Dulce
Christopher caminhou comigo até estarmos num local menos movimentado da praia. Andamos por longos segundos e quando ele finalmente parou, eu sentei sobre uma das rochas. No lugar onde estávamos, a maré estava calma e as pequenas ondas molhavam nossos pés.
— O que quer me dizer? — perguntei. Ele sentou ao meu lado e mirou o horizonte, em completo silêncio.
Eu quis sacudi-lo para que falasse de vez, já que a minha ansiedade parecia querer fazer o meu peito explodir. Confesso que esperava boas notícias, algo como um certo retiro ter iluminado a mente dele e o feito escolher a mim ao invés de sua missão.
— Alex também disse que eu deveria ficar longe de você. — falou sem me encarar e essa frase me deu uma pontada de preocupação.
— Mas você não vai fazer isso, vai? — ele finalmente olhou para o meu rosto e eu não sabia dizer se ele estava sério ou prestes a sorrir.
— Eu não sei. — estremeci com essa resposta. — Não tenho medo do Alex, mas tem uma coisa que ele disse que me deixou com medo.
— Que coisa?
— Que se eu ficasse mais tempo perto de você, acabaria me apaixonando.
— Por que isso te dá medo?
— Você sabe o porquê. — desviou o olhar novamente para o mar.
— Olha, eu não te disse isso antes, mas eu fico bem ofendida quando você insinua que estar comigo é uma coisa r**m.
— Me desculpe. — riu pelo nariz.
— Isso não é engraçado! — ri também.
— E por que também está rindo?
— Eu não consigo evitar de sorrir toda vez que você sorri também. — e foi só eu dizer isso que ele voltou a ficar sério. — Você disse que não queria se afastar de mim.
— E eu não quero, mas também não quero me afastar da minha missão.
— É só não se apaixonar por mim. — falei meio que brincando.
— Sinceramente? Eu acho que o Alex tem razão em dizer que é impossível ficar tanto tempo ao seu lado sem sentir alguma coisa maior do que uma amizade. Eu não sei o que posso sentir por você caso continuemos convivendo.
— E daí? Quantos padres já abandonaram suas missões para se casarem? E onde está na bíblia que isso é errado? E se você acabar gostando mais de mim do que da sua missão? Você não vai para o inferno se fizer algo assim.
— Você quer que eu tente me apaixonar por você? — franziu a testa.
— Não! Eu estou dizendo para que não se afaste de mim e que se por acaso você acabar se apaixonando, e daí? A vida de padre não é uma prisão e eu aposto que Jesus não gostaria que você continuasse de forma forçada.
— Hum... — ele pareceu pensar, analisando cada parte do meu rosto, o que me fez sentir um leve calor nas bochechas. — Parece que agora você é aquela que sabe o que dizer. — eu sorri de leve e ele sorriu também. — Vou voltar para o retiro amanhã pela manhã e eu sei que esse tempo irá me fazer pensar.
— De qualquer forma, eu espero que tudo fique bem entre nós.
— Está tudo bem. — ele pegou um punhado de água com uma das mãos e jogou em mim.
— Ei! — eu ri e joguei água nele também.
— Não comece uma guerra que não pode vencer. — dizendo isso, ele encheu as duas mãos e jogou ainda mais água em mim, o que deixou a minha blusa ensopada.
— Padrezinho insolente! — e quando eu fiz menção de devolver o banho que ele me deu, tive meus braços segurados.
Nós começamos uma luta entre gargalhadas e força física, onde eu tentava me livrar dos seus braços. E foi aí que nós nos desequilibramos e caímos na areia. Ele se manteve por cima de mim, segurando meus pulsos acima da minha cabeça e me olhando com um sorriso vitorioso.
Aquela situação encheu o meu peito de fogo e eu fiquei observando o rosto dele, onde pequenas gotículas de água pareciam dançar por sua pele, brilhando conforme ele se mexia sob a luz do sol. Eu imaginei como seria tê-lo sobre mim diversas vezes e bem, a realidade era muito melhor do que a expectativa.
Ele parou de pressionar os meus braços e quando tive a minha mão livre, eu a ergui até o rosto dele e o toquei sutilmente, fazendo-o fechar os olhos como se estivesse satisfeito com o meu toque.
