6. Desconforto

2745 Palavras
Hyle Fiquei aliviada quando a porta se fechou atrás de Drako. A simples presença dele tinha bagunçado meus pensamentos de um jeito desconcertante. Se eu tivesse esbarrado com ele em qualquer outro lugar ou tempo, provavelmente teria sugerido que fôssemos direto para um quarto de hotel e o convidado a repetir todas aquelas coisas deliciosas que ele fez comigo um ano atrás. Mas agora ele era meu chefe. E por mais que meu corpo gritasse o contrário, eu não podia desejar que ele... pulasse em cima de mim. Na verdade, era bem estranho pensar que meu chefe já me viu nua — e não só viu. Ele me tocou de formas tão íntimas que minha pele ainda se lembrava. Sacudi a cabeça, tentando afastar a lembrança, e fui até a escrivaninha. Comecei a vasculhar as gavetas, mas a antiga assistente, Sra. Hathaway, aparentemente havia levado quase tudo. Só sobraram algumas canetas e blocos de anotações. Olhei em volta. Ao longo da parede que dividia minha sala do escritório de Drako, havia vários arquivos. Resolvi esperar a outra assistente chegar para me orientar com o sistema deles. Em cima da mesa, havia um monitor e, com um rápido olhar por baixo, vi o compartimento do CPU. Agora que eu já tinha uma noção geral do espaço, não restava muito a fazer além de esperar. Levantei-me e fui até a janela. A vista dava para o oceano. Vindo do Missouri, as paisagens com as quais eu estava acostumada eram riachos, rios ou, com sorte, uma lagoa. A primeira vez que vi o mar foi no ano passado, quando visitei a Kayle. Tinha sido... mágico. Havia algo em olhar para o oceano que me fazia sentir como se estivesse diante de outro mundo. Nada antes tinha parecido tão imenso. Era bonito de se ver — e o som das ondas batendo era surpreendentemente relaxante, mesmo aqui, tão perto da zona industrial. — Você deve ser a Hyle. Virei-me ao som da voz e vi uma mulher de meia-idade se aproximando. — Sou Julienne, assistente da Patrícia Reed. Bem-vinda à Transportadora Sullivan. — Ela estendeu a mão por cima da mesa. Apertei e sorri, agradecida. — Muito obrigada. Estou feliz por estar aqui. — O Sr. Sullivan pediu que eu viesse até aqui e te mostrasse um pouco do funcionamento da empresa. Ele ao menos te deu as boas-vindas, né? Assenti. — Sim, deu sim. Nas próximas uma hora e meia, Julienne me explicou como funcionavam os programas no computador e o sistema de arquivamento. Depois, me levou para conhecer o prédio, mostrando onde ficavam os banheiros femininos e a sala de descanso, onde eu poderia fazer pausas e almoçar. Lá havia máquinas de venda automática, uma cafeteira, uma chaleira elétrica e uma geladeira. — Se você não for fã de comida de máquina, melhor trazer seu próprio almoço de casa — ela disse, abrindo um sorriso simpático. — A área aqui é mais industrial, então os bons cafés ficam longe. Trazer comida de casa era, aliás, parte do meu plano de sobrevivência. Cada centavo economizado contava nessa nova fase da minha vida. — Sem problemas. Vou me planejar. Pegamos uma xícara de café cada uma e voltamos juntas para o terceiro andar. Ao sairmos do elevador, ela apontou para o lado oposto ao escritório de Drako. — Trabalho naquele corredor com a Patrícia. Se tiver qualquer dúvida, apareça por lá. Ou me liga no ramal — disse, digitando os números para me mostrar. — Muito obrigada. Tenho certeza de que terei perguntas. Por enquanto, só vou me acomodar. Ela sorriu e deu um leve tapinha no meu braço. — Tenho certeza de que você vai se sair muito bem aqui. Você vai adorar. Com isso, se virou e voltou para o escritório dela. Todo mundo ali tinha sido incrivelmente gentil. Mas me peguei pensando: o que eles pensariam se soubessem que eu já tinha dormido com o chefe um ano atrás? Será que Drako se envolvia com muitas mulheres? Será que ele tinha uma