ISABELA NARRANDO
Eu sempre soube exatamente quem eu era.
E mais do que isso… sempre soube exatamente onde eu queria chegar.
Meu nome é Isabela. Secretária executiva de Rafael Montenegro. A mulher que organiza a agenda dele, que resolve problemas antes mesmo de virarem problemas, que está presente em praticamente todas as decisões importantes daquela empresa.
Mas isso… isso é só o que todo mundo vê.
O que ninguém enxerga… é o que existe por trás.
Porque eu não nasci pra ser coadjuvante na vida de ninguém.
Muito menos na dele.
Desde o primeiro dia que pisei naquele escritório, eu entendi o tipo de homem que o Rafael era. Postura firme, olhar frio, voz que não precisava ser alta pra impor respeito… ele não pedia espaço.
Ele tomava.
E eu sempre admirei isso.
Homens fracos nunca me interessaram.
Homens inseguros, indecisos… descartáveis.
Mas o Rafael?
Ele é diferente, Ele tem poder. Tem dinheiro. Tem presença. E, acima de tudo… tem um nome. Um nome que abre portas.
Que impõe respeito.
Que coloca qualquer mulher ao lado dele em outro nível.
E eu sempre soube que aquele lugar… podia ser meu.
O único problema… era ela.
A esposa perfeita.
A mulher intocável.
Aquela que todos viam como exemplo.
Bonita, delicada, mãe dedicada… uma imagem construída com tanto cuidado que chegava a irritar.
Mas eu nunca acreditei naquela perfeição.
Ninguém é perfeito.
E, no fundo… eu sabia que ela não era tudo aquilo que mostrava.
Ou talvez eu só precisasse acreditar nisso.
Porque, enquanto ela existia… eu não tinha espaço.
Simples assim.
E eu não nasci pra esperar sobras.
Eu nasci pra ser escolha.
Pra ser prioridade.
Pra ser a única.
A morte dela…
Foi uma tragédia pra muitos.
Mas pra mim?
Foi uma oportunidade.
E oportunidades… eu nunca deixo passar.
Claro, não foi algo simples. Não foi do dia pra noite. Nada na vida do Rafael Montenegro é fácil de alcançar.
Mas eu tive paciência.
Observei.
Esperei.
Aprendi cada detalhe da rotina dele, cada brecha, cada fragilidade.
E, principalmente… entendi que o ponto mais sensível dele não era a empresa.
Era o filho.
Benjamim.
Aquele menino sempre foi a chave.
Sempre.
Porque o Rafael pode ser frio com o mundo… mas com o filho?
Ele é outro homem.
Mais vulnerável.
Mais impulsivo.
Mais fácil de atingir.
E foi aí que eu comecei a construir o meu caminho.
Me aproximei devagar.
Sempre com cuidado.
Sempre no momento certo.
Nunca ultrapassando demais… mas também nunca sendo esquecida.
Eu estava ali.
Presente.
Disponível.
Confiável.
Ou, pelo menos… era isso que eu fazia ele acreditar.
Quando ela morreu, eu vi a mudança.
Vi o Rafael se fechar ainda mais.
Vi o peso cair sobre ele.
E foi ali que eu soube…
Era só questão de tempo.
Mas então veio o problema.
O menino.
Porque, diferente do pai, o Benjamim nunca gostou de mim.
Nunca.
Desde pequeno, ele me olhava como se enxergasse alguma coisa que ninguém mais via.
Como se soubesse.
Crianças são assim.
Intuitivas demais.
E isso sempre me incomodou.
Porque ele era um obstáculo.
Um pequeno obstáculo… mas ainda assim, um problema.
E problemas… eu resolvo.
Só precisava da oportunidade certa.
E ela veio.
Quando o Rafael me disse que iria viajar.
Eu me ofereci na mesma hora.
— Deixa ele comigo — falei, com a maior naturalidade do mundo. — Você sabe que pode confiar.
Mas ele recusou.
Claro que recusou.
— Eu já contratei alguém.
