Hyle
Olhei para mim mesma no pequeno espelho do banheiro apertado do apartamento onde morava agora, só para garantir que eu parecia profissional e competente. Quando tomei a decisão de deixar o Missouri e me mudar para o Oeste, achei que estava embarcando em uma grande aventura — deixando para trás um emprego entediante e um ex-namorado controlador. Mas alguns choques de realidade me fizeram questionar se aquela tinha sido mesmo a escolha certa.
Primeiro, o fato de que meu novo apartamento no sul da Califórnia era metade do tamanho e custava o dobro do que eu pagava antes. Segundo, embora Kayle tenha me oferecido um lugar seguro para pousar em San Diego, eu decidi ir para a região de Los Angeles, achando que teria mais oportunidades profissionais. E, de fato, tinha. Mas Los Angeles era enorme, movimentada e congestionada — e essa foi a primeira vez em que me senti genuinamente sozinha, mesmo cercada de pessoas por todos os lados.
Não que elas não fossem simpáticas. Eram, sim. Mas havia uma pressa em tudo, uma distância invisível. Eu ainda não tinha feito amizades no condomínio, e torcia para que isso mudasse no novo emprego que estava começando hoje.
No Missouri, eu trabalhava em uma empresa de comércio, lidando com remessas, alfândega e montanhas de papelada — embora, hoje em dia, quase tudo seja digital. Meu novo emprego era como assistente executiva em uma empresa de transporte em crescimento. Ainda não conhecia o homem para quem eu iria trabalhar, Drako Sullivan, o que tornava tudo um pouco mais intimidador. A mulher que me contratou, a vice-presidente da empresa, me contou que ele era comprometido e dedicado ao ponto de ser intenso, mas também justo.
Tive uma estranha sensação de déjà vu quando conheci Patrícia Reed. Senti que já a conhecia de algum lugar, ou que pelo menos seu rosto não me era estranho. No fim, concluí que ela provavelmente só se parecia com alguém que eu tinha visto antes. Ainda não estava em Los Angeles tempo suficiente para conhecer pessoas o suficiente para fazer essas conexões.
Depois de me certificar de que estava apresentável, saí do banheiro e fui até a cozinha pegar mais uma xícara de café e uma torrada com manteiga de amendoim. Eu tinha acabado de dar a primeira mordida quando meu telefone tocou. Olhei no identificador de chamadas e vi que era Tara, minha amiga de lá do Missouri.
Provavelmente ela se sentia um pouco deixada para trás agora que Kayle e eu tínhamos partido para recomeçar nossas vidas na Califórnia, mas Tara sempre foi extremamente solidária. Eu até a convidei para vir comigo, mas ela dizia que não conseguiria viver na Califórnia com o salário de professora.
— Oi, Tara — atendi, lançando um olhar rápido para o relógio. Devia ser umas dez da manhã lá no Missouri. — Não era pra você estar dando aula?
— Hoje é dia de planejamento pedagógico. Então tecnicamente estou na escola, mas sem alunos. Só queria ligar pra te desejar boa sorte no seu primeiro dia.
— Obrigada. Acho que vou precisar — falei, sentindo meu estômago se revirar de nervosismo mais uma vez.
— Ah, que nada. Você vai se sair super bem, eu sei disso. Já conseguiu se ajeitar com a mudança?
Dei um gole no café, tentando acalmar os nervos.
— A vantagem de morar num apartamento minúsculo é que desfazer as malas é rápido. Na verdade, o lugar é até bonitinho.
— Talvez um dia eu vá te visitar. Já teve tempo de explorar a cidade?
— Ainda não muito. Cheguei aqui só uma semana atrás, logo depois de decidir tudo meio impulsivamente.
— Mas não é como se você nunca tivesse estado aí antes — ela lembrou.
— Ano passado eu visitei a Kayle em San Diego. Fica a umas duas horas daqui. A verdade é que a Califórnia parece ser composta de vários mundos diferentes. Da praia às montanhas, do sul ensolarado às regiões vinícolas do norte… tudo parece um universo à parte.
