Episódio 4

1953 Palavras
— Na minha opinião, você está exagerando. Disse ele finalmente. — Como assim? Pensei ter ouvido errado. — Exagerando? — Bem, Denis se divertiu com uma garota bonita. Você a viu? Ela é deslumbrante, eu mesmo… — Como assim? Petro deu uma risadinha e não disse mais nada. — Acontece com todo mundo. No fim das contas, é a vida. Cerrei os dentes. — Então, infidelidade é trivial aos seus olhos? É possível que você tenha incutido esses valores familiares no seu filho? — Não ultrapasse os limites, Eva. Fale, não exagere. Ele franziu a testa. — Sim, Denis cometeu um erro. — Ele me traiu! — Quem não comete erros? Ele deu de ombros, mantendo a calma. Parecia estar discutindo um roteiro de TV, não a transgressão do filho. — Além disso, ele me humilhou publicamente. — Concordo com você. Ele quer se divertir, que se divirta. Mas a esposa dele não pode descobrir. E a reputação vem em primeiro lugar. Essa Liza escolheu o pior momento possível para confessar, com tantas testemunhas presentes... Eu fervia de indignação. — Então você não se importa com o nosso casamento? Só com o que os outros dizem? — O que vai acontecer com o casamento? Ora, vocês estão juntos há tanto tempo. Desde a universidade, inclusive. — Então, só porque eu estou com seu filho há quinze anos, eu devo perdoá-lo automaticamente por tudo? É assim que você vê as coisas? Petro ainda não havia se aposentado. Ele era nefrologista, respeitado em círculos próximos e distantes. Eu sempre o considerei um homem sensato, inteligente e decente, e fiquei feliz que Denis quisesse seguir seus passos na medicina. E agora meus olhos estavam bem abertos tanto para o meu marido quanto para o meu sogro. — Então, você não se importava com o que ele estava fazendo. Parecia que ambos estavam se divertindo com as suas aventuras. — Você é uma mulher inteligente, Eva. Por que todo esse drama? Acha que esse tipo de reação vai manter Denis ao seu lado? Meu Deus, esse pesadelo parecia interminável. — Por que você acha que eu quero mantê-lo por perto? — Está planejando o divórcio? Ele se virou para mim. Eu não sabia o que queria fazer nem o que aconteceria depois dessa catástrofe. Naquele momento, tudo fervilhava dentro de mim. A razão havia desaparecido. — E se eu fizer isso? Ergui o queixo, desafiadora. — Não diga isso, garota. Não é nada sério: ele vai se divertir um pouco, vai passar e você vai viver como antes. Viver como antes? Como? Simplesmente ignorar que meu amado marido me traiu? Esquecer? — Para você, é tudo tão simples, Petro. Eu não consigo fazer isso. — Se você quer viver bem e que seus filhos cresçam em uma família estável, você aprenderá como. Disse ela com firmeza. — E você pensou em como isso afetará a carreira dele? — Eu não me importo com a carreira dele! Ele deu uma risadinha, como se tivesse ouvido algo engraçado, mas apertou o volante com mais força. — Claro, você vive de auxílios, então não se importa com a carreira do seu marido. — O quê? Como ousa me dizer isso? Você se esqueceu de que sou médica, assim como seu filho? — Que médica? Você nunca trabalhou um dia sequer na vida? — Porque eu tive um filho. — Na época, eu estava terminando minha residência, grávida. Entrei em trabalho de parto enquanto trabalhava. Irina nasceu com saúde frágil, então o primeiro ano de vida dela foi um inf*erno para mim. Denis estava fazendo a pós-graduação, trabalhando em plantões extras. M*al conseguíamos sobreviver. Eu estava sempre privada de sono e ansiosa, mas mesmo assim, estava convencida de que éramos felizes. Será que eu estava enganada? — E para evitar trabalhar, você engravidou de novo. — Seu próprio filho me convenceu a ter outro filho. Eu disse, indignada com a injustiça. — Quem diria que