Episódio 9

1058 Palavras
Vá para o infe*rno, Denis! Eu te odeio! Deus, como eu te odeio! E ontem mesmo eu estava morrendo de amor. Hoje, eu só queria que você se engasgasse com a sua arrogância e esse sorriso descarado. Era isso que eu deveria ter dito na cara do traidor. Eu queria tanto gritar, liberar tudo o que fervia dentro de mim e me torturava, mas não gritei. Me contive. Não por mim, não pelo Denis, nem mesmo pelo nosso casamento, mas pelas crianças. — Você não precisa ir trabalhar? Perguntei calmamente. — Não vai se atrasar? — O chefe do departamento pode se dar ao luxo de se atrasar um pouco. Ele respondeu, me encarando. — E você queria conversar. Ou mudou de ideia, minha querida? O "minha querida" dele foi como um soco no estômago. Eu até prendi a respiração. Senti que ele estava fazendo isso de propósito, me testando. Como era difícil manter uma expressão impassível, não me atirar sobre ele, não confrontá-lo com as minhas queixas. Liguei a máquina de lavar louça. Então, endireitei-me lentamente e suspirei profundamente. — Não consigo entender, Denis, se você me ama tanto quanto diz, por que continua me humilhando? Um silêncio mortal pairou sobre a cozinha por um instante. Eu não olhei para ele, mas senti o seu olhar atento: senti com todo o meu ser. — Desculpe. Ele finalmente conseguiu dizer. — É que a sua distância, sua frieza, até mesmo a sua indiferença, me enlouquecem. Mantive as costas voltadas para ele, sem me virar. Assim era mais fácil me controlar e preparar Denis para o clima certo. — O que você esperava, Denis? Acha que alguém pode esquecer uma traição, a humilhação que você me fez passar ontem no restaurante, e agir como se nada tivesse acontecido? Você conseguiria fazer isso? — Eu te mataria. — O quê? Olhei por cima do ombro para o meu marido. Ele conseguiu me surpreender. — Não consigo nem imaginar você com outra pessoa... Ele balançou a cabeça. — Só de pensar nisso já me deixa louco. — Te machucaria se eu fizesse isso? — Você ainda pergunta isso? Desde o momento em que te vi na universidade, soube imediatamente que queria você para mim e faria o que fosse preciso para te ter. — E dói, Denis, você não pensa nisso? — Eva. Ele tentou me abraçar por trás, e por um instante até fechei os olhos num gesto de alívio, ansiando por aquela ilusão em que eu costumava viver. Sentia falta daquele mundo, daquela bolha protetora onde me sentia protegida da realidade por tantos anos. Sentia falta do meu amado, em quem sempre confiei completamente. — Não me toque. Por favor. — Tudo bem. Ele suspirou e deu um passo para trás. — Eu entendo. — Entendi. Ele suspirou e deu um passo para trás. Duvido, Denis. Pensei comigo mesma. Ele não entendia. Nem sequer queria entender. Estava apenas tentando me dobrar à sua vontade, vencer esse duelo, mesmo que isso significasse recorrer a métodos sujos e desonestos. Queria manter intacto o seu estilo de vida confortável. — Então, o que você decidiu, Eva? Perguntou meu marido, sem obter resposta. — Qual opção você escolhe? — É claro que ficarei com você, Denis. — Obrigado. Disse ele com um sorriso e um toque de alívio. — Eu sabia que você não destruiria a nossa família por algo tão trivial. Você é uma mulher inteligente, Eva. Você é minha esposa. — Mas preciso de tempo. — Tempo? — Tempo para aceitar a situação, para esquecer. Liza me humilhou na frente de seus colegas e amigos. As palavras dela ainda ecoam nos meus ouvidos. — Liza já está arrependida do que fez, acredite em mim. Assegurou Denis. — E meus colegas… Ninguém vai falar m*l de você, Eva. Amanhã, as pessoas nem vão se lembrar desse incidente. Cada um tem a sua vida. — Isso não muda o fato de que ainda dói. Não posso fingir que está tudo bem. Nada se resolve facilmente, nem hoje, nem amanhã, nem depois de amanhã, Denis. — Vou esperar. Ele prometeu. — Não vou cozinhar para você, Denis. Se não quiser que eu lhe sirva algo com laxante, então… — Vou comer em outro lugar, num restaurante, por exemplo. Concordou prontamente. — A Liza não cozinha? — Não falaremos mais sobre Liza, Eva. Decretou Denis em tom metálico. — Se você quer esquecer. E você precisa esquecer. Então não fique cutucando a ferida. Entendeu? — Que bom que você entende muito de feridas, Denis. Esta é fatal? — Você vai viver. E vai viver bem, Eva, plena, feliz, como se nada tivesse acontecido. — Quando? Essa pergunta me preocupou muito, mesmo sabendo que Denis mentiria. — Em breve. Você só precisa ter paciência, minha querida. Disse ele, lançando um olhar demonstrativo para o relógio e assobiando. — Preciso ir, Eva. Voltarei tarde. Não respondi. Normalmente, Denis me daria um beijo de despedida, mas desta vez ele não se aproximou. Eu também não teria tolerado o seu toque, mas ainda sentia falta do que tínhamos ontem. Era um estado em que a mente vivia por conta própria enquanto o coração se dilacerava de dor. — Eva? Denis me chamou antes de sair da cozinha. — Sim? — Saiba que sinto muito por você ter descoberto tudo isso… Mas vamos superar isso, tudo ficará bem. Nós nos amamos, somos uma família. É só disso que você se arrepende, Denis? De eu ter descoberto tudo? Os meus pensamentos ecoaram, mas não disse nada em voz alta, e Denis saiu. Fiquei sozinha na cozinha, ouvindo a porta se fechar atrás dele. Senti um certo alívio quando ele saiu do apartamento, como se eu pudesse finalmente respirar mais aliviada. Fiquei um tempo olhando pela janela, contemplando o céu para acalmar os meus nervos. Depois, fui até as crianças, tentando forçar um sorriso. — Bem, crianças, quem está pronto para novas aventuras hoje? Perguntei a eles, fazendo todo o possível para parecer alegre. As crianças olharam para cima e começaram a discutir os seus planos com entusiasmo. O entusiasmo delas animou-me um pouco, mas a dor permanecia dentro de mim. Eu sabia que tinha um longo caminho pela frente até a recuperação e duvidava que conseguiria enfrentar todas as dificuldades. Estava com medo. Mas, pelas crianças, eu estava disposta a tentar.
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