— Los Angeles é onde estão todas as estrelas de cinema, né? Quem sabe você conhece algum astro e se apaixona — ela brincou.
Sorri. — Não vi nenhum ator famoso ainda, e acho que eles não andam muito pelo meu bairro.
— Talvez você esbarre com o Senhor Sensual do ano passado — Tara disse com uma risadinha.
Revirei os olhos. Desde que anunciei minha mudança para cá, ela vivia falando sobre o Drako, o homem que conheci durante a visita à Kayle. Charmoso, divertido e… bem, muito habilidoso em mais de um sentido.
— Isso foi em San Diego, então duvido que eu vá topar com ele por aqui.
Olhei para o relógio novamente e uma onda de adrenalina me atingiu.
— Preciso ir. Dizem que o trânsito aqui é caótico, e não quero me atrasar logo no primeiro dia.
Despejei o resto do café na pia e peguei um pedaço de papel-toalha para embrulhar a torrada.
— Me liga na hora do almoço e conta como está indo. Hoje estou livre.
— Se der tempo, eu ligo, sim.
— Estou com saudades, mas sei que você vai ser feliz aí.
— Também estou com saudades — falei, sentindo uma pontada no peito. Desliguei, peguei minha bolsa e saí pela porta sem precisar de casaco. O clima californiano era, sem dúvida, um bônus.
Entrei no meu velho carro e segui rumo a San Pedro, onde ficava meu novo trabalho. Na verdade, eu nem morava em Los Angeles de verdade. Meu apartamento ficava entre Anaheim e Garden Grove, o que me deixava mais perto da Disneylândia do que de Hollywood. Mas naquela região, as cidades eram tão coladas umas nas outras que era mais fácil dizer "Los Angeles" e pronto.
O trajeto para San Pedro era quase todo para o oeste e, apesar da distância não ser absurda, o trânsito podia transformar qualquer percurso em uma odisseia. Essa era uma das muitas coisas às quais eu ainda estava tentando me acostumar. Por outro lado, dirigir me dava tempo para respirar fundo, pensar e assimilar tudo o que estava vivendo.
Mesmo com os medos e dúvidas, havia uma empolgação silenciosa dentro de mim. No fundo, eu sabia que tinha feito a escolha certa. Quando voltei da minha visita à Kayle no ano anterior, uma sensação de inquietação começou a crescer dentro de mim. Percebi que estava apenas me acomodando com uma vida sem graça. Kayle, por outro lado, tinha ousado recomeçar. E agora era feliz.
Na época, eu não pensava em me mudar como ela fez. A visita, o breve reencontro com Drako… tudo aquilo me fez perceber que talvez eu estivesse aceitando menos do que merecia. Eu tentei mudar. Fiz novos amigos, me dediquei a hobbies, até comecei a namorar um homem chamado Daniel. Mas nada disso preencheu o que eu sentia.
Talvez essa nova cidade e esse novo emprego fossem a resposta. Ou pelo menos o começo dela.
Daniel era um estudante de medicina, vindo de uma família rica. Bonito, charmoso e confiante, ele também gostava de assumir o controle — dentro e fora do quarto — assim como Drako. Mas, ao contrário de Drako, Daniel não era tão habilidoso na cama, embora tivesse outras qualidades que me atraíram no início. Por um tempo, acreditei que finalmente tinha algo na vida além do meu trabalho entediante organizando papeladas.
Mas não demorou para que eu percebesse que havia uma diferença enorme entre ceder o controle por escolha e simplesmente tê-lo arrancado de mim. Aos poucos, Daniel foi me afastando dos amigos que eu tinha acabado de fazer — e quase conseguiu me distanciar da Tara também. A princípio, eu não percebi o que estava acontecendo. Quando caiu a ficha, levei um tempo até tomar coragem de encarar a verdade: ele não só havia me isolado do meu grupo de apoio, como também afetado minha autoestima e minha confiança de forma quase imperceptível, mas contínua.
