Rebeca narrando
Se tem uma coisa que eu nunca vou negar nessa vida… é que a Eduarda é a minha pessoa. Minha melhor amiga. Minha irmã de alma. E, se depender de mim, eu vou fazer de tudo pra ver ela bem.
Sempre fiz. Desde que a gente se conhece. Mas, principalmente… depois que ela perdeu o pai. Aquilo acabou com ela. E comigo também, de certa forma. Porque eu vi de perto. Cada lágrima. Cada noite em claro. Cada tentativa dela de se manter forte… mesmo quando claramente não estava.
E eu prometi pra mim mesma que não ia deixar ela passar por tudo sozinha. Nunca. Nem que eu tivesse que puxar ela pela mão todos os dias.
Foi por isso que, quando meu pai chegou em casa aquele dia comentando sobre o tal "Rafael Montenegro"… eu prestei atenção.
Ele tinha acabado de voltar do trabalho e soltou, como quem não quer nada:
— O Rafael tá procurando uma babá pro filho.
Na hora, eu levantei o olhar.
— Babá?
— É… parece que nenhuma fica — ele respondeu, tirando o sapato.
Meu cérebro funcionou rápido. Muito rápido.
— Indica a Eduarda.
Ele me olhou.
— A Eduarda?
— Sim — falei, sem pensar duas vezes. — Ela precisa de trabalho. E ela é ótima com criança.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Pensando. E então assentiu.
— Eu conheço ela… — disse. — Sempre gostei dela.
Aquilo já ajudava muito. Meu pai não é de elogiar qualquer um. E, mesmo sendo uma pessoa mais fechada, mais na dele… ele sempre falou bem da Eduarda. Só que, ao mesmo tempo, ele não é de ficar de conversa. Ele trabalha demais. Sai cedo. Volta tarde. Então, apesar de conhecer ela… nunca teve muita proximidade.
Mas respeito sempre teve. E isso, naquele momento, era o que importava.
Depois disso, tudo aconteceu meio rápido. Ela foi. Conseguiu. E eu fiquei feliz pra caramba. Porque, finalmente, alguma coisa estava começando a dar certo pra ela.
E olha… já estava mais do que na hora. Porque a vida da Eduarda nunca foi fácil. Diferente da minha.
Eu sempre tive tudo. Não no sentido de luxo exagerado… mas nunca faltou nada. Meus pais fazem de tudo por mim. Sempre fizeram. Sempre me apoiaram. Sempre estiveram presentes. E isso faz diferença. Muita.
Eu sei que faz. E talvez seja por isso que eu sempre senti essa necessidade de estar ali por ela também. De retribuir de alguma forma. De ser esse apoio. Porque eu podia. E porque ela merecia.
Minha vida, no geral, sempre foi tranquila. Faço faculdade. Tenho meus pais. Tenho minha casa. E tenho o Tyler. Meu namorado.
Ele é uma boa pessoa. De verdade. Sempre me tratou bem. Carinhoso. Atencioso. Do tipo que todo mundo fala: "esse aí presta". E eu acredito nisso. Ou pelo menos… sempre acreditei.
Porque, ultimamente… ele anda estranho. Distante.
Mas eu não queria pensar nisso agora. Não naquele momento. Porque tinha coisa mais importante acontecendo.
Eu estava no meu quarto, mexendo no celular, quando ele tocou. Duda.
Atendi na hora.
— Amiga?
— Rebeca… — a voz dela veio diferente.
Eu já me ajeitei na cama.
— O que foi? Tá tudo bem?
— Eu vou me mudar.
Eu pisquei.
— Como assim?
— Eu vou morar na casa do Rafael.
Fiquei em silêncio por dois segundos. Processando. E então levantei da cama num pulo.
— O QUÊ?!
Ela começou a me explicar tudo. O almoço. A proposta. O salário. Morar lá. Cuidar do Benjamim.
E, enquanto ela falava… um sorriso foi crescendo no meu rosto. Porque, finalmente… finalmente!
— Amiga, isso é perfeito! — falei, já andando pelo quarto.
— Eu ainda tô meio em choque…
— Normal! Mas isso é incrível!
E era mesmo. Aquilo mudava tudo. Tudo.
— Você precisa de ajuda pra arrumar as coisas? — perguntei na hora.
— Preciso…
— Tô indo.
Nem esperei ela responder direito. Desliguei. Peguei minha bolsa. E saí.
No caminho, meu coração estava leve. Feliz. Porque, depois de tudo que ela passou… ela merecia isso. Mais do que ninguém.
Quando cheguei lá, bati na porta e esperei. Ela abriu. E, só de olhar pra cara dela… eu vi. Mistura de emoções. Ansiedade. Medo. Esperança.
— Eu vim ajudar — falei, entrando.
Ela sorriu. E aquilo já valeu o dia.
O apartamento estava meio bagunçado. Coisas separadas. Roupas. Caixas. Memórias.
— Por onde a gente começa? — perguntei, já arregaçando as mangas.
Ela riu fraco.
— Eu nem sei…
— Então a gente descobre.
E foi isso que a gente fez. Começamos a separar as coisas. Dobrar roupas. Guardar o que era importante. Descartar o que não fazia sentido levar.
E, no meio disso tudo… a gente conversava. Ria. Relembrava. Porque aquele lugar… não era só um apartamento. Era a história dela. E eu sabia o quanto aquilo estava sendo difícil.
Mas também sabia… que era necessário. Porque, às vezes, pra vida andar… a gente precisa deixar algumas coisas pra trás.
E, naquele dia… enquanto ajudava a Eduarda a arrumar tudo… eu tinha certeza de uma coisa.
Aquilo não era um fim.
Era um começo.
E, finalmente… um começo bom pra ela.