Capítulo 21

1302 Palavras
Na manhã seguinte, acordei antes do sol. O quarto estava mergulhado em silêncio, exceto pela respiração leve de Ella ao meu lado. Por um momento, fiquei apenas observando. Ela dormia profundamente, mas o cenho ainda carregava traços de preocupação, como se mesmo inconsciente sua alma sentisse o perigo ao redor. Beijei sua testa com delicadeza e me levantei sem fazer barulho. Vesti-me com calma. Calça escura, camisa preta, o coldre preso sob o paletó. Aquele não seria um dia comum, e eu precisava estar pronto para tudo. Antes de sair, deixei um bilhete ao lado da cama. "Volto antes do almoço. Não se preocupe. Eu estou cuidando disso. Te amo. — P." Desci as escadas e encontrei meu segurança mais antigo e confiável, esperando na porta com o olhar tenso. — O carro está pronto. Quer que alguém acompanhe? — Não. Isso é entre mim e ele. — Pierre... — Ele hesitou. — Tem certeza que é uma boa ideia ir sozinho? — Absoluta. Ele me quer nervoso. Despreparado. Mas eu vou mostrar que não sou mais o mesmo garoto que ele conheceu. Entramos no carro. Eu no banco de trás. E meu segurança assumiu o volante, como sempre fazia quando a situação exigia confiança absoluta. Seguimos em direção a um dos bairros mais antigos de Paris, onde os becos ainda guardam segredos e os telhados abafam sussurros de conspirações passadas. O endereço que recebi era de um pequeno prédio abandonado, com janelas quebradas e pichações em várias línguas. O tipo de lugar onde ninguém faz perguntas. Quando saí do carro, o vento cortante me trouxe lembranças. Eu já havia matado em lugares assim. Já havia sido caçado. Já havia perdido tudo. A diferença era que, agora, eu tinha algo a perder. Remy estava me esperando no último andar, como imaginei. Sentado em uma cadeira de madeira diante de uma janela quebrada, com um cigarro aceso entre os dedos e aquele sorriso de escárnio que me fez desejar quebrar cada osso de seu rosto. — Pierre ... ou deveria dizer, o traidor da Irmandade? — disse ele, com a voz grave e arrastada. — Ainda vivo, Remy. Contra todas as suas apostas. — Ah, mas eu nunca apostei contra você. Sempre soube que era o mais perigoso de todos nós. — Então por que se expôs? Por que mexeu com ela? Ele riu, apagando o cigarro na bota. — Porque ela é sua fraqueza. E fraquezas têm gosto doce, não têm? A forma como você a olha... como fala dela... Você está diferente. Mole. Me aproximei devagar, os punhos cerrados. — Só vou perguntar uma vez, Remy. Quem está por trás disso? — Isso o quê? Eu apenas entreguei a verdade. Não fui eu quem mentiu pra ela. Foi você. Num movimento rápido, agarrei-o pela gola e o ergui da cadeira. Ele não reagiu. Continuou sorrindo como o rato que sabe que já destruiu o que importava. — Eu te mato agora mesmo se não falar. — Pode matar. Mas aí nunca saberá o resto. Segurei minha raiva com dificuldade. Remy era especialista em manipular emoções alheias. Sabia que provocar era sua única arma agora. — Você foi pago. Quem te pagou? — Um nome antigo. Um nome que você tentou apagar. Mas parece que os mortos não ficam enterrados por muito tempo, não é? Soltei-o com violência, fazendo-o cair no chão. — Você vai me levar até ele. — E se eu disser que não? — Então vou cortar pedaço por pedaço do seu corpo até você implorar para falar. O sorriso dele vacilou por um segundo. Um traço do medo surgiu. E isso me bastou. Três horas depois, estávamos em um dos meus esconderijos, no subsolo de um edifício antigo. Remy preso a uma cadeira, mãos amarradas, com sangue escorrendo do supercílio. Ele já havia começado a falar. Bastaram dois cortes bem posicionados e a