seriam gêmeos? A segunda gravidez foi complicada: o dobro do peso, além do início da pré-eclâmpsia. Quase sucumbi à pressão alta. Mas os meninos nasceram saudáveis ​​e não exigiram tanta atenção minha quanto a irmã. Denis encontrou estabilidade no trabalho, começou a ganhar um bom salário e até conseguimos contratar uma babá. Depois, compramos um apartamento em um prédio novo e dois carros. A vida tinha dado uma guinada: tínhamos estabelecido nossa casa, as crianças estavam crescendo e viajávamos pelo menos a cada seis meses. A paixão entre Denis e eu ainda estava viva. Embora não nos despissemos mais com a mesma intensidade, o amor ainda estava lá. Parecia que finalmente tínhamos chegado a um período de prosperidade, uma época para aproveitar a vida. Foi por isso que a bomba que Liza me lançou destruiu tudo. Estávamos fazendo se*xo regularmente. Meu Deus! Como eu poderia suspeitar que havia outra pessoa entre nós agora? — Não tenho nada contra ter netos, não me interprete m*al, Eva. É só que... É só que eles sempre vão ficar do lado do Denis. Talvez um dia eu consiga entender, mas não agora. — Meu filho cometeu um erro. Suspirou meu sogro, adotando uma expressão que sugeria que ele estava falando comigo como se eu fosse uma criança ingênua. — Mas isso não significa que tudo está perdido. Acredito sinceramente que você pode resolver isso, se você, Eva, agir com inteligência e maturidade, em vez de se entregar à histeria. — Resolver isso? Como eu vou conseguir? Petro parecia não estar me ouvindo, e eu já havia perdido a esperança de que ele entendesse minha dor. Talvez ele não fosse capaz de senti-la. — Denis teve um caso com outra mulher. — E daí? Um pequeno erro vale a pena destruir um relacionamento tão bom? Petro encarava a estrada, com o rosto tenso. — E como vamos lidar com a gravidez da sua amante? Ou está sugerindo que eu aceite um quarto filho na família? Finalmente, Petro desviou o olhar e encontrou o meu, com uma expressão que misturava teimosia e irritação. — Gravidez? Ele ergueu levemente as sobrancelhas. — Não finja que se esqueceu, esse foi o ponto alto da comemoração. A cereja do bolo. Dei uma risada com um toque de histeria. — Liza está grávida. Do seu filho. Todo mundo ouviu. Vocês vão ser avós de um quarto neto! Sua expressão mudou ligeiramente, mas ele logo recuperou a compostura. — Isso ainda não foi confirmado. Disse ele, sem me olhar nos olhos. — Ela pode estar mentindo, tentando arruinar seu casamento. Suspirei. Eu não descartava completamente essa possibilidade. No entanto, uma mentira dessas era arriscada, principalmente se fosse pública. A veracidade das palavras de Liza era fácil de verificar, caso Denis quisesse. — Mesmo que fosse esse o caso, o simples fato da infidelidade já é motivo suficiente para o fim do nosso casamento. Eu disse, com a voz embargada. — E eu não posso continuar vivendo com alguém que me humilha assim. Ele suspirou e passou a mão pelos cabelos. — Eva, eu entendo que você está sofrendo agora, que suas emoções estão à flor da pele, mas pense nas crianças. — O que meus filhos têm a ver com isso? Franzi a testa. — Eles precisam dos dois pais. Eles merecem uma família completa. Ou você quer privá-los de uma vida normal? Ao punir Denis, você também estará punindo as crianças. Ele estava manipulando meus instintos maternos, mas naquele momento, eles estavam em silêncio. Era a mulher violentada, m*al respirando de dor, que falava dentro de mim. — As crianças merecem crescer em um ambiente de honestidade e respeito. Afirmei o óbvio. — Em uma família onde os pais se amam e são felizes. E eu não posso ser feliz em um casamento onde sou traída. