Acordei antes do sol nascer, os primeiros feixes de luz ainda tímidos atravessando as cortinas grossas da suíte. Demorei alguns segundos para perceber onde estava, até sentir o peso do braço de Pierre sobre minha cintura, seu corpo colado ao meu, sua respiração calma atrás da minha nuca. Sorri, mesmo sem perceber. Era estranho me sentir tão em paz depois de tantos dias de tensão, de dúvidas, de inseguranças. E, ao mesmo tempo, eu sabia que aquela paz era frágil, delicada, como vidro prestes a trincar.
Movi-me devagar para não acordá-lo, mas assim que deslizei para fora da cama, senti sua mão firme segurar meu pulso, e sua voz rouca cortou o silêncio do quarto:
— Fica mais um pouco.
Parei, olhando para ele. Seus olhos ainda estavam semicerrados, mas havia algo ali... uma vulnerabilidade silenciosa que raramente ele mostrava. Sentei-me à beira da cama e passei a mão por seus cabelos desalinhados.
— Eu só ia tomar um banho, Pierre. Prometo que volto.
Ele assentiu lentamente, soltando meu pulso, mas seus olhos não se desviaram dos meus. Havia algo que ele queria dizer, eu sabia. Algo que ele ainda segurava dentro de si, talvez por medo, talvez por orgulho.
Fui até o banheiro e me olhei no espelho. Havia uma suavidade no meu rosto que eu não reconhecia há dias. A sombra do medo ainda estava ali, mas agora misturada com uma esperança que Pierre tinha plantado, mesmo sem perceber.
A água quente caiu sobre meu corpo, aliviando a tensão acumulada. Enquanto a espuma escorria pela minha pele, senti minha barriga se expandir sutilmente sob minha mão. Era uma vida. Uma parte de mim, uma parte dele. E tudo o que eu queria era proteger aquilo, esse pequeno elo que nos unia de forma irrevogável.
Quando voltei para o quarto, Pierre já estava sentado na cama, com uma expressão pensativa. O lençol cobria sua cintura, o peito nu exposto ao frio da manhã. Ele parecia perdido em alguma memória distante, o olhar fixo na parede, até me perceber de volta.
— Você acha que eu vou ser um bom pai? — ele perguntou, do nada, como se aquela dúvida estivesse corroendo-o por dentro há dias.
Fiquei parada na porta por um segundo, surpresa com a pergunta. Ele raramente compartilhava seus sentimentos assim. Caminhei até ele e sentei ao seu lado, segurando sua mão.
— Acho que você já está tentando ser. E isso é mais do que muita gente faz. — Pausei, buscando suas pupilas. — Ninguém nasce sabendo, Pierre. Mas quando a gente se importa, aprende. E eu vejo em você… alguém que está disposto a aprender.
Ele apertou minha mão, mas não sorriu. Seus olhos estavam sombrios, quase doloridos.
— Meu pai era um homem c***l. Cresci acreditando que o poder era conquistado pelo medo. Ele dizia que amar era fraqueza, que sentimentos atrapalhavam a liderança de um alfa.
Respirei fundo. Era a primeira vez que ele falava abertamente sobre isso. Sobre o passado que o moldou.
— E você acredita nisso?
— Não. Não mais. — A voz dele falhou levemente. — Mas às vezes... às vezes eu sinto que tem uma parte minha que ainda está presa lá. E eu odeio isso.
Me aproximei mais, apoiando minha cabeça em seu ombro.
— Você não é o seu pai, Pierre. Você tem escolha. E está fazendo escolhas diferentes agora. Está me protegendo. Está protegendo nosso filho.
Ele ficou em silêncio por um tempo, até virar o rosto e beijar o topo da minha cabeça.
— Eu vou te proteger, Ella. Custe o que custar. Ninguém vai te tocar. Ninguém vai chegar perto do nosso filho.
Houve uma firmeza assustadora naquela promessa, algo que fez minha pele arrepiar. Mas eu sabia que ele falava sério. Pierre não era o tipo de homem que jogava palavras ao vento.
Depois do café da manhã, ele precisou sair para uma reunião. Seus olhos relutavam em me deixar sozinha, mas eu o tranquilizei com um beijo rápido e um sorriso. Ficar em casa era seguro, ao menos por enquanto. Ou eu queria acreditar nisso.
Passei o resto da manhã tentando organizar pensamentos. Fui até o jardim, sentei-me entre as plantas que Pierre mandara cuidar por minha causa e fechei os olhos por alguns minutos, sentindo o vento leve tocar meu rosto.
Mas a calmaria durou pouco.
Quando entrei novamente na casa, encontrei Maria uma das funcionárias mais antigas me esperando no hall com uma expressão apreensiva.
— Senhorita Ella, há alguém no portão dizendo que precisa falar com a senhora. Diz que se não for agora, será tarde demais.
Minha espinha gelou.
— Quem é?
— Ele não quis dizer o nome, mas... entregou isso. — Ela me mostrou um envelope pardo, com meu nome escrito à mão.
Peguei com cuidado. Dentro, havia uma única folha com letras recortadas de revista, como em um filme barato: "Você não sabe de nada. Ele não é quem diz ser."
Meu coração disparou.
— Maria, avise Pierre. Agora. — Minha voz saiu firme, mesmo com o pânico crescendo dentro de mim.
Ela assentiu rapidamente e correu para o telefone. Eu me afastei da porta, como se o simples ato de ler aquelas palavras tivesse me contaminado com dúvida e medo.
Quem estava por trás disso? Laurent? Algum inimigo antigo de Pierre? Ou alguém ainda mais próximo do que eu imaginava?
Voltei para o quarto e tranquei a porta. Peguei o celular e liguei para Pierre mais uma vez, mas caiu na caixa postal. Tentei mais uma vez. Nada. Meu coração batia como um tambor.
Minutos depois, a campainha soou de novo.
Meu instinto dizia para não descer, mas havia algo mais forte: uma necessidade de saber, de entender o que estava acontecendo. Caminhei até o monitor da segurança e vi um homem de aparência comum, mas com olhos que pareciam conhecer demais.
Ele olhou direto para a câmera.
— Ella, você precisa me ouvir. Eu sei coisas sobre o Pierre que ele nunca vai te contar. E você precisa saber disso... antes de confiar cegamente.
Minha respiração ficou presa no peito.
Ele sabia meu nome.
Sabia sobre Pierre.
E parecia desesperado o suficiente para enfrentar o risco de vir até aqui.
Minhas mãos tremiam quando desliguei o monitor. Meus pensamentos se atropelavam. Eu confiava em Pierre. Confiava? E se tudo isso fosse parte de uma verdade maior, uma que ele estava tentando esconder?
Sentei-me na beirada da cama, com a mão sobre a barriga, tentando manter a calma. Eu não podia tomar decisões precipitadas. Não agora. Não com uma vida crescendo dentro de mim.
Mas algo estava claro: o passado de Pierre ainda não havia sido completamente revelado.
E agora, ele estava vindo atrás de mim.