Pré-visualização gratuita capitulo 01
Eduarda narrando
Eu sempre imaginei que o fim da faculdade seria a parte mais difícil da minha vida. Provas finais, TCC, ansiedade, futuro. Mas nada — absolutamente nada — me preparou para o que aconteceu nos últimos meses.
Quando perdi meus pais naquele acidente, senti como se alguém tivesse arrancado o chão debaixo dos meus pés e levado embora junto a minha vida inteira. Eu não lembro de como cheguei ao velório, não lembro das condolências, não lembro de quem me abraçou. Só lembro do silêncio. Um silêncio tão profundo que parecia gritar dentro de mim.
Agora, três meses depois, estou sentada no chão gelado do meu quarto vazio, encarando a carta de despejo como se ela pudesse, por mágica, rasgar a si mesma e desaparecer.
— Trinta dias, Eduarda — eu murmuro para mim mesma, a voz arranhada. — Você tem trinta dias para dar um jeito na própria vida.
Mas eu não tenho dinheiro. Não tenho família. Não tenho mais ninguém.
A única pessoa que sobrou é a Rebeca — minha amiga maluquinha da faculdade, que aparece no meu apartamento mesmo quando eu digo que não quero ver ninguém. Do jeito dela, totalmente errado, caótico e carinhoso, ela tenta me manter de pé.
Hoje, por exemplo, ela entrou pulando pela porta como se o mundo fosse uma festa.
— Duda, você não vai acreditar! — ela gritou, jogando a mochila no sofá como se fosse dela. — Eu resolvi sua vida!
Eu rolei os olhos.
— Resolveu minha vida? Você m*l resolve a sua, Beca.
— É sério! — Ela se ajoelhou ao meu lado, segurando meus ombros. — Uma amiga minha me contou que o pai dela trabalha com um cara super rico e poderoso… tipo, muito rico… tipo, comprar um país rico.
— Isso não está ajudando.
— Calma! — Ela levantou um dedo. — Ele tá procurando uma babá. E eu te indiquei.
Eu congelei.
— Babá? Eu? Beca, eu nunca nem troquei uma fralda.
— Mas você é responsável, inteligente, carinhosa… e desesperada o suficiente. Isso ajuda.
Eu ri. Um riso fraco, quase sem som, mas que doeu. Porque era verdade.
— Eu não sei cuidar de criança.
— Ninguém sabe antes de aprender, Duda. E você precisa de um emprego agora. Uma renda. Um teto. É só por um tempo.
Eu respirei fundo, tentando afastar o nó na garganta.
— E quem é esse cara?
Ela franziu o nariz.
— Rafael Montenegro.
Eu quase gargalhei.
— O dono do Westfield Crown? O shopping gigantesco que parece um universo paralelo?
— Esse mesmo!
— Beca, você tá maluca. Gente desse nível não contrata alguém como eu. Sem experiência, sem referência, sem nada.
— Ele tá desesperado — ela disse, séria pela primeira vez. — A esposa morreu. O filho não aceita ninguém. Ele tá… no limite. E o pai da minha amiga falou seu nome. Ele vai te mandar mensagem. Ou ligar. Eu não sei.
Eu encarei minhas mãos trêmulas.
Se aquilo fosse verdade — se houvesse mesmo uma chance — eu deveria aceitar.
Porque o que restava?
Nada.
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A mensagem chegou às 22h47.
Uma notificação acendeu a tela do meu celular, e eu quase derrubei o aparelho quando li o nome:
Rafael Montenegro.
Meu coração bateu tão forte que eu senti no pescoço.
— Boa noite. O senhor Roberto me disse que você está disponível para trabalhar como babá.
Preciso de alguém imediatamente.
Pode conversar agora?
Eu não pensei. Não hesitei. Não respirei.
— Posso, sim.
A resposta dele veio em segundos, como se estivesse esperando.
— Ótimo. Tenho uma viagem urgente amanhã às 7h. Preciso que você chegue antes disso.
Endereço: [redigido].
Pagamento semanal, valores a combinar pessoalmente.
Pode começar amanhã?
Eu olhei ao redor do meu quarto vazio, da mala meio feita, da carta de despejo.
A vida inteira que eu tinha… já não existia.
— Sim. Começo amanhã.
Enviei antes que a coragem fugisse.
Depois disso, a noite foi um borrão. Arrumei roupas, procurei documentos, revisei minha mochila três vezes. Beca apareceu de pijama de unicórnio, dizendo que precisava “ver minha cara de pobre coitada ansiosa de perto”. Ela ficou comigo até eu adormecer — ou desmaiar — no sofá.
Eu acordei às 6:20h da manhã com o celular vibrando.
Era outra mensagem dele.
— Motorista a caminho. Chega em 20 minutos.
Engoli seco.
Era oficial.
Eu estava indo cuidar de uma criança que nunca vi, para um homem que só conhecia pela internet, numa casa que provavelmente tinha mais banheiros do que eu tinha roupas.
Eu penteei o cabelo com os dedos, lavei o rosto e encarei meu reflexo.
Parecia uma versão opaca de mim mesma.
Mas ainda era eu.
E eu precisava tentar.
Minutos depois, o carro preto parou em frente ao prédio. A porta se abriu, e o motorista — educado, silencioso — confirmou meu nome. Eu só consegui balançar a cabeça.
Quando me acomodei no banco traseiro, minhas mãos estavam tão frias que eu as escondi entre as pernas.
Enquanto o carro avançava pela estrada ainda escura, só um pensamento martelava dentro de mim:
Será que eu estou fazendo a maior loucura da minha vida… ou a única coisa que pode salvá-la?
Eu não sabia.
Mas naquele momento, enquanto as luzes da cidade ficavam para trás, senti um aperto no peito.
Aquele tipo de aperto que avisa que alguma coisa importante está prestes a acontecer.
E eu ainda nem imaginava que, naquela casa onde eu estava prestes a entrar, havia um menino quebrado…
e um homem que carregava mais dor do que eu era capaz de reconhecer.
Mas nós três, do nosso jeito torto e ferido, estávamos prestes a mudar a vida uns dos outros.
Para sempre.
Estava quase chegando na casa do senhor Rafael, quando meu celular vibrou com uma mensagem dele:
— precisei sair pra não perder o vôo, Benjamin ainda está dormindo. Tô confiando a você a coisa mais importante da minha vida, então não pisa na bola.- aquelas palavras me deram uma sensação estranha, como se ele tivesse de alguma forma me ameaçando.