09

2278 Palavras
Dulce O estúdio estava bem calmo aquele dia. Acabei dispensando a Anahi mais cedo e fiquei sozinha na recepção editando alguns dos últimos trabalhos no computador. Ouvi alguém entrando e quando levantei a cabeça para olhar, avistei Alex. Revirei meus olhos e suspirei de tédio.  — Vai ficar me seguindo? — perguntei.  — Relaxa, eu não vou te chatear. — ele sentou numa das cadeiras do outro lado do balcão onde eu estava. — Eu estive pensando sobre o que o Christopher disse a respeito do perdão. Eu quero que você me perdoe, mas tudo bem não voltar comigo.  — Tudo bem? — franzi a testa.  — É, eu tentei ter uma trégua com você na festa da May, mas eu tinha que estragar tudo fazendo uma proposta indecente! — bufou. — Agora é sério, sem mais tentativas de te ter de volta. Eu só quero pedir perdão e poder ter a certeza de que você não vai mais alimentar nenhum tipo de ódio por mim. — pela primeira vez desde que terminamos, ele parecia mesmo disposto a agir melhor.  — Como uma boa recém-cristã que eu sou, vou te dar o meu perdão. — ele sorriu. — Eu não te odeio, Alex.  — Mas ainda sente algo por mim? — me olhou com curiosidade.  — Talvez, eu não sei. — analisei o seu rosto por alguns instantes. — Eu realmente não sei... — estaria eu tirando o Alex da minha cabeça? — Eu acho que de qualquer forma, isso não é mais da minha conta. — tentou sorrir. — Espero que possamos construir uma amizade. — estendeu a mão para mim.  — A primeira cantada que você me der, eu arremesso um vaso em você e dessa vez eu acerto. — falei apertando sua mão.  — Com um aviso desses, quem ousaria? — riu. — Preciso ir resolver umas coisas sobre a minha festa de aniversário, inclusive, está convidada. — falou levantando-se. — Vai comemorar no domingo mesmo?  — Sim, na casa dos meus pais, já que é bem grande e eu quero muita gente lá. Leva o Christian e por mais que a Anahi me odeie, é sempre bom ter muitos convidados.  — Tudo bem, eu vou depois que sair da missa.  — Tá levando a igreja a sério mesmo, não é? — pendeu a cabeça para o lado.  — Sim, está me fazendo muito bem. Se você deixasse a birra com o Christopher de lado, poderia enxergar o quanto a igreja pode ser um ambiente confortável e acolhedor.  — Hum... — olhou para o teto como se pensasse. — Eu vou rever isso aí, mas não prometo absolutamente nada.  — E você acha que eu espero alguma coisa de você? — fui sarcástica.  — Assim você me ofende! — colocou a mão sobre o peito, dramatizando.  — Tá, sei! — dei risada. — Agora vaza daqui que eu preciso trabalhar!  — Até domingo! — eu acenei com a cabeça e o vi sair do estúdio.  Dar uma chance de Alex se mostrar uma boa pessoa não era má ideia. Ele podia até ser um péssimo namorado, mas eu sabia que era um ótimo amigo, levando em conta que vivia cercado de várias pessoas. E já que eu me sentia finalmente esquecendo os meus sentimentos por ele, não me ficava mais intimidada em sua presença.  Como se uma lanterna tivesse se acendido em minha cabeça, eu me dei conta de que também seria aniversário do Christopher no domingo. Será que ele comemorava de algum jeito e será que eu seria convidada? Pensar sobre isso me deixava nervosa por algum motivo que eu não sabia identificar.  Eu gostava de estar na presença dele e pensar que ele me consideraria o suficiente pra me querer perto durante o seu aniversário, era uma ideia que poderia vir a me deixar animada. Peguei o meu celular e liguei para ele, torcendo para não estar atrapalhando o seu dia, já que ele era uma pessoa um tanto quanto ocupada.  — Oi, Dulce! — proferiu gentilmente ao atender.  — Oi! Eu liguei porque sei que domingo é o seu aniversário e queria saber se você pretende comemorar.  — Não, eu não comemoro o meu aniversário. — percebi que ele falou aquilo sem jeito.  — Por que não? Deveria ser o melhor dia do ano pra você. — estranhei.  — Nem todo mundo gosta do próprio aniversário e eu estou no time dos que detestam.  — Que espírito desanimador é esse, padre? É o dia em que Deus o colocou na terra, deveria ao menos tentar ser grato. — eu não queria parecer uma amiga mandona, mas achava o cúmulo quando alguém que gosto vê o próprio aniversário como algo r**m.  — Sim, eu sei. E é por isso que em todos os meus aniversários, eu me recolho sozinho em minha casa após realizar uma missa e faço minhas orações pelo resto da noite, agradecendo a Deus pela minha vida e pela vida do meu irmão. Eu apenas não gosto de grandes comemorações.  — Não precisa ser uma grande comemoração, você pode chamar só os mais próximos e realizar um jantar. — sugeri.  — Obrigado por se preocupar, Dulce, mas eu me sinto melhor ficando sozinho. Pode me entender?  — Hum... — eu não estava satisfeita com aquilo, mas tinha que ter respeito pelas vontades dele. — Tudo bem, sem problemas. Acho que terei que ir até a festa do Alex mesmo.  — Alex? Você na festa de aniversário do Alex? — Christopher estava claramente confuso.  — É, eu meio que perdoei ele e não me sinto mais tão m*l estando perto. O Alex é legal, tirando a parte canalha. — eu ri. — Esse é um defeito que eu sempre vou lembrá-lo que tem.  — Eu espero que vocês fiquem bem, de qualquer maneira. Contanto que isso não gere uma reconciliação, é claro. Eu sei que as pessoas podem mudar, mas que Deus me perdoe, o Alex não tem jeito!  — Eu não quero voltar com ele nem agora e nem nunca, pode se despreocupar. — eu sorri. — Bom, eu te vejo na missa de domingo e aproveito pra te parabenizar.  — Tudo bem, até lá.  — Até.  Terminei os meus afazeres e depois, fui para casa. Contei ao Christian e à Annie sobre o aniversário do Alex e os dois disseram que iriam, não por ele, mas pela bebida grátis. Ouvindo esse motivo, não pude evitar de rir. Era hilário como sempre, ao final de uma festa, um deles acabava tendo que arrastar o outro morto de bêbado até em casa.  {...} O domingo finalmente chegou e à noite, eu me arrumei para ir até a missa. Usei uma calça jeans escura, tênis branco, uma blusa de mangas preta e uma jaqueta jeans clara. Perfeito para a igreja e perfeito para a festa de aniversário que aconteceria depois.  Na porta da igreja, eu avistei meu pai e ele acenou para que eu me aproximasse.  — Oi, querida! — nos abraçamos.  — Oi, pai!  — O que vai fazer depois daqui? Eu gostaria de levá-la ao cinema.  — Nossa, eu sinto muito, tenho que ir ao aniversário de um amigo, mas a gente pode ver outro dia da semana.  — Tudo bem. — sorriu. — Esse amigo é o padre Christopher?  — Não, é o irmão gêmeo dele. Parece que o Christopher não comemora.  — O irmão? O seu ex que te traiu? — me olhou de relance.  — Eu sei o que parece, mas eu estou trabalhando o perdão e não sinto mais o mesmo pelo Alex. Tudo o que eu menos quero é guardar ódio por alguém.  — Faz bem, minha filha. — aprovou.  Nós entramos na igreja e sentamos lado a lado no mesmo banco. A missa se seguiu normalmente, comigo prestando atenção em cada palavra de Christopher, como sempre fazia.  Depois que ele finalizou com a benção, as pessoas começaram a cantar "parabéns" meio que de surpresa. Christopher sorriu sem jeito, ficando claramente tímido e depois que terminaram, ele agradeceu a todos com um belo discurso.  Quando todos estavam saindo, eu me despedi do meu pai e fui atrás de Christopher. O encontrei rodeado de pessoas que o parabenizavam com abraços e apertos de mãos. Foi difícil chegar perto dele e por um segundo, eu pensei em desistir, mas precisava entregar o presente que eu havia comprado.  — Dulce! — ele me avistou. — Irmãos, eu preciso me retirar agora, mas agradeço por todas as gentis palavras. — falou para as outras pessoas e depois acenou com a cabeça para que eu o acompanhasse.  Fui atrás dele até entrarmos em uma sala nos fundos da igreja. Ele retirou a batina e depois, virou de frente para mim.  — Hoje foi um pouco agitado. — riu de leve.  — É claro, é o seu aniversário! — constatei o óbvio.  — Mais um dia como qualquer outro do ano. — deu de ombros. — Não diga isso. — fiquei séria. — Aqui, eu te comprei um presente. — do meu bolso, eu retirei a caixinha e o entreguei. — Foi muito difícil escolher, afinal, o que dar para um padre? — eu ri.  — Nossa... — ele pegou o cordão de prata e observou seus pingentes que eram placas de prata, uma com uma foto da igreja e outra com a frase "Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo".  — Eu mesma tirei a foto. — falei com orgulho.  — Perfeito! — sorriu para mim. — Você não precisava ter feito isso.  — Precisava sim! Eu jamais deixaria o aniversário de um amigo passar em branco. Enfim, meu parabéns! — abri meus braços o convidando para um abraço.  Ele veio até mim e me abraçou, enterrando seu rosto em meu cabelo. O abraço foi demorado e em um dado momento, eu achei ter ouvido ele fungar, o que me fez aperta-lo mais forte. Nos afastamos devagar e eu o olhei preocupada.  — Você está bem? — perguntei vendo ele limpar uma lágrima.  — Sim. Obrigado de novo, eu tenho que ir. — ele pegou seu casaco que estava em um cabideiro e praticamente saiu correndo dali.  Eu fiquei muito confusa com a sua reação. Não sabia se ele estava emocionado com o presente ou se não havia gostado. Quando cheguei ao estacionamento, avistei Christopher de longe ao lado de seu carro. Seu rosto estava vazio e triste ao mesmo tempo. Aquilo cortou o meu coração e no caminho até a festa de Alex, eu não parei de pensar que tinha alguma coisa errada.  Assim que entrei na mansão dos Uchermann's, vi Anahi e Christian dançando com suas bebidas em mãos. Eles acenaram para mim e eu acenei de volta, mas antes que pudesse ir até ele, fui parada por Alex.  — Bem vinda, docinho! — gritou animado.  — Oi, Alex, feliz aniversário! — o abracei. — Toma. — entreguei para ele o CD de rock com o laço que eu tinha em mãos.  — Caramba, esse CD é super raro!  — Eu tinha comprado na internet faz alguns meses, antes de... você sabe. — ele baixou o olhar. — Como chegou faz uns três dias, eu pensei em dar mesmo assim.  — Obrigado, Dulce! — sorriu de lado. — Você é sempre incrível!  — Eu sei! — falei me achando e ele riu.  — Bom, divirta-se! — antes de se afastar de mim, ele depositou um beijo em minha bochecha.  Caminhei até Christian e Annie e assim que me viram, Anahi empurrou uma garrafa de cerveja na minha mão e os dois me puxaram para dançarmos.  — Hora de enlouquecer, baby! — Christian gritou.  Eu dancei por um tempo e quando me cansei, sentei em um dos sofás e fiquei os observando de longe. Toda essa farra seria muito animadora para mim se eu não estivesse com a minha cabeça presa em outro lugar, ou melhor, em outro alguém.  A imagem do rosto triste de Christopher ao lado de seu carro rondava a minha cabeça e eu só conseguia pensar que ele estava sozinho em seu apartamento enquanto o seu irmão gêmeo se divertia com os amigos. Isso não era nenhum pouco justo.  — O que foi? — Annie sentou ao meu lado.  — O Christopher. Ele parecia meio triste hoje.  — Você disse que ele não gosta do aniversário, deve ser isso.  — É, mas por quê? Por que não gosta? Eu queria entender e sei lá, tentar ajudar.  — Por que você se importa tanto?  — Porque ele é meu amigo!  — Mas Dulce, ele já disse que não quer companhia.  — Isso parece mais uma forma de se isolar por estar triste! É exatamente nesses momentos que ele precisa de alguém ao seu lado.  — E deixa eu adivinhar: você vai sair daqui sem nem avisar ao Alex e vai correr até o apartamento do Christopher, não é? — me olhou de canto.  — Você tem ótimas ideias! — sorri ficando de pé. Ela levantou também e balançou a cabeça negativamente.  — Essa ideia já estava na sua cabeça!  — Não, não! Foi você quem falou primeiro!  — Porque se der errado, a culpa é minha! — deduziu.  — Te amo! — beijei sua testa e depois comecei a caminhar em direção à saída.  Fui até o meu carro e antes de ir até o prédio de Christopher, eu passei em um supermercado. Comprei sorvete, salgadinhos, carnes de hambúrguer, refrigerantes e alguns cupcakes que estavam sendo vendidos numa cafeteria 24h ali perto.  A minha missão naquela noite era deixá-lo o mais feliz possível e de quebra, descobrir o que o deixa tão insatisfeito em seu próprio aniversário.
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