Pré-visualização gratuita Betão
Olá Meus amores, mais
uma história começando.
QUER FICAR POR DENTRO
DE TUDO? Fotos dos
personagens, spoiler e
falar diretamente comigo?
Na bio do meu ïnstagram
@autora.vihfelix tem o link
do grupo de leitoras e no
grupo tem o meu
número. fiquem a vontade
e é só me chamar.
BOA LEITURA AMORAS ❤️
Betão Narrando
O teto do quarto é o meu cinema particular e, hoje, o filme é um reprise sem fim de dezessete anos atrás. Tô aqui estirado de barriga pra cima, braços cruzados atrás da nuca, sentindo o peso dos meus 37 anos nas costas.
O silêncio da casa é cortado só pelo zumbido do ventilador de teto que gira devagar, espalhando esse calor abafado. Minha mente, teimosa, volta pra Mayara.
Aquele golpe ainda dói como se fosse ontem, uma cicatriz que nunca fecha direito, só cria uma casca grossa por cima pra não deixar infeccionar.
A gente vivia uma parada intensa. Ela, garçonete num restaurante chique lá na zona sul, chegava em casa exausta, mas sempre com aquele cheiro de perfume caro misturado com o cansaço do batente. Eu, na época, só tinha olhos pra ela. A mudança veio aos poucos: umas saídas a mais, o celular virado pra baixo, a falta de paciência com as minhas perguntas.
Quando ela meteu o pé, deixou um rombo no peito. A cereja do bolo podre? Fiquei sabendo pela fofoqueira do morro que ela tava grávida. Do gringo que conheceu na pista. Aquilo me quebrou de um jeito que nem se você tentasse colar os cacos com supercola ia adiantar.
O Betão romântico morreu ali, num banco de praça qualquer, ouvindo conversa fiada.
Desde aquele dia, a chave virou. Nunca mais deixei ninguém entrar. A regra é clara: chega, a gente se satisfaz e cada um pro seu canto.
Não maltrato, não humilho, trato com respeito até a porta, mas não tem espaço pra sentimento. É só carne, suor e desapego. Eu tenho dois metros de altura, o corpo todo riscado, marcado por tatuagens que contam histórias que eu prefiro esquecer. Calço 44, minhas mãos são pilastras, essas que dão o apelido de Betão. E o pacote que carrego? Vinte centímetros, medidos na régua, sem choro nem vela. A Mayara, quando a gente tava no ápice, falava que era o que mais machucava, que eu não sabia a hora de parar. Vai saber se era verdade ou se era papo de quem queria me manter na palma da mão. Hoje, essa pörra só serve pra descarga de adrenalina e um prazer rápido antes da porta bater.
A vida mudou o foco. O que me mantém de pé é a velha, minha vó Mariazinha. Ela é a base de tudo, a mulher que me criou com o pouco que tinha e com toda a sabedoria do mundo.
Ela é sinistra, tá ligado? Fé firme na Umbanda, um olhar que parece que lê até o que eu escondo no pensamento. Quando ela abre a boca pra falar algo, eu abaixo a crista e escuto. Não tem essa de bater de frente; sei que quando ela dá um conselho, é porque alguém lá do outro lado soprou no ouvido dela. Eu respeito demais aquela senhora, ela é o único porto seguro onde eu consigo baixar a guarda.
E tem a Eloá, minha sobrinha. Ela é a minha vida, meu tudo. Desde que a mãe dela, minha irmã, que Deus a tenha, partiu, eu tomei as dores dessa missão. Cuidei de longe, vigiando cada passo, até chegar o momento de me aproximar de vez e assumir o papel de protetor. A Eloá, o Rian, meu afilhado, e a pequena Heloísa, minha princesinha, esses três são a minha luz. Eles não sabem, mas eu daria minha vida sem pensar duas vezes pra garantir que nada de ruïm chegue perto.
Agora, o Ceifador, marido da Eloá? Aquele cara me tira o juízo. Eu não suporto a ideia de ver minha sobrinha triste por causa dele. Quando vejo uma lágrima no olho dela por conta de um vacilo desse otärio, o sangue ferve. É uma vontade incontrolável de resolver na base da brutalidade, de apagar o cara do mapa. Mas eu me seguro. Me seguro por ela, pra não criar um problema que vá desestruturar a casa da Eloá. É um jogo de paciência que me consome por dentro. Eu finjo que tá tudo bem, dou um tapinha nas costas, mas o desprezo tá guardado na garganta.
— Betão, tu tá muito calado hoje, parece que tá vendo assombração no teto — minha avó entra no quarto, limpando as mãos no avental.
— Tô só pensando na vida, vó. No que passou e no que ainda falta fazer. — Respondo, mudando de posição na cama.
— O passado não volta, meu filho. O que você viveu foi pra te fazer o homem que você é hoje, mas não precisa carregar esse peso todo. O seu coração tá trancado, mas a chave quem tem é você.
— Eu não preciso de chave pra nada, vó. Do jeito que tá, tá bom. Tô satisfeito.
— Satisfeito não é ser feliz, Beto. Tem uma diferença grande aí que você tá ignorando.
— Felicidade é luxo pra quem não viveu o que eu vivi. Eu tô aqui, tô vivo, a família tá protegida. Isso é o que importa.
— A proteção que você dá pros outros você não dá pra si mesmo. Cuidado pra não acabar virando pedra de tanto querer ser o rochedo dos outros.
Ela saiu do quarto sem esperar resposta, deixando o cheiro de incenso no ar. Fico ali, olhando o ventilador girar, girar e não sair do lugar. É exatamente como eu me sinto. Tô satisfeito porque não me falta comida, porque meus protegidos estão seguros, mas a felicidade é um conceito que eu esqueci como se soletra. Vivo nesse marasmo, mantendo a carcaça bruta e a mente focada no dever.
É uma vida de sobrevivente, de quem aprendeu que, pra não se decepcionar, é só não esperar nada de ninguém. Pode crê, se for pra ser assim até o fim, que seja. Enquanto a Eloá sorrir e a vó tiver saúde, eu aguento o tranco dessa rotina amarga, bebendo a dose diária de um vazio que eu mesmo escolhi habitar.
Pedi a benção a minha vó, e desci pra puxar plantão.
O clima na favela tá tenso, o cheiro de pólvora já impregnava o ar antes mesmo do primeiro estampido. A gente tava na contenção quando o bonde dos rivais subiu o morro, ignorando qualquer limite. Não deu nem tempo de pensar; foi aquele corre, gritaria e o clarão dos tiros cortando a noite. Eu tava na linha de frente, cobrindo o recuo dos moleque, quando senti um soco brutal, seguido de uma queimação que parecia fogo líquido correndo nas veias.
O impacto me jogou contra a parede, e o mundo girou numa velocidade absurda. Não foi uma dor aguda de imediato, foi mais um tranco seco, como se um trator tivesse passado por cima do meu peito. Olhei pra baixo e vi o sangue escuro manchando a camisa, espalhando rápido. A respiração começou a falhar, ficando pesada, curta.
A adrenalina que antes me mantinha alerta foi sendo substituída por um frio que subia das pernas pro peito. A voz da galera ao redor soava abafada, como se tivessem colocado algodão nos meus ouvidos. O teto do mundo começou a escurecer pelas bordas. Apaguei ali mesmo, entregue ao breu, com o nome da Eloá sendo a última coisa que tentei formular na mente.