reputação? As duas funcionárias que conheci hoje não deram nenhum indício de que ele fosse o tipo de homem que cruzava a linha no ambiente de trabalho. Na verdade, minha entrevista com a Patrícia foi impecavelmente profissional. Tudo o que ela comentou sobre ele era que estava 100% focado em transformar a Transportadora Sullivan em um império de transporte marítimo. Sentei-me novamente à mesa e analisei os programas de computador. Diferentes dos que eu usava, mas fáceis de entender. Mexer com sistemas nunca foi um problema para mim. Fiquei ali por mais uma hora, mas não ouvi mais nada de Drako nem de ninguém. Era um ambiente surpreendentemente tranquilo. Comecei a me perguntar se conseguiria fazer amigos nesse novo trabalho ou se minha vida social dependeria de outras esferas da cidade. Como já estava quase na hora do almoço, decidi fazer minha pausa. Fiquei na dúvida se deveria avisar o Drako. Reuni coragem, caminhei até a porta e bati de leve. — Entre. Abri só um pouco, o suficiente para vê-lo. Meu Deus, ele estava tão lindo quanto eu me lembrava. A cada batida do meu coração, uma lembrança se formava — os toques, os beijos, a forma como ele me olhava. — Estava pensando em fazer minha pausa para o almoço... se não for um problema — disse, com um sorriso forçado. Ele me observou por um instante. Longo o suficiente para me fazer duvidar do que ele estava pensando. — Claro. Julienne te mostrou a sala dos funcionários? — Sim, mostrou. Achei que ele fosse dizer mais alguma coisa, mas logo voltou sua atenção para os papéis na mesa. Entendi o recado. Fechei a porta, peguei minha bolsa e segui para o elevador. No caminho, notei um terraço nos fundos do prédio. Decidi dar uma passada por lá para tomar um pouco de ar — mesmo que o ar não fosse tão puro assim, já que o cheiro da indústria misturava-se com o sal do mar. Ainda assim, o sol estava brilhando, e eu levantei o rosto para ele, fechando os olhos. O calor no rosto me acalmou. Mas a solidão reapareceu. Era estranho — eu achava que me mudar para cá resolveria essa sensação, mas, no fundo, ela ainda estava ali. Peguei meu celular e disquei o número da Tara. — Então, como está indo? — ela perguntou, cheia de entusiasmo. — Você não vai acreditar. — Acreditar em quê? — Ah, espera, eu sei. Seu novo chefe é Brad Pitt e vocês estão fugindo juntos. Bufei. — Não, mas ainda assim é louco. — Bem, não me deixe curiosa. Conta logo! — Meu chefe é o cara que conheci aqui ano passado. Ela ficou em silêncio por um momento e então soltou um gritinho. — Você quer dizer o Sr. Encontro Sensual? Assenti, lembrando que ela não podia me ver. — Sim, ele. — Meu Deus, deve ser destino! — É estranho — disse, um pouco irritada com a empolgação dela, como se não entendesse o quão embaraçosa era a situação. — Do que você está falando? Quer dizer, quais são as chances de encontrar o único cara que você nunca conseguiu esquecer? Tem que ser destino! — Ela estava animada demais com a notícia. — Isso não é destino. Além do mais, ele não é o mesmo. — Como assim, ele não é o mesmo? — Ele estava distante, alheio. Não sei se ele se lembra de mim. Esse era, na verdade, o cerne da minha confusão. Eu não ficaria surpresa se ele não se lembrasse de mim. Para mim, aquela noite estava gravada para sempre no cérebro, mas para ele eu era só mais uma mulher com quem ele tinha transado. E, além do mais, já tinha passado um ano. Quantas outras mulheres ele teria conhecido nesse tempo? — Você trabalha para ele, ele é seu chefe. Não é como se ele pudesse simplesmente dizer: "Suba na minha mesa e vamos começar a trabalhar." — Isso é estranho. Ele já me viu nua. — E você já o viu nu. Meu Deus. Era exatamente o que eu não precisava: entrar no escritório dele e imaginar seu corpo nu. Fechei os olhos para tentar afastar aquela imagem do meu