Capítulo 20

1141 Palavras
Desde que saí de casa naquela manhã, algo dentro de mim não estava certo. Era como se um pressentimento me acompanhasse, rastejando sob a pele. A reunião com os aliados da aliança francesa deveria ter sido meu foco, mas minha mente estava em outro lugar: Ella. A imagem dela dormindo nos meus braços, com a expressão serena, havia ficado presa na minha retina. Eu podia jurar que, pela primeira vez em muito tempo, encontrei paz olhando alguém dormir. Mas essa paz era um luxo que o meu mundo não permitia. E eu sabia que não duraria. Meu celular vibrou no bolso interno do paletó. Era uma chamada da casa. Atendi de imediato. — Senhor Pierre, é a Maria. — Sua voz trêmula. — A senhorita Ella recebeu uma mensagem… e um homem apareceu no portão. Disse que se não falasse com ela agora, seria tarde demais. Senti o sangue sumir do rosto. — Ela está bem? — perguntei, já me levantando da cadeira e acenando para que o segurança me acompanhasse. — Está, mas ficou muito assustada. Trancou-se no quarto. Tentamos ligar para o senhor, mas caiu na caixa postal. — Estou a caminho. Desliguei sem dar mais explicações. Saí sem me despedir. Quando entrei no carro, meus dedos já estavam cerrados em punhos. Só havia uma possibilidade: alguém do meu passado estava cruzando uma linha que nunca deveria ter sido ultrapassada. Ella era intocável. Aceleramos pelas ruas de Paris, enquanto minha mente corria ainda mais rápido. Havia tantos segredos que ela não sabia. Tantas verdades que escondi porque acreditava que, quanto menos ela soubesse, mais segura estaria. Mas agora... talvez isso tivesse sido um erro. Cheguei em casa menos de trinta minutos depois. Assim que desci do carro, um dos seguranças veio até mim com o envelope pardo nas mãos. Peguei, reconhecendo o estilo de provocação: letras recortadas de revista, como nos velhos tempos, quando o inimigo gostava de brincar antes de atacar. Ela não sabe de nada. Não. Não sabia mesmo. E o que me matava era o fato de que talvez ela tivesse que saber agora. Subi as escadas com pressa. Bati duas vezes na porta do nosso quarto. — Ella, sou eu. Ouvi a chave girar. Quando a porta se abriu, vi seu rosto pálido, seus olhos marejados, a insegurança estampada em cada traço. Ela se jogou nos meus braços antes de dizer qualquer palavra. Eu a segurei com força, respirando fundo, tentando absorver aquele momento como um lembrete do que estava em jogo. — Ele disse que você não é quem diz ser — sussurrou contra meu peito. — Que eu preciso saber antes de confiar em você… Fechei os olhos. A verdade sempre volta. E talvez fosse hora de parar de fugir dela. — Senta comigo. — Levei-a até a poltrona perto da lareira. Peguei uma manta e envolvi seus ombros. — O que eu vou te contar agora… não é fácil de ouvir. Mas você merece saber. Seus olhos se fixaram nos meus, sem desviar. Ela confiava em mim. E eu ia honrar isso com a verdade. — Quando eu era adolescente, fui recrutado para uma organização conhecida apenas pelos mais poderosos na Europa. Oficialmente, ela não existe. Mas por trás dos panos, controla parte do submundo político e financeiro. Era o legado da minha família. — A mesma que você disse que abandonou? — Sim. Abandonei, mas não antes de sujar minhas mãos até o último limite. — Meus olhos pesaram. — Eu fui treinado para matar. Para liderar. Para negociar vidas como se fossem moedas. Fui moldado para ser frio, eficiente e implacável. Fiz parte de expurgos, extermínios silenciosos, acordos de sangue. Ella arregalou os olhos, mas não recuou. — E por que saiu? — Porque vi meu irmão mais novo morrer por ordens do nosso próprio pai. — A dor cortou minha garganta. — Ele tentou fugir. Queria viver longe, ser livre. Mas o consideraram uma ameaça. E eu... eu não consegui protegê-lo. Isso quebrou algo em mim. Engoli em seco, sentindo os olhos arderem. Era raro chorar. Mas Ella merecia cada pedaço honesto da minha dor. — Depois disso, fugi. Destruí todos os rastros possíveis. Comprei novas identidades. Criei meus próprios aliados. Usei o que aprendi para construir um império legítimo, mas seguro. Lutei para nunca mais ser aquele homem. Mas... o passado não solta a gente tão fácil, Ella. Ela ainda me observava em silêncio. Suas mãos agora seguravam as minhas. — Esse homem que apareceu hoje... você sabe quem é? — Provavelmente. Se for quem eu penso, é Remy Duval. Um informante. Ex-aliado do meu pai. Um rato sobrevivente. Ele sabe de muitas verdades... e sabe exatamente como plantar a dúvida. Ele quer que você me questione, porque sabe que você é meu ponto fraco. — Você não tem fraquezas, Pierre. Sorri amargo. — Tenho sim. Você e nosso filho. Vocês são tudo o que eu tenho. E é por isso que eles vão tentar atingir por aí. — Então... o que fazemos? — Nós nos preparamos. Eu vou reforçar a segurança. Ninguém se aproxima de você sem meu aval. E quanto a Remy... eu vou encontrá-lo. — Vai matá-lo? Demorei a responder. Porque naquele instante, o homem frio e treinado dentro de mim queria fazer isso. Mas a presença dela me segurava na borda do abismo. — Vou fazer o necessário para que ele desapareça. Ella assentiu, mas sua mão apertou a minha com força. Ela estava com medo, e mesmo assim, não fugia. Isso me quebrava por dentro. Como ela podia me amar mesmo depois de ouvir o pior de mim? — Obrigada por confiar em mim com a verdade. — Sua voz era baixa, mas firme. — Eu também quero proteger você, Pierre. E nosso bebê. Deitei minha testa contra a dela. Fechei os olhos por um instante, me permitindo sentir. — Eu prometo... ninguém vai tirar você de mim. Ninguém vai tocar no nosso filho. Mais tarde naquela noite, fui até meu escritório. Liguei um sistema antigo, escondido atrás de uma estante. Era um canal de comunicação direto com os antigos aliados que ainda me deviam favores. — Pierre — disse a voz do outro lado. — Faz tempo que você não entra nesse canal. — Preciso de uma localização. Remy Duval. Quero ele vivo, por enquanto. — Isso vai custar caro. — Eu não perguntei o preço. Só me diga onde ele está. Depois de alguns segundos de silêncio, recebi as coordenadas. Remy estava em Paris. Claro que estava. Fechei o computador e respirei fundo. Quando voltei ao quarto, Ella dormia. Deitei ao seu lado e a abracei por trás, encostando minha mão em sua barriga. Ela era o meu lar agora. E eu faria qualquer coisa para mantê-la segura. Mesmo que isso significasse voltar a ser o homem que eu jurei enterrar.
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