada e respirei fundo. Já estava tarde. Subi para o quarto. Tirei a roupa pelo caminho, entrando direto no banheiro. Liguei o chuveiro e deixei a água cair sobre mim. Quente. Forte. Relaxando os músculos tensos, mas não a mente. Encostei a mão na parede, deixando a água escorrer pelo rosto. E, mais uma vez… Eduarda. Benjamim. Isabela. Tudo misturado. Mas uma coisa estava clara. Eu precisava de alguém confiável para ficar com meu filho. Alguém que ele aceitasse. E, até agora… só tinha uma pessoa que se encaixava nisso. Mesmo com os erros. Desliguei o chuveiro depois de alguns minutos. Me sequei rápido, coloquei uma roupa confortável e fui direto pra cama. Apaguei a luz. Deitei. E, pela primeira vez no dia… o cansaço venceu. Acordei com um peso leve sobre mim e uma voz pequena. — Papai… Abri os olhos devagar, ainda me adaptando à luz do quarto. O Benjamim estava ali. Subido na cama. Me olhando. — Bom dia, campeão… — falei, a voz ainda rouca de sono. Ele sorriu. — Papai… você pode chamar a Duda pra brincar comigo? Fiquei em silêncio por um segundo. Aquilo ainda era novo, mas, ao mesmo tempo… cada vez mais natural vindo dele. — Posso falar com ela — respondi, me apoiando no cotovelo. Os olhos dele brilharam na hora. — Sério? Assenti de leve. — Mas primeiro… eu vou tomar um banho, fazer minhas coisas… e a gente se encontra lá embaixo pra tomar café, certo? Ele concordou rápido. — Tá bom! E saiu da cama praticamente pulando, já animado. Fiquei alguns segundos olhando pra porta depois que ele saiu. Um pequeno sorriso escapou, quase imperceptível. Levantei, passando a mão no rosto, tentando acordar de vez. Caminhei até o banheiro, mas antes de entrar… o celular tocou. Olhei para a tela. Isabela. Minha expressão fechou na hora. Atendi. — Fala! — Rafael, bom dia — a voz dela veio controlada do outro lado. — Você tem uma reunião ao meio-dia com um dos acionistas do shopping. Eu já— — Cancela — cortei, direto. Silêncio. — Como assim cancelar? — Ela questionou, surpresa. — Essa reunião é muito importante. Passei a mão pelo cabelo, já sem paciência. — Eu já dei a ordem. — Rafael, você não pode— — Eu posso — cortei de novo, agora mais firme. — E você vai fazer o que eu estou mandando. O silêncio voltou. Mais pesado. — Entendido — ela respondeu, seca. Desliguei sem dizer mais nada. Fiquei olhando pro celular por um segundo e então entrei no banheiro. Liguei o chuveiro, deixando a água cair enquanto minha mente já voltava a trabalhar. Isabela. Ela estava passando dos limites. Muito. Acesso às câmeras. Interferindo na minha casa. Questionando minhas decisões. Aquilo não ia continuar. Enquanto a água escorria pelo meu corpo, uma decisão começou a se formar com mais clareza. Eu precisava de outra assistente. Alguém profissional. Alguém que soubesse o lugar dela. E, principalmente… alguém que não confundisse trabalho com invasão. Desliguei o chuveiro. Me arrumei e desci. O Benjamim já estava na cozinha, sentado, mexendo em alguma coisa na mesa. — Papai! — ele abriu um sorriso assim que me viu. — Bom dia! Me sentei ao lado dele, pegando o celular. Abri a conversa. Eduarda. Fiquei alguns segundos olhando. E então digitei. “Esteja pronta às 12h30. Vamos almoçar! Não se atrase.” Simples. Direto. Enviei. Deixei o celular na mesa e comecei a tomar café com o Benjamim, mas no fundo… eu estava esperando. Não demorou muito. O celular vibrou. Peguei. Mensagem dela. “Estarei lá.” Assenti de leve, guardando o celular. Olhei pro meu filho. — Vamos almoçar com a Duda hoje. O efeito foi imediato. Os olhos dele brilharam. — Sério?! — Sério. Ele abriu um sorriso tão grande que parecia não caber no rosto. — Oba! Ri baixo, balançando a cabeça. E, naquele momento… uma coisa ficou ainda mais clara pra mim. Aquilo não era só sobre trabalho. Era sobre ele. Sobre o meu filho. E, talvez… sobre uma mudança que eu ainda não estava completamente preparado pra entender.
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