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, talvez ponderando as palavras antes de responder. — Você precisa dar uma chance a Denis para se redimir. Disse ele finalmente. — Todos nós cometemos erros. Tenho certeza de que meu filho fará o que for preciso para corrigi-los. Lembrei-me do jeito que Denis olhou para Liza, de suas palavras sobre não magoá-la. E além disso, ele escolheu ficar com a amante no restaurante em vez de vir para casa comigo para me dar uma explicação. Ele valorizava tanto assim o nosso casamento? Então, por que eu deveria fingir que nada aconteceu? — E se ele não quiser? O ​​que vai acontecer então? Perguntei. — Eva... Ele começou lentamente. — Se Denis não quiser resolver isso, você precisa fazê-lo querer. — Como assim? Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. — Você, como mulher, conhece todas essas estratégias melhor do que ninguém. Não é tão difícil convencer um homem quando é necessário? Vocês estão juntos há anos. Certamente você sabe o que meu filho gosta e valoriza. Você vai encontrar um jeito de influenciá-lo. — Sim, eu vou encontrar um jeito. Eu disse, embora minha voz soasse oca, como se não fosse minha. —Mas mesmo que me matem, não entendo por que eu deveria fazer isso. — Tenho certeza de que ele vai resolver isso. Ele me ignorou. — Vocês têm três filhos, um casamento exemplar. Isso não pode simplesmente desaparecer. — A julgar pelo comportamento de Denis, isso importa menos para ele do que a paz de espírito de sua jovem amante. Meu sogro suspirou pesadamente. — Eu entendo, Eva. Mas pense nas crianças. Elas não têm culpa do que aconteceu. Você pode se divorciar, mas isso deixará cicatrizes não só em você, mas nelas também. Elas verão o mundo delas desmoronar e... — Pare de usar meus filhos como arma! Agora, isso é sobre Denis e eu. Não posso confiar em um marido que me traiu. Você não entende? — Vejo uma mulher em choque, com raiva, desorientada. Não tome nenhuma decisão precipitada, Eva. Principalmente porque você ainda nem falou com Denis. — O que ele poderia dizer para justificar esse pesadelo? Que traição é normal, como o pai dele pensa? Que eu interpretei m*al as coisas? Que a gravidez da Lisa é uma piada de mau gosto? — Marina e eu sempre quisemos que você fosse feliz. Disse o homem após uma breve pausa. — Nós amamos você e nossos netos. Mas Denis é nosso filho, e não podemos simplesmente virar as costas para ele. É por isso que... Vocês sempre estarão do lado dele, como eu suspeitava. — Eu sei que você sempre estará do lado dele. E vocês podem virar as costas para mim? Perguntei amargamente. — Para mim e para os netos de vocês? Ele não respondeu. Senti como se tudo dentro de mim estivesse sendo consumido pela dor e pelo desespero. Eu não conseguia acreditar que isso estava acontecendo comigo, que as pessoas em quem eu confiava pudessem justificar tão facilmente a traição do filho. Chegamos à casa. Pedro parou o carro e se virou para mim. — Você precisa pensar no que será melhor para todos. Se decidir deixar Denis, precisa estar preparada para todas as consequências dessa decisão. — Isso é uma ameaça, ou estou imaginando coisas? — Que ameaça, garota? Você tem uma imaginação bem fértil, Eva. Só estou te lembrando que mulheres maduras tomam decisões com a cabeça fria e consideram todas as consequências. Pense. Eu já estava cansada dessa conversa e, embora pudesse encerrá-la a qualquer momento, entendia claramente que isso não acabaria com aquela noite terrível. — Vou pensar nisso. Saí do carro e fui em direção à casa, com as mãos e as pernas tremendo. Minha vida estava desmoronando e eu não sabia como reconstruí-la. Seria possível? Mas havia uma coisa da qual eu tinha certeza: depois daquela noite, nada seria como antes.
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