— Me beija. — aquele pedido saiu da minha boca meio que por impulso e quando eu ia começar a me arrepender, Christopher tornou a abrir os olhos e sorriu.
Senti minha respiração se descompassar quando o vi aproximar seu rosto do meu, bem devagar. Ele roçou seu nariz no meu, deixando que sua respiração tocasse o meu lábio superior.
Eu embrenhei meus dedos em seus cabelos e erguendo um pouco a minha cabeça, consegui que minha boca encontrasse a sua. Nada mais importava para mim além daquele beijo. Só ouvíamos o barulho leve das ondas, que serviram como uma espécie de trilha sonora para aquele momento.
Christopher soltou um pouco o seu corpo, permitindo que suas pernas envolvessem as minhas, num ato que nos uniu ainda mais, causando o aprofundamento de um beijo que estava me levando às alturas. Minha língua passeava pela dele, numa dança saborosa e com um sabor maravilhoso de hortelã. Ele tinha um gosto incrível.
Ele desceu uma de suas mãos até a minha cintura e me apertou, fazendo eu sentir uma pressão entre minhas pernas, anunciando uma excitação que pedia por ele.
E quando eu achava que aquele momento não teria fim, uma onda nos acertou, cortando o beijo e a tensão que se formou com ele. Christopher me ergueu para que a água não me cobrisse, enquanto nós ríamos feito idiotas.
— Você poderia ter morrido afogada! — ele continuou a rir e eu fiquei o encarando. — O que foi?
— Você não fugiu. — da primeira vez em que nos beijamos, ele não reagiu nada bem, mas agora pareceu tudo maravilhoso para ambos.
— Dulce, eu ainda não tomei uma decisão. — desviou o olhar.
— Mas pelo menos agora eu sei que você está me considerando como uma opção.
— Não crie expectativas, ok? Eu realmente não sei o que fazer.
— Eu só quero que você faça o que é melhor para si mesmo.
— Isso foi realmente bom. — achei fofo quando ele ficou vermelho de vergonha. — Mas não deve acontecer mais.
— Eu sei. — suspirei. — Sem pressão, sem comprometimento. — ergui minhas mãos em rendição. — Somos só amigos.
— Bons amigos. — assentiu. Ele ficou de pé e me ofereceu sua mão, ajudando-me a levantar também.
Começamos a caminhar de volta para o quiosque onde os outros estavam.
— Ei, padrezinho, eu preciso me confessar. Beijei um sacerdote de Deus e acho que vou para o inferno. — brinquei, o fazendo rir.
— A confissão só vale se você estiver arrependida. — me olhou de canto.
— Nenhum pouco. — sorri de canto.
Chegamos até o quiosque e avistamos os outros numa mesa, comendo algumas coisas e tomando coquetéis. Christopher sentou ao lado de Maitê e eu ao lado de Anahi, que me olhou com insinuações.
— Estavam tomando banho de mar? — ela perguntou baixinho para que somente eu ouvisse.
— Nós caímos sem querer.
— Que? — franziu a testa.
— Outra hora eu te conto tudo, tá? — eu ri.
O dia na praia foi bastante proveitoso. Maitê não parou de arrastar Christian para todos os lados e eu podia jurar que ele já estava começando a gostar da chatice dela, mesmo olhando para mim e para Annie como quem pede socorro.
Eu e Christopher agimos normalmente, apenas como amigos aproveitando férias fora de época. Eu estava feliz por não estarmos mais estranhos um com o outro e eu confesso que se antes eu tinha uma queda por ele, agora eu havia me derretido de vez. Talvez isso fosse extremamente perigoso e me causaria uma enorme dor de cabeça, mas no momento, eu só queria sentir todas essas sensações novas e prazeirosas.
Na manhã seguinte, ouvi batidas na porta do meu quarto de hotel bem cedo. Cocei meus olhos e levantei da minha cama com um pouco de esforço. Eu já estava acordada a um tempo, mas ainda sentia uma grande preguiça.
Quando abri a porta, o aroma inconfundível do perfume de Christopher invadiu as minhas narinas. Eu sorri instantaneamente e encostei minha cabeça na porta, o olhando.
— Eu vim me despedir. — olhei para a mochila em suas costas. — Maitê me disse que esse era o seu quarto e eu resolvi vir.