promessa de que deixaria um de seus olhos intacto se colaborasse. — O nome é Armand. Armand Duclair. — arfou. — Ele quer o que sobrou da Irmandade. Acha que você é o único obstáculo real. — Armand morreu em Budapeste. Eu mesmo vi o corpo. — Não era ele. Era um sósia. Ele pagou uma fortuna por aquela encenação. Enquanto você achava que estava livre... ele estava reconstruindo tudo. Senti um frio atravessar minha espinha. Armand Duclair. O homem mais sádico que já conheci. Tão c***l quanto meu pai. E talvez ainda mais inteligente. Ele havia sido meu mentor em tempos sombrios. Depois, meu algoz. E se estivesse mesmo vivo, tudo estava prestes a piorar. — E Ella? O que ele quer com ela? Remy riu, cuspindo sangue. — O mesmo que todos querem quando se quer controlar alguém assim como você. Ele sabe que ela está grávida. Sabe que você a ama. Ela é sua coroa e sua forca. E agora... ela está marcada. Fechei os olhos por um momento, sentindo o coração disparar. Aquilo era maior do que eu imaginava. Muito maior. — Você falou demais, Remy. — murmurei. — E agora não pode mais falar com ninguém. — Vai me matar? — Não. Apontei para meu segurança, que havia assistido a tudo em silêncio. — Faça parecer suicídio. Que sirva de aviso para quem vier depois. Quando voltei para casa, o sol já tocava o meio do céu. Ella estava na estufa, cuidando das plantas como sempre fazia quando precisava pensar. Ela olhou para mim, e no mesmo instante, largou o regador e veio em minha direção. — Você voltou. — Eu prometi que voltaria antes do almoço. — Está tudo bem? — Seus olhos procuraram os meus com intensidade. — Sim. — Respirei fundo. — Por enquanto, sim. Nos sentamos sob a pérgola de madeira ao lado do jardim. O cheiro de lavanda preenchia o ar. — Eu conheço esse olhar, Pierre. Você descobriu algo. — Armand está vivo. O nome pareceu pairar entre nós como uma nuvem carregada. Ella apertou minha mão. — E ele quer me usar contra você. — Ele já começou a fazer isso. — Então... o que vamos fazer? — Vamos nos esconder por um tempo. Tenho uma casa segura nos arredores da Toscana. Ninguém sabe que ela existe, nem mesmo meus antigos aliados. — Fugir? — Sobreviver. Eu não vou arriscar sua vida, Ella. Nem a do nosso filho. Ela ficou em silêncio por alguns instantes. — Você já fugiu antes. Por causa da dor. Agora... vai fugir por amor. Aquilo me atingiu em cheio. Sim, era isso. Eu, o homem que nunca teve raízes, agora estava disposto a desaparecer para proteger o que construímos. — Vamos hoje à noite. Já mandei preparar tudo. Ninguém vai saber para onde fomos. Nem mesmo Maria. — E depois? — Depois... eu volto. Sozinho. E termino isso de vez. Ela balançou a cabeça, com lágrimas nos olhos. — Promete que vai voltar? — Prometo. Mas se eu não voltar... — Não. — Ela me interrompeu. — Não diga isso. — Preciso que saiba. Se eu não voltar, você não precisa me esperar. Apenas viva. Proteja nosso filho. Crie ele com amor. Com liberdade. Com tudo o que eu nunca tive. Ella se inclinou, colando seus lábios nos meus. O beijo foi demorado, triste, intenso. Um beijo de despedida antes do fim. Ou antes de um recomeço. À noite, partimos. O carro blindado nos levou até um hangar privado. De lá, seguimos em um jato discreto, com destino ao interior da Itália. Enquanto Ella dormia encostada no meu ombro, eu revia mentalmente cada nome, cada rosto, cada dívida de sangue que ainda precisava ser cobrada. A guerra havia começado de novo. Mas dessa vez, eu não lutava por poder, vingança ou honra. Dessa vez... eu lutava por amor. E não havia força no mundo capaz de me deter.
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