— Sim. Respondeu Denis com naturalidade, alheio ao fato de que estava partindo meu coração naquele instante.
Tentei me manter forte e não demonstrar minha fraqueza. Meu marido dificilmente se importaria com minhas lágrimas, e eu não queria dar a ele a vantagem de saber o quanto aquele dia havia me afetado.
— Você não deveria estar arrumando as suas malas?
Eu deveria, mas me faltavam forças. Minhas mãos estavam caídas, e o choque ainda não havia passado, impedindo-me de pensar com clareza e planejar meus próximos passos. Eu me sentia como se estivesse me afogando, esquecendo como nadar contra a corrente.
— Para quê? Perguntou meu marido, tenso.
— Como assim, para quê? Se você ama a Lisa, provavelmente quer morar com ela. Além disso, vocês vão ter um filho juntos. Suponho que ela precise de você agora mais do que nunca.
— Sarcasmo não combina com você, Eva.
— Nem uma história mirabolante, nem um marido infiel, se você ainda não percebeu.
— Não, não pretendo compartilhar meu dia a dia com ela. Assegurou-me rapidamente. Tão rápido, aliás, que eu nem tinha pensado nisso.
— Que interessante… E por que não?
Denis rangeu os dentes.
— Você realmente não entende?
— Perdi completamente a noção da lógica por trás das suas ações.
Ele suspirou profundamente, deixando bem claro que estava perdendo tempo e que preferia dormir.
— Porque eu já tenho uma esposa e não pretendo mudar nada.
— O quê? Franzi a testa, esperando ter entendido errado.
— Quer dizer, estou bem do jeito que estou, Eva.
Morar comigo e ter encontros secretos com ela? Entendi direito?
Nos conhecemos no primeiro ano da faculdade de medicina. Ele já era popular entre as garotas. Nunca imaginei que nosso primeiro encontro pudesse levar a algo mais, muito menos nos levar ao casamento.
Mas Denis estava determinado a me conquistar: fazia grandes gestos românticos, parecia um homem fiel, inteligente, carinhoso e confiável. Não é de admirar que eu o tenha deixado entrar na minha vida e, depois, decidido unir nossos futuros.
— Por que você ficou em silêncio?
— Simplesmente não consigo entender como alguém pode amar duas mulheres ao mesmo tempo.
Claro, não era a única coisa que eu não conseguia entender, mas não queria compartilhar mais nada com ele.
Eu tinha um bom relacionamento com Denis. Não havia suspeitas. Ele era um pai maravilhoso, carinhoso e apaixonado para mim. Só que, ao mesmo tempo, ele também era assim com outra mulher...
— Eu também não sabia que isso era possível.
— E então você se imaginou como um sultão, e tudo ficou mais fácil?
Meu marido sorriu ironicamente:
— Nunca percebi que você era tão perspicaz, Eva. Isso é intrigante e excitante.
— Você nunca tinha me magoado antes, Denis. Então você não tinha que lidar com as consequências.
— Eu entendo, você está chocada, com raiva. Mas você não precisa me ameaçar, Eva. Somos adultos, não somos? E você pediu para conversar sobre isso.
Eu nunca imaginei que começaria um relacionamento com um estranho cr*uel. Naquele homem à minha frente, com seu olhar duro e expressão severa, eu não reconhecia meu amado marido.
Baixei o olhar para a mesa: desorientada, magoada, exausta.
— Por quê? Murmurei baixinho para o homem.
— Por que o quê?
— Por que você me traiu? O que lhe faltava, Denis? Cerrei os punhos com tanta força que minhas unhas cravaram nas palmas das mãos, e a dor física tomou conta da emocional. — Será que não sou uma boa dona de casa? Será que não te dei atenção suficiente? Será que me concentrei demais nas crianças? Será que meu corpo deixou de te atrair? Ou será que nosso se*xo era ru*im?
Denis fez uma careta.
— Você está fazendo as perguntas erradas, Eva.
— As perguntas erradas?
— Eu te amo, temos uma família maravilhosa, filhos incríveis, se*xo ótimo.
— Mas...
— Não tem ‘mas’. Tudo me satisfaz, eu já te disse isso.
— Tudo te satisfaz. Repeti. — Então por que você buscou satisfação com outra mulher? Por que isso? Eu não entendo...
— Porque eu posso.
Perdi a capacidade de falar, tão chocada fiquei com o que ouvi.
— Porque você pode? Assim, do nada?
— Eu nem preciso fazer nada, elas se oferecem, e quem sou eu para recusar o que me oferecem?
— Elas? Eu me apeguei ao que havia chamado minha atenção.
Denis fez uma careta, baixou o olhar, como se já se arrependesse do que tinha dito. Mas não havia volta.
— Quer dizer que Lisa não foi a primeira?
Denis suspirou profundamente, permaneceu em silêncio e finalmente respondeu.
— Diga-me, Eva, eu tenho cara de homem que se disporia a comer mingau de aveia por quinze anos?
— Então, segundo você, eu sou mingau de aveia? Que comparação! Ri nervosamente. — Denis, você está brincando comigo? Ou você enlouqueceu e eu não percebi?
— Eva, querida. Ele tentou pegar minhas mãos, mas eu as afastei. Senti nojo.
— Não me toque.
— Todos os homens são polígamos. É normal. Temos nossas necessidades. Não podemos nos contentar com uma só mulher para a vida toda. Não acredito que você não tenha entendido isso antes. Você é uma pessoa instruída, lê bastante.