— Fez muito bem. Se você fosse embora sem me dar um "tchau", eu chutaria a sua b***a.
— Não pode chutar a b***a de um padre. — fez uma careta. — A primeira vez que me fez essa ameaça você pareceu bem envergonhada. — riu.
— Não mandei você me dar liberdade, padrezinho.
— Até mais, pequena. — ele beijou minha testa. — Tenha uma boa temporada de desfiles.
— Tenha um bom retiro.
E depois de um último abraço, eu o observei caminhar pelo corredor até entrar no elevador e sumir do meu campo de visão. Soltei um suspiro e voltei para o quarto, pronta para o início de mais um dia de trabalho.
Após o desfile, eu, May, Christian e Annie resolvemos sair para beber. Sei que eu havia prometido aos meus amigos aproveitar os homens que Los Angeles tinha para oferecer, mas no momento, eu não queria saber de ninguém.
Não que eu achasse estar comprometida com Christopher, aquilo era loucura, mas como sentir desejo por outros homens enquanto ele não saía da minha cabeça?
— Aquele cara não para de te secar! — Maitê gritou no meu ouvido e acenou com a cabeça na direção de um homem loiro do outro lado do balcão do bar.
— Não estou afim! — respondi para ela.
— Mas ele é um gato, qual o seu problema? — empurrou meu ombro de leve.
— Problema nenhum, eu só não estou afim. — revirei os olhos.
— Maitê, quer dançar? — Christian perguntou.
— Estava esperando você me chamar! — ela segurou a mão dele e os dois saíram até a pista de dança.
Agora eu estava sozinha, tendo em vista que Anahi não perdeu o tempo dela e se atracou no pescoço de um cara assim que passamos pela entrada do lugar. Dei um bom gole no meu cosmopolitan e deixei o copo sobre o balcão, dando as costas para observar melhor o lugar, tentando não perder meus amigos de vista.
— Tão bonita e tão sozinha? — dei um pulo ao ouvir a voz atrás de mim e quando me virei, dei de cara com o loiro que agora estava mais perto do que eu gostaria.
— Meus amigos estão dançando. — falei.
— E você não quer dançar também? — perguntou de forma sugestiva.
— Não, obrigada.
— E se eu te pagar uma bebida?
— Já estou bebendo. — ergui meu copo e dei outro grande gole. Ele sorriu de forma maliciosa e eu pedi aos céus para que sumisse do meu campo de visão.
— Eu posso saber o seu nome?
— Dulce. — falei direta, sem me importar em saber o dele.
— Sou Jensen. — eu assenti apenas. — Você não é daqui, é?
— Isso é importante?
— Eu só quero te conhecer.
— Acho que eu já dei alguns sinais de que não estou interessada.
— Relaxa, não precisa ficar tão na defensiva. — ele tentou tocar a minha mão, mas eu me afastei.
— Se ajuda no seu ego, eu te acho um gatinho, só não quero nada com ninguém agora.
— Não, isso não ajuda no meu ego. — respondeu de forma séria.
— Bem... eu... — comecei a sentir uma leve tontura e coloquei minha mão sobre a testa.
— Regra número um de quando se está numa festa lotada: nunca dê as costas ao seu copo. — apesar da tontura, eu vi ele rodopiar uma tabela de comprimidos entre os dedos e o guardar no bolso de sua jaqueta. Faltava um comprimido naquela tabela.
Eu olhei para o meu copo, agora vazio e me amaldiçoei por não ter dado toda a atenção necessária.
— Vamos a um lugar mais tranquilo. — sua voz soou como um eco que vinha de longe.
Jensen segurou meu braço e começou a me guiar por entre as pessoas. Eu m*l conseguia distinguir o espaço ao meu redor. Tudo era um borrão e a música se afastava cada vez mais. Era como se a minha consciência estivesse se esvaindo do meu corpo.
Quando o barulho finalmente cessou, eu senti a brisa da noite bater em minha pele. Estávamos do lado de fora e eu continuava sendo arrastada em uma direção que eu m*l conseguia perceber qual era.
Meu corpo ficou mole e minha cintura foi agarrada pelo braço dele. Logo depois, senti meu corpo ser jogado no banco de trás de um carro e ali eu me dei conta de que estava completamente ferrada.