Rafael narrando
Dizem que perder alguém que você ama é como acordar todos os dias com a sensação de que falta ar.
Mentira.
É pior.
O ar continua lá. Eu só não sei respirar sem ela.
Eu estava sentado à beira da cama, ainda de terno, a gravata solta, os punhos da camisa amassados pelas mãos que eu mantive fechadas o dia inteiro. O relógio na parede marcava quase onze da noite, mas o tempo já não tinha o mesmo significado desde que Helena se foi.
O quarto parecia maior, frio. O lado dela da cama continuava arrumado, intocado. Eu não tinha coragem de bagunçar. Nem coragem de desfazer. Nem coragem de aceitar.
E, no quarto ao lado, o Benjamin dormia — ou tentava dormir — depois de chorar até o corpo cansar. Eu sabia que aquilo não era só saudade da mãe. Era desespero. Era medo. Era tudo o que uma criança de quatro anos não deveria sentir.
E eu? Eu estava fazendo o meu melhor. Mas o meu melhor já não era suficiente fazia meses.
Passei a mão no rosto, sentindo a barba por fazer, e peguei o tablet com os relatórios do shopping. Uma filial em Brighton tinha apresentado uma queda brusca no fluxo. Algo sério. Sério o suficiente para exigir minha presença. Sério o suficiente para eu ter que deixar meu filho para trás, ainda que por dois dias.
E esse era o problema.
Benjamin não aceitava ninguém.
Nenhuma babá conseguiu ficar mais de uma manhã.
A última saiu em prantos, dizendo que “não era normal uma criança gritar tanto”.
Não, não era normal.
Mas era a realidade.
Eu me levantei e fui até a porta do quarto dele. Abri devagar; a luz do corredor desenhou a silhueta pequena encolhida no meio da cama, segurando o urso que era da Helena. Ele nunca dormia sem ele. Era o que restava.
— Boa noite, filho — sussurrei, só para ouvir o som da minha própria voz.
Ele não respondeu.
Ele raramente respondia quando eu não estava ao lado dele.
Fechei a porta com cuidado.
Eu precisava de alguém.
Alguém que o aceitasse.
Ou pelo menos tentasse.
Foi quando o Roberto, meu segurança mais antigo — praticamente família — me mandou mensagem:
— Rafael, conheço uma menina que precisa de trabalho. Indicada por alguém de confiança meu.
É nova, mas… esforçada. E decente.
Eu fiquei encarando o celular.
Decente.
Era engraçado como eu tinha aprendido a valorizar essa palavra.
Procurei o contato que ele enviou.
Eduarda.
Uma foto de perfil em que ela estava vestida como se estivesse fantasiada, sem jeito, como quem não sabia que alguém estava tirando foto.
Ela parecia… jovem demais.
Talvez maluca demais, ou inocente demais.
Frágil demais para a bagunça emocional que era meu lar.
Mas eu não tinha escolha.
Eu precisava viajar às sete da manhã.
Benjamin precisava de alguém.
E eu precisava respirar por algumas horas sem sentir que o mundo desabava sobre meus ombros.
Abri a conversa e escrevi, sem rodeios:
Boa noite. O senhor Roberto me disse que você está disponível para trabalhar como babá.
Preciso de alguém imediatamente.
Pode conversar agora?
A resposta dela veio rápido. Rápido demais. Como se estivesse segurando o telefone, esperando qualquer chance.
— Posso, sim.
Algo no meu peito apertou.
Talvez fosse o alívio.
Talvez fosse medo de confiar em alguém que eu não conhecia, principalmente porque ela não parece ser muito responsável. Essa mulher deve estar aprendendo ainda como lidar com as coisas da vida.
Escrevi outro texto:
> Ótimo. Tenho uma viagem urgente amanhã às 7h. Preciso que você chegue antes disso.
Endereço: (…).
Pagamento semanal, valores a combinar pessoalmente.
Pode começar amanhã?
Houve um pequeno intervalo, mas ela respondeu:
— Sim. Começo amanhã.
Só então percebi que estava prendendo a respiração.
Coloquei o celular na mesa de cabeceira e pressionei os dedos contra os olhos.
Eu estava realmente contratando uma estranha.
Para cuidar da coisa mais importante que existia na minha vida.
Eu levantei e fui até a janela.
Lá fora, a cidade dormia, silenciosa, indiferente à bagunça interna que me consumia desde o dia em que Helena fechou os olhos pela última vez.
Eu tentei afastar a lembrança, mas era impossível.
O hospital.
O cheiro de álcool.
As mãos dela, tão leves, tão frias.
A última vez que ela disse meu nome.
A última vez que ela pediu, com a voz fraca, que eu cuidasse do nosso filho.
Eu prometi.
E desde então, cada dia era uma luta contra a sensação de que eu estava falhando.
O bip do celular me arrancou do pensamento.
Outra mensagem.
— Motorista chegando às 6h40 para pegar a moça. Tudo certo?
Roberto era direto.
Eu respondi:
— Tudo certo.
Mas não estava tudo certo.
Eu não estava certo.
Caminhei até o escritório, acendi a luz e encarreguei-me de preparar instruções para ela. Instruções demais, provavelmente.
Rotina do Benjamin.
Medicamento para a alergia.
Alimentos que ele aceitava.
Alimentos que ele não aceitava.
Comportamentos.
Gatilhos.
O quarto.
O horário da soneca.
A música que ele tolerava.
As que não tolerava.
Quando terminei, passei as mãos pelos cabelos, exausto.
Eu estava transformando meu luto numa ditadura.
Talvez fosse por isso que nenhuma babá tinha ficado.
Às duas da manhã, eu ainda estava acordado.
Às quatro, eu já estava no chuveiro.
Às seis, preparando a mochila do Benjamin para o caso de ela precisar sair com ele.
Meu celular tocou, e eu peguei ele no bolso da calça vendo o nome do Roberto.
— senhor, se não sairmos agora o senhor não conseguirá chegar a tempo, parece que houve um acidente na estrada perto do aeroporto.
— mas a babá ainda não chegou Roberto, como vou sair e deixar o ben aqui com ela sozinho ? Nem sei como ele vai reagir quando acordar e não me ver aqui.
— sinto muito senhor, mais se não sair agora, o senhor vai perder o vôo.— respirei fundo irritado e sentindo um aperto no peito.
Trabalhei muito pra abrir essa filial, então agora nada pode sair errado. Peguei minha mala, fui até o quarto do Ben dar um beijo nele para poder me despedir.
Assim que entrei no carro, já peguei o celular para avisar a Eduarda que eu precisei sair mais cedo, e que o ben ainda dormia. Só espero que fique tudo bem, e que essa maluca não queira abandonar meu filho aqui sozinho, assim como as outras babás fizeram.