Aquilo me irritou.
Uma estranha.
Ele preferiu deixar o próprio filho com uma desconhecida… ao invés de confiar em mim.
Em mim.
Eu sorri.
Mas por dentro… eu já estava decidindo o que fazer.
— Você vai se arrepender — falei, mantendo a voz calma. — Deixar seu filho com uma estranha nunca é uma boa ideia.
Ele não respondeu.
Mas eu conheço o Rafael.
Aquela frase ficou na cabeça dele.
E foi o suficiente.
Porque eu não precisava da permissão dele.
Eu só precisava de uma brecha.
E hoje… eu tive.
Assim que vi pelas câmeras que a tal babá estava lá dentro, completamente à vontade… andando pela casa como se fosse dela, mexendo nas coisas…
Aquilo me subiu.
Quem ela pensa que é?
Uma qualquer.
Uma desconhecida.
Dentro da casa que eu lutei pra ter acesso.
Cuidando do filho do homem que deveria estar comigo.
Não.
Aquilo não ia ficar assim.
Eu fui até lá.
Sem avisar.
Sem pedir.
Porque eu não preciso pedir.
Entrei como se já fosse meu.
Porque, no fundo… eu sei que vai ser.
Quando cheguei, encontrei ela na cozinha.
De costas.
Como se fosse dona de tudo.
Aquilo me deu um nojo imediato.
— Então é você a irresponsável?
Falei antes mesmo que ela pudesse se virar.
Queria ver a reação.
E foi exatamente o que eu esperava.
Ela travou.
Gaguejou.
Tentou se explicar.
Fraca.
Completamente despreparada.
Eu observei cada detalhe.
Cada palavra m*l colocada.
Cada erro.
E quando ela falou do que tinha dado pro Benjamim…
Foi perfeito.
Simplesmente perfeito.
Ela tinha feito tudo errado.
Tudo.
Cereal.
Adoçante.
Comida sem orientação.
Era tudo que eu precisava.
Usei isso contra ela.
Sem dó.
Sem espaço pra defesa.
Porque eu não estava ali pra ouvir explicações.
Eu estava ali pra tirar ela dali.
E foi exatamente o que eu fiz.
Ela tentou insistir.
Pedir.
Se explicar.
Mas eu não dei espaço.
— Pega suas coisas e vai embora.
E quando ela ainda tentou continuar…
— Ou eu chamo a polícia.
Aquilo encerrou qualquer discussão.
Ela cedeu.
Como eu sabia que faria.
Porque pessoas como ela… não lutam.
Elas aceitam.
Saem de cabeça baixa.
E foi exatamente o que aconteceu.
Eu observei ela sair.
Sem olhar pra trás.
Sem força.
Sem importância.
E, finalmente…
A casa ficou como deveria estar.
Silenciosa.
No controle.
Comigo ali.
Olhei ao redor, passando os dedos pela bancada, sentindo aquela sensação que eu conheço bem.
Posse.
Caminhei até a sala.
O Benjamim ainda dormia. Tão pequeno.
Tão… inconveniente. Parei olhando pra ele por alguns segundos. A expressão tranquila, inocente… Mas eu sei o que existe ali. Eu sei o que ele representa. Um vínculo.
Um laço que nunca vai desaparecer. E isso… pode ser um problema. Mas não agora. Agora, ele é só parte do processo.
Me sentei no sofá, cruzando as pernas, completamente à vontade.
Peguei o celular.
Já imaginando o próximo passo.
Porque isso aqui…
Foi só o começo.
O Rafael vai voltar.
Eu sei disso.
E quando ele voltar…
Ele vai me encontrar aqui.
Cuidando do filho dele.
Fazendo exatamente o que aquela incompetente não conseguiu fazer.
E, aos poucos…
Eu vou ocupar o espaço que sempre foi meu.
Porque, no final…
Tudo na vida é sobre saber esperar o momento certo.
E quando esse momento chega…
Você não hesita.
Você toma.
E eu?
Eu sempre tomo.