Narrado por Ella
Minutos se passaram naquela sala silenciosa. O filme seguia rodando, mas nenhuma imagem na tela era capaz de prender minha atenção. Eu estava focada em Pierre, no ritmo da respiração dele contra minha nuca, nos pequenos movimentos de carinho que ele fazia com os dedos em minha cintura. Era como se, finalmente, ele tivesse baixado todas as defesas e me deixado ver algo que antes ele escondia até de si mesmo.
Não era fácil para ele. Eu sabia disso. Ele cresceu em um mundo onde demonstrar sentimentos era considerado fraqueza. Onde qualquer vulnerabilidade podia ser explorada, esmagada. Mas comigo… parecia diferente. Como se houvesse algo em mim que quebrava, mesmo que por segundos, a fortaleza que ele havia construído.
Quando o filme terminou, Pierre não se moveu. Continuou me abraçando, em silêncio, os olhos fechados como se tentasse prolongar aquele instante.
— Pierre… — murmurei, virando o rosto levemente para olhá-lo.
Ele abriu os olhos devagar, me fitando com uma intensidade que me fez esquecer como se respirava por alguns segundos.
— Sim?
— Você quer me contar o que houve com Laurent? — perguntei com cuidado, sem forçar. Apenas oferecendo um espaço seguro.
Ele respirou fundo, os músculos do braço ao meu redor se contraindo levemente. Por um momento achei que ele fosse se fechar de novo, como costumava fazer. Mas, surpreendentemente, ele assentiu.
— Laurent é meu tio. Irmão mais novo da minha mãe. Mas… ele nunca fez parte da minha vida como um verdadeiro parente. Sempre esteve mais interessado em poder do que em qualquer laço familiar.
Fiquei em silêncio, escutando.
— Quando meu pai morreu, Laurent tentou assumir o controle de tudo. Negócios, propriedades, até da minha mãe. Mas ela resistiu. E eu também. Foi aí que começou uma guerra silenciosa entre nós. Ele nunca me perdoou por ser o herdeiro direto. Por ter nascido alfa.
As palavras saíam como veneno. Lentamente, mas com amargura evidente.
— Ele tentou me derrubar muitas vezes. Traições, chantagens, alianças obscuras. E agora, com você grávida… ele vê isso como uma fraqueza minha. Como uma oportunidade de atacar.
— Ele sabe sobre o bebê? — perguntei, a voz saindo mais frágil do que eu esperava.
Pierre assentiu lentamente, seus olhos escurecendo.
— Sabe. E é por isso que ele apareceu hoje. Isso não foi uma visita casual. Foi um aviso. Ele está nos observando, Ella. Está procurando uma brecha. E eu… — ele hesitou, os olhos fixos nos meus — eu não posso permitir que nada aconteça com você ou com nosso filho.
O medo me percorreu como um sopro gelado. Mas ao mesmo tempo, senti uma força crescer dentro de mim. A forma como Pierre falava, o modo como me olhava… não havia dúvidas. Ele nos protegeria com tudo o que tinha.
— Eu confio em você — sussurrei, encostando minha testa na dele. — Mesmo quando não entendo tudo… eu confio.
Ele fechou os olhos, como se minhas palavras tivessem mais poder do que qualquer escudo que ele já usou na vida. Ficamos assim por alguns minutos, apenas respirando o mesmo ar, dividindo o mesmo silêncio.
Depois, ele se levantou devagar, segurando minha mão com delicadeza.
— Vamos subir?
Assenti, e fomos para o quarto. Não trocamos mais nenhuma palavra. A noite tinha tomado um rumo calmo, quase sagrado. Entramos no quarto, e Pierre apagou as luzes, deixando apenas um abajur aceso no canto, lançando uma luz âmbar e suave sobre o ambiente.
Ele se deitou primeiro, abrindo espaço ao seu lado e me puxando com cuidado. Encaixei meu corpo no dele como se já fosse natural. A cabeça sobre seu peito, o braço dele ao redor da minha cintura, e suas pernas entrelaçadas às minhas.
— Você sente medo de mim, Ella? — a pergunta veio em um sussurro quase imperceptível.