Quando finalmente reconheci a profundidade do que estava vivendo, entendi que apenas terminar com ele não seria o suficiente. Eu precisava de um rompimento total — com ele e com a vida que estávamos construindo. Em certo nível, minha decisão de empacotar tudo e me mudar para a Califórnia pode ter parecido impulsiva. Mas, no fundo, eu sabia que era algo absolutamente necessário. Talvez não tivesse sido planejado por meses, mas foi visceral. E verdadeiro.
Duas semanas atrás, terminei com Daniel, pesquisei apartamentos no sul da Califórnia, enviei currículos para algumas empresas e comecei a empacotar minha vida em caixas. Sete dias depois, eu estava aqui, nesse novo lugar, recém-contratada e determinada a começar do zero.
Quando estacionei em frente ao prédio da Transportadora Sullivan, um nervosismo conhecido tomou conta de mim — o tipo que pressiona o estômago e faz a respiração acelerar. Mas bastou abrir a porta do carro e sentir o cheiro salgado do mar misturado ao óleo diesel no ar para eu me lembrar do porquê de estar ali. Aquilo era bom. Era o começo de um novo capítulo, e, dessa vez, eu estava no controle da minha própria história.
Entrei no saguão do prédio e me dirigi à recepção, onde uma mulher simpática me recebeu com um sorriso.
— Posso ajudar? — perguntou ela, erguendo os olhos da tela do computador.
— Sou Hyle Evans. Começo hoje como assistente executiva do Sr. Sullivan.
— Ah, claro. A Sra. Reed disse que você viria. Eu sou a Sara. Aqui estão alguns documentos que você precisa preencher ao longo do dia. Quando terminar, me devolve e eu encaminho ao nosso RH. Enquanto isso, você pode subir até o escritório dele. Fica no terceiro andar. — Ela me entregou uma pasta com os papéis.
— Quando eu chegar lá, falo diretamente com ele ou alguém vai me receber?
— Pode bater na porta dele. Somos uma empresa em crescimento, mas ainda bastante informal por aqui. Acho que você vai descobrir que é um ambiente acolhedor. E, apesar do Sr. Sullivan ser um pouco intenso, no fundo ele é um doce.
Assenti, agradecendo com um sorriso contido. Peguei a pasta, caminhei até o elevador e apertei o botão para o terceiro andar. Enquanto subia, respirei fundo algumas vezes, tentando manter os nervos sob controle. Eu realmente esperava que Sara estivesse certa — que a Transportadora Sullivan fosse um bom lugar para recomeçar.
Ao sair do elevador, deparei-me com um amplo espaço aberto, iluminado por grandes janelas com vista para o Oceano Pacífico. A paisagem era crua e industrial — contêineres empilhados, navios de carga ancorados —, mas havia uma beleza estranha naquilo tudo. Era movimento, transformação, vida acontecendo.
Olhei para os lados e vi algumas portas fechadas, provavelmente salas de conferência e escritórios. No fundo do corredor, uma área aberta com uma mesa de recepção e, logo atrás, portas duplas de madeira escura. A julgar pelo design mais imponente, presumi que fosse o escritório do Sr. Sullivan.
Caminhei até lá e, por um instante, me distraí com a vista da grande janela próxima à recepção. Me perguntei se aquele seria o meu lugar de trabalho — e, se fosse, já estava mais do que satisfeita.
Quando cheguei às portas duplas, vi uma pequena placa com letras discretas: Sr. D. Sullivan.
Respirei fundo uma última vez e bati na porta.
— Entre — ouvi uma voz masculina do outro lado, firme, mas sem aspereza.
Apertei o sorriso mais confiante que consegui e empurrei a porta.
— Sr. Sullivan? Eu sou...
As palavras morreram na minha garganta.
Ali, sentado atrás de uma imensa mesa de madeira escura, com os olhos fixos em mim, estava o homem com quem eu tinha passado uma noite inesquecível um ano atrás.
Meu novo chefe era o Drako.