capitulo 12

985 Palavras
Rafael narrando RAFAEL NARRANDO Assim que entrei no avião, a primeira coisa que fiz não foi sentar, nem respirar, nem tentar relaxar. Foi puxar o celular. — Você fez a transferência? — perguntei direto, olhando pro Roberto enquanto ainda caminhava pelo corredor. Ele me acompanhava logo atrás, mantendo o mesmo ritmo. — Ainda não, senhor. Parei por um segundo, virando levemente o rosto na direção dele. Assenti, curto. — Deixa que eu mesmo faço. Não era só sobre pagar. Nunca foi só isso. Sentei na poltrona, já destravando o celular, abrindo o aplicativo do banco. Minha mente ainda estava na casa… no que eu tinha visto, no que eu não tinha visto… e, principalmente, no que eu estava sentindo. Eduarda. O nome dela veio direto. A imagem dela andando pela casa. Cuidando do Benjamim. E, principalmente… ele com ela. Aquilo ainda não saía da minha cabeça. Enquanto a tela carregava, eu fiquei alguns segundos parado, olhando pro nada, pensando. Qual valor? Quanto eu deveria mandar? Não era uma conta comum. Não era um pagamento comum. E, definitivamente, não era uma situação comum. Porque não era só pelo trabalho. Era por ele. Pelo meu filho. Passei a mão no maxilar, pensativo. Ela conseguiu acalmar o Benjamim. Só isso já dizia muita coisa. Eu nunca tinha visto aquilo antes. Nunca. Nenhuma babá conseguiu. Nenhuma. O Benjamim sempre foi difícil. Fechado. Intenso. Ele não aceita qualquer pessoa… não se entrega fácil… não confia. E, ainda assim… com ela, foi diferente. Eu vi. Vi pelas câmeras. Ele rindo. Brincando. Na sala. Leve. Como se já conhecesse ela há muito tempo. Aquilo não era normal. Aquilo não acontecia. E foi exatamente isso que pesou na minha decisão. Voltei a olhar pro celular. Cinco mil. Digitei o valor sem hesitar dessa vez. R$ 5.000,00. Não paga. Não paga nem perto do que ela fez. Nem que tenha sido por algumas horas. Porque ela cuidou do meu bem mais precioso. E isso… não tem preço. Confirmei o Pix. Enviei. Fiquei alguns segundos olhando a tela depois que a transferência foi concluída, como se aquilo fosse resolver alguma coisa. Mas não resolveu. Porque o problema não era dinheiro. Nunca foi. Travei o celular e encostei a cabeça no banco por um instante. O avião ainda estava se preparando pra decolar, mas, pra mim, cada segundo ali dentro já parecia uma eternidade. Poucos minutos depois, o celular vibrou. Abri. Era ela. Mensagem. “Senhor Rafael, sobre o Pix… esse valor está errado.” Franzi a testa automaticamente. Errado? Continuei lendo. “Eu nem cumpri a carga horária completa. O senhor pode me mandar a chave pra eu devolver o valor?” Minha expressão fechou um pouco mais. Devolver? Fiquei alguns segundos olhando praquelas palavras, tentando entender. Não fazia sentido. Ela estava questionando o dinheiro. Por quê? Independente do tempo, ela trabalhou. E mais do que isso… ela fez o que ninguém conseguiu fazer. Meu dedo pairou sobre a tela por um instante, como se eu fosse responder. Mas não respondi. Não vi necessidade. Pra mim, estava claro. Simples. Direto. E, sinceramente… naquele momento, minha cabeça estava longe demais pra ficar discutindo valor de pagamento. Travei o celular novamente. Mas não demorou muito pra eu abrir de novo. As câmeras. Era isso que importava agora. A imagem carregou. E, no segundo que apareceu… meu corpo inteiro tensionou. O Benjamim estava acordado. E estava chorando. Mas não era um choro qualquer. Era aquele choro que eu conheço. Forte. Descontrolado. Aquele que vem do fundo. Meu maxilar travou na hora. — Droga… — murmurei baixo. Aumentei a atenção na tela. E foi aí que a irritação subiu de vez. Isabela estava na sala. Sentada. Olhando. Só olhando. Enquanto o meu filho se jogava no chão, chorando, gritando… completamente fora de controle. Ela não fazia ideia do que fazer. Dava pra ver. Pelo jeito dela. Pelo corpo travado. Pelo olhar perdido. Aquilo me deu uma agonia imediata. Uma sensação r**m no peito. Porque eu conheço o meu filho. Eu sei como ele fica. E eu sei o que ele precisa nesses momentos. E ela… ela não fazia ideia. — Meu Deus… — passei a mão no rosto, tentando conter a irritação. Por um segundo, pensei em ligar. Resolver. Mandar ela fazer alguma coisa. Mas só de imaginar ouvir a voz dela… minha paciência acabou antes mesmo de tentar. Não. Eu não queria falar com ela. Não agora. Não daquele jeito. Então eu fiz a única coisa que eu podia fazer naquele momento. Observei. Fiquei ali, com o celular na mão, assistindo. Impotente. Preso dentro de um avião que ainda nem tinha decolado. E aquilo me incomodava mais do que qualquer outra coisa. Porque eu não estava lá. Eu não podia pegar ele no colo. Não podia acalmar. Não podia fazer nada. Só olhar. E esperar. Meu olhar não saía da tela. Cada movimento dele… cada tentativa frustrada dela… só piorava tudo. E, inevitavelmente… minha mente voltou pra algumas horas atrás. Ele não estava assim. Não estava. Muito pelo contrário. Ele estava bem. Calmo. Tranquilo. Brincando. Com ela. Eduarda. Uma completa estranha. E, ainda assim… ele não reclamou. Não chorou. Não se jogou no chão. Nada. E agora? Agora ele estava daquele jeito. Com alguém que ele já conhecia. Que já tinha visto antes. Que, teoricamente, deveria ser uma presença familiar. Soltei o ar devagar, sentindo a irritação crescer ainda mais. Aquilo só confirmava o que eu já desconfiava. Não é sobre tempo. Não é sobre convivência. É sobre conexão. E, de alguma forma… aquela garota conseguiu algo que ninguém conseguiu. Nem eu entendi como. Passei a mão pelo maxilar novamente, pensativo. E, pela primeira vez desde que entrei naquele avião… uma coisa ficou clara na minha cabeça. Aquilo não tinha terminado. Muito longe disso. Porque, assim que eu colocasse os pés em casa… eu ia resolver tudo. Do meu jeito. E, dessa vez… sem interferência de ninguém. continua...
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