— Não — respondi, sincera. — Sinto medo de tudo ao nosso redor… mas não de você. Você me assusta, às vezes, com a intensidade que carrega. Mas nunca me fez m*l. E eu sei que não vai fazer.
Pierre não respondeu. Apenas me beijou no topo da cabeça.
— Obrigado.
A forma como ele agradeceu me deixou com um nó na garganta. Era como se, por trás daquele homem poderoso, existisse um menino solitário, que nunca soube o que era ser acolhido.
Adormeci ali, nos braços dele, sentindo que, talvez pela primeira vez em muito tempo, nós dois pertencíamos a algum lugar. E esse lugar era um no outro.
Acordei no meio da noite com um leve movimento. Pierre se remexia ao meu lado, o rosto tenso mesmo dormindo. Havia suor em sua testa, os dedos fechados em punhos.
Toquei levemente seu ombro.
— Pierre… — chamei, com voz suave.
Ele acordou sobressaltado, os olhos selvagens por um segundo até me encontrar.
— Está tudo bem — sussurrei. — Foi só um pesadelo.
Ele respirou fundo, tentando se recompor.
— Sonhei que te perdia — murmurou, quase para si mesmo. — Que não conseguia te proteger. Que ele te levava embora.
— Estou aqui. Estou com você — disse, acariciando seu rosto com os dedos. — E você vai me proteger. Eu acredito nisso.
Pierre me puxou de volta para seus braços com força, como se quisesse se certificar de que eu era real. Ficamos assim até que o sol começasse a nascer, tingindo o quarto com uma luz rosada e suave.
Foi ele quem quebrou o silêncio, ainda me segurando.
— Eu vou reforçar a segurança da casa. Duplicar os homens, instalar sensores. Ninguém vai se aproximar de você sem que eu saiba.
Assenti, sentindo o peso da realidade voltar. Mas agora, era diferente. Eu não me sentia sozinha enfrentando aquilo. Ele estava comigo. E isso fazia toda a diferença.
— E se Laurent tentar algo mais direto?
Pierre sorriu, mas não era um sorriso doce. Era o tipo de sorriso que ele usava quando estava prestes a destruir alguém.
— Ele vai se arrepender de ter nascido.
Engoli em seco, mas não contestei. Pierre era assim. Um protetor feroz. E agora, eu era a prioridade dele. Nós dois éramos.
Descemos para o café da manhã um pouco mais tarde do que o habitual. A casa estava silenciosa, os funcionários agindo com uma discrição quase ensaiada. Mas eu sabia. Todos sabiam que algo tinha mudado. Pierre não soltava minha mão, e seus olhos analisavam cada canto da casa como se esperasse um ataque a qualquer momento.
Foi quando recebemos a notícia.
— Senhor Pierre, chegaram flores. — Uma das funcionárias entrou na sala com um enorme arranjo de lírios brancos.
Pierre franziu a testa, se levantando para pegar o cartão antes que eu me aproximasse.
Ele leu o bilhete e, por um segundo, seu rosto se fechou completamente. Rasgou o papel ao meio sem dizer uma palavra e virou-se para o segurança ao lado da porta.
— Quero saber de onde vieram. Agora.
Olhei para ele, alarmada.
— O que dizia?
Pierre hesitou, mas me encarou com seriedade.
— Era uma ameaça velada. Algo como “brancos são os lírios do luto”. Uma assinatura indireta. Ele está testando meus limites.
— Você acha que foi Laurent?
— Não acho. Eu sei.
Meu estômago revirou.
— Pierre… o que vamos fazer?
Ele se aproximou de mim, colocando as mãos em meu rosto com delicadeza.
— Nós vamos lutar, Ella. Vamos proteger esse bebê. Proteger o que estamos construindo. Ele não vai vencer.
Naquele instante, percebi algo muito mais poderoso do que qualquer ameaça. Pierre não estava mais lutando por poder, território ou orgulho. Ele estava lutando por nós. E, pela primeira vez, eu sabia que estava disposta a lutar também.
Não por ele.
Mas com ele.
Juntos.