— Mas ninguém me preparou para o meu marido justificar repentinamente a infidelidade dele com uma poligamia passageira.
— Eu não estou me justificando. Se você se acalmar um pouco, vai entender…
— E você vai entender se eu for dormir com qualquer estranho agora? As mulheres também têm suas necessidades, e não podemos nos contentar com um só homem para a vida toda.
— Nem pense nisso. Ordenou Denis friamente.
Ele apertou minha mão com tanta força que doeu.
— Então, o que você pode fazer, eu não posso? Por quê?
Vi os músculos de suas bochechas se tensionarem. Consegui arrancar alguma emoção dele, mesmo que fosse raiva.
— Porque se eu quisesse casar com qualquer uma, eu teria casado.
Meus dedos ficaram brancos. Ele apertou meu pulso com tanta força.
— Me solta.
— Nós nos entendemos? Ele murmurou entre dentes cerrados.
— Você está me machucando, Denis.
Ele me soltou e eu esfreguei o braço para que a circulação voltasse ao normal. A dor passou. Mas agora eu estava com medo. Eu não sabia mais o que esperar de Denis. Antes, ele nunca sequer levantava a voz para mim, e agora estava me segurando com tanta força? O que aconteceria a seguir? Ele me bateria se não gostasse do que eu disse?
— Desculpe. Ele murmurou. — Só estava pensando em você com outro homem, Eva… Melhor não falar sobre isso.
— Você está sentindo esse cheiro? Perguntei, inspirando dramaticamente.
— Que cheiro?
— Cheira a hipocrisia, Denis.
— Ah, não comece.
— A verdade dói?
— De que verdade você está falando, Eva? Sua postura é infantil, sinceramente. E você está tentando me fazer parecer um monstro. Todo mundo vive assim, não só nós.
— Bem, eu não quero ser como todo mundo. Eu disse, apertando os lábios e procurando algo no meu celular.
— O que você está procurando? Perguntou Denis, cautelosamente.
— O número de um cartório.
— Por quê?
— Para fazer um testamento antes de morrer. Suspirei.
Sua testa se franziu. Ele parecia confuso.
— Por que você está falando em morrer?
— Diga-me você, Denis. Por que estou pensando em morrer? É porque Liza não vê a hora de eu morrer e resolveu confessar tudo?
Denis desviou o olhar. Suas bochechas coraram levemente pela primeira vez. Ele estava envergonhado? Não, para sentir vergonha, uma pessoa precisa ter consciência, e eu duvidava seriamente que meu marido tivesse uma.
— Eu disse a ela que você estava doente. Denis finalmente confessou, a contragosto.
Foi o golpe final no caixão das minhas ilusões, que meu marido desferiu com maestria, com um único golpe.
— Doente demais, não é? Minha voz falhou e precisei pigarrear. — Você disse que só me atura por causa das crianças e porque sente pena da minha doença? Haha, Denis, que plano sem graça!
— Abaixe a voz. Ele repreendeu. — Você vai acordar as crianças com essa sua risada.
— Você poderia ter inventado uma história mais interessante para a sua Liza.
— E o que você realmente está, Eva? Você está doente.
— AIT não é uma doença fatal, Denis. eu disse, quase sufocando de raiva. — E o estágio inicial, como o meu, nem sequer requer terapia hormonal. Você é só um can*alha, isso sim.
Sim, fui diagnosticada com uma doença autoimune. Foi uma descoberta acidental durante um exame de rotina, já que eu não tinha nenhum sintoma que sugerisse algo sério.
E descobriu-se que minha tireoidite estava em estágio inicial, então o endocrinologista recomendou ajustar minha dieta, rotina de sono e nível de atividade. Por enquanto, isso ajudou a manter meus níveis hormonais dentro da faixa normal.
Denis não respondeu, apenas esfregou o rosto com as mãos, como se essa conversa o estivesse realmente exaurindo. Ele, não eu.
— Você já sabia há algum tempo?
— Sobre o quê? Ele não entendeu de imediato.
— Sobre a gravidez da Liza.
— Descobri hoje, junto com todo mundo. A Liza sabe como fazer surpresas. O meu marido riu. — Mas ela vai levar uma bronca por isso. Notícias assim devem ser compartilhadas em particular, não na frente de todos.
— Você está se ouvindo, Denis? Você está preocupado que todos descubram sobre a gravidez da sua amante, mas não se importa com o fato da gravidez em si ou com a sua infidelidade.
— Eu te avisei que você não gostaria dessa conversa, Eva. Mas você insistiu em saber a verdade. Aqui está: eu tenho uma amante, e ela está grávida. Não vejo nada de catastrófico nisso, embora eu já esperasse sua reação. É por isso que você nunca soube da Liza, nem do nosso filho.
— Mas eu descobri.
— Sim, você descobriu. Concordou Denis. — Então temos duas opções daqui para frente. Primeiro, você esquece tudo o que descobriu e continuamos vivendo perfeitamente bem como antes. Prometo que a Liza não vai te incomodar.
— E o filho dela?
— E o meu filho com ela também.
Eu sorri ironicamente: como tudo parecia simples para ele!
— E a segunda opção?
— A segunda opção: você sofre, testa minha paciência, Eva, e depois esquece tudo e continuamos vivendo como antes. Embora, antes de chegarmos a esse ponto, a gente se enlouqueça. Concluiu Denis. — Então, qual opção escolhemos?