cérebro. Claro que não adiantou. — Olha, se isso é estranho pra você, pode ser pra ele também. Talvez seja por isso que ele pareceu tão distante. Ele é seu chefe e, às vezes, existem regras para isso, sabia? Mas lembra: às vezes as regras são feitas para serem quebradas. Revirei os olhos. Não estou preparada para quebrar regras, especialmente com um homem. Eu terminei com relacionamentos por um tempo. Encerrei a ligação com a Tara e voltei para o prédio. Comprei um refrigerante na máquina e sentei à mesa com uma barra de cereal e uma maçã para o almoço. — Oi, Hyle. Como está indo seu primeiro dia? — disse Patrícia, entrando na sala de descanso com Julienne. — Estou me adaptando — respondi. — Excelente. — Patrícia pegou um recipiente plástico na geladeira enquanto Julienne comprava um sanduíche na máquina de venda automática. As duas se sentaram comigo. Sara entrou carregando uma sacola de comida para viagem. — Oi, Hyle. — O que tem aí hoje? — perguntou Julienne, olhando na bolsa de Sara. — Tacos. — O namorado da Sara trabalha como motorista de um desses serviços de entrega de comida — explicou Julienne. — Todo dia ele traz algo para ela de um dos pontos onde faz entregas. — Que legal — disse eu, falando sério. Um namorado que vinha todos os dias só pra isso tinha que ser um cara legal. — Você tem alguém na sua vida? — perguntou Sara, tirando dois tacos da sacola. Balancei a cabeça. — Tive, mas não era uma boa situação. — Sinto muito — disse Sara. — Sara ainda é jovem e vê estrelas nos olhos dela — disse Julienne, provocando. — A Hyle não é tão velha assim — disse Patrícia. — Ela é mais nova que eu. — Vocês todas são mais novas que eu — comentou Julienne, dando uma mordida no sanduíche. — Todos aqui parecem jovens — disse. — O Sr. Sullivan deve ser muito bom nos negócios. — Ele é, mas também está aqui desde que era criança — disse Patrícia. — O chefe idolatrava o pai e agora transformou isso na realização do sonho dele — acrescentou Julienne. — Que desperdício — disse Sara, guardando a alface que caiu do taco de volta na casca. — Ele é gostoso e, em vez de compartilhar isso com as mulheres, fica trancado no escritório. Isso foi novidade. — Ele não... namora? — O Sr. Sullivan não faz outra coisa além de trabalhar — disse Julienne. Patrícia deu de ombros. — Pelo menos desde que o pai dele morreu. Ela tinha um sorriso no rosto enquanto enfiava o garfo na salada de macarrão que tinha trazido de casa. — Que sorriso é esse, Patrícia? — perguntou Sara. — Parece que você sabe um segredo. — É o segredo do Drako? — brincou Sara. Ela engasgou. — Deus, não. Eu estava só pensando na última vez que o vi com uma mulher. Foi naquela festa que a Strong Incorporated deu no ano passado. Minha barra de cereal ficou presa na garganta. — A gente tinha acabado de fechar um contrato para enviar produtos para a Ásia e fomos convidados para uma festa que estavam dando. O Sr. Sullivan não pôde ir, mas o Drako e eu fomos. Ele se concentrou quase que imediatamente em uma mulher. No fim, eles foram embora cedo, só o vi de madrugada. — Oh, conta mais — disse Sara, inclinando-se para frente. Olhei para Patrícia e percebi que a festa devia ser onde eu a tinha visto antes, por isso ela parecia familiar. — É só isso que eu sei. O Drako não é de beijar e contar vantagem logo de cara. — Foi bom saber disso. — Mas foi a última vez que eu o vi com uma mulher. — Duvido que ele seja monge. Homens precisam de orgasmos como precisam respirar — brincou Julienne. Sara riu baixinho. — Verdade. Patrícia deu de ombros. — Não faço ideia de como ele lida com os impulsos. Mas, eu digo, se ele não está morto de libido, a Hyle aqui é perfeita para ele. Engasguei e quase cuspi o refrigerante que tomava. — Ah, desculpe — Patrícia deu um tapinha leve nas minhas costas. — Ele tem queda por mulheres morenas e curvilíneas. Mas não precisa se preocupar com ele. O Drako é rigoroso com regras e controle. — Bom saber. Depois do almoço, voltei para minha mesa. Não tinha recebido nenhuma tarefa específica e o telefone estava estranhamente silencioso. A antiga eu teria esperado ser instruída, mas, decidindo que essa mudança era virar uma página nova, resolvi ser proativa. Fui até a porta do Drako e bati. — Entre — ele respondeu. Reforcei a coragem para encará-lo de novo, abri a porta e entrei. Meus nervos ficaram à flor da pele ao vê-lo. Ele parecia poderoso e tão sexy em seu terno caro, sentado atrás da mesa. Ele me olhou com expectativa. Se eu fosse o tipo dele, não demonstrou. Engoli o desconforto daquele pensamento. — Eu me familiarizei com os sistemas do computador e o arquivamento, e estou pronta para começar a trabalhar em algo. Ele continuou me encarando. — Eu... ah... Se puder me dizer como ajudar, talvez tenha algum projeto para eu organizar ou ligações para fazer... Ele se recostou na cadeira e suspirou. — Desculpe, Sra. Evans. Contratar uma nova assistente é estranho para mim. Herdei a do meu pai e ela praticamente comandava este lugar, mas eu não sei exatamente o que ela fazia. Meus lábios se contraíram no canto, formando um sorriso tímido no rosto dele. — Eu deveria ter me preparado melhor para sua chegada. — Será que a Sra. Hathaway deixou um procedimento operacional padrão por aí? — Eu ainda não tinha encontrado nada assim, mas talvez ela tenha deixado com ele. Ele balançou a cabeça. — Devo parecer um completo i****a nos negócios, porque não faço a mínima ideia. — Talvez você possa me explicar seu trabalho — aproximei-me da mesa, querendo olhar os papéis e o que havia no computador. Pensei que, se visse o que ele estava fazendo, conseguiria descobrir como dar suporte. Ele enrijeceu e empurrou a cadeira para trás, levantando-se. O movimento me fez parar no meio do caminho. — Acabei de lembrar que tenho uma reunião — disse ele. Nota mental: verificar se o calendário dele está no meu computador, pois provavelmente deveria ter lembrado disso. — Sim, claro. Vou falar com o RH. Talvez eles tenham o procedimento operacional padrão. Se a Sra. Hathaway fosse tão dedicada quanto Patrícia falou, não consigo imaginar que não tenha deixado algo para ajudar a próxima assistente. Ele correu ao redor da mesa em direção à porta como se não pudesse escapar rápido o suficiente. — Se o RH não tiver, fala com a Patrícia. Ela pode saber. Desculpe, preciso ir. Bem-vinda à empresa. — E saiu, me deixando sozinha no escritório. Engoli o desconforto que sentia. Talvez devesse procurar outro emprego, porque não conseguia me imaginar trabalhando dia após dia daquele jeito. Voltei para minha mesa e procurei em todas as gavetas e arquivos o procedimento operacional padrão. Estava prestes a ligar para o RH quando percebi que talvez não fosse um fichário, mas um arquivo no computador. Pesquisei lá e encontrei processos muito detalhados de tudo o que a Sra. Hathaway fazia. Passei o resto da tarde relendo. No fim do dia, comecei a me preparar para ir embora, mas decidi sair um pouco. No Missouri, eu trabalhava e ia para casa, exceto por um curto período depois de voltar para visitar Kayle, quando tentei sair. Até que encontrei Daniel e ele me fez voltar a ser caseira. Não mais! Dirigi até Long Beach, decidida que seria o primeiro lugar a explorar. Eu não sabia nada sobre ele, exceto que o Queen Mary estava atracado lá. Eu me mudei para cá para deixar meu passado para trás. Na época, queria me livrar da minha vida chata no Missouri e do relacionamento tóxico com Daniel. Mas agora percebo que preciso deixar aquela noite com o Drako para trás também. Sair pela cidade seria um bom começo para isso.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR