Émie Carter:
Cada virada de taça vinha acompanhada de uma risada. Sentandos de frente para um lado, em um estabelecimento pouco frequentado por sua aparência (de pobre). Pela primeira vez eu estava sentada, bebendo e me divertindo sem medo de ser agredida quando chegasse em casa, só em pensar nisso eu já me sentia uma pessoa de sorte e aliviada por ter me livrado de tudo aquilo.
— Você disse que tinha um namorado, ele ainda perturba você? — Michael não era invasivo, ele sabia o momento certo de fazer suas perguntas.
— Mclay é meu demônio infernal, ele nunca vai me deixar em paz enquanto estiver vivo. — respondi certa do que estava dizendo, pois em vida ele jamais me deixaria em paz, além do mais, sendo amigo dos meus pais isso só seria vantajoso para ele, no caso fazer chantagens para mim.
— Ficaria triste se ele morresse? — a pergunta inusitada fez com que meus olhos se arregalassem e eu cuspisse todo o vinho fora, batendo nele e sujando sua camisa.
— Me desculpe por isso. — num ato de desespero, peguei vários guardanapos e passei em cima da mancha vermelha em sua camisa. — Eu acho que a bebida subiu pra minha cabeça. — levantei desengonçada, tropeçando no meu próprio pé enquanto tentava ficar de pé.
— Calma, isso não é nada, só quero que responda minha pergunta. — era algo simples de responder, mas a morte para ele não seria o suficiente perto das barbaridades que sofri enquanto estive em suas mãos.
— Triste não seria a palavra, mas decepcionada, a depender da forma que ele morreria. — foram anos de torturas enquanto estive em suas mãos, haviam segredos que eu levaria comigo por toda a vida, pois jamais teria coragem de conversar sobre com alguém.
— Então ficaria triste se ele morresse? — sua expressão de infelicidade estava posta em sua face, assim como seu tom de voz já havia mudado. — Eu sinceramente não entendo como funciona a cabeça das pessoas.
— Pois não tente entender, geralmente elas são perturbadas, mas cada um com sua essência de perturbação. Morrer seria fácil demais para ele, ele merece o inferno enquanto ainda está vivo, só não encontrou quem lhe desse isso ainda. — não notei que estava falando alto, mas Michael me olhava sem entender o porquê do meu choro e revolta.
A mentira tinha pernas curtas, ainda mais quando está sendo contada juntamente com o álcool envolvido na conversa, foi então que falei o que eu mais temia. Eu precisava desabafar, quando na verdade queria mesmo era gritar aos quatro ventos o quanto aquela dor que me consumia cada dia mais, tirando minha vontade de viver.
— Deixe-me dar a ele o inferno que ele merece? — com convicção ele falava, como se estivesse motivado a fazer algo que viesse se arrepender depois.
— Sob hipótese alguma. Não quero que se envolva em meus problemas, você já está cheio deles.
— Quais você está a mencionar? Pois não vejo problemas com você aqui, aliás, eu já não me importo com eles já faz muito tempo. Deixe-me cuidar de você e eu prometo que farei por onde ser merecedor do seu amor. — segurei sua mão que estava em meu rosto e a beijei, sentindo meu corpo e minha mente pedindo para avançar aquele momento.
— Você já é merecedor do meu amor apenas por existir e me fazer bem, Michael. Eu o amo com todas as minhas forças e se estou lutando pela vida hoje, é porque nunca descartei a possibilidade de reencontrá-lo outra vez, e aqui estamos nós! — levantei os pés e lhe beijei, o pegando de surpresa pelo acontecido. — Eu Vésperas de Natal, não quero permitir que meus demônios tomem conta das minhas dores hoje, nem nunca mais. Vamos viver o hoje, o amanhã e assim por diante, até que a gente se decida e…
— Está pensando na possibilidade de ir embora ainda?
— Em momento algum eu disse que ficaria para sempre em sua casa. Acho que agora você irá querer mais privacidade com o seu filho, além disso eu não sou muito boa com crianças e logo seu filho sentirá falta de uma pessoa que possa lhe oferecer momentos intensos. Espero que você faça parte da vida dele e não o abandone. — ainda motivada pela bebida, me deixei levar pelas palavras e escapuliu a coisa que eu mais estava gerando esconder dele… — Mclay me exigiu dinheiro para manter o anonimato, então acho que vou precisar mais alguns dias em sua casa, mas quero arcar com as despesas também, mas eu… — com força ele me segurou e me pressionou sobre a parede.
— Esse canalha está te chantagens novamente e você não me disse nada? — o dono do bar nos olhava com preocupação, até eu lhe dizer que estava tudo bem.
— Eu não te devo satisfações, se quer me ajudar que seja da forma correta. Me deixando resolver meus problemas sozinha, eu vou dar um jeito na minha vida e depois a gente conversa. Você já tem uma carreira, não queira colocar tudo a perder por causa de uma bobagem. Eu vou resolver isso a gente conversa, eu não quero que você me deixe outra vez, por favor, tente me compreender.
Sem me olhar ele me soltou e saiu andando rápido em minha frente. Segui seus passos, tentando andar rápido, até que o meu pior de estresse tinha se elevado de nível, no exato momento eu gritei tudo o que estava me incomodando, trazendo todo o nosso passado a tona.
— Parece que você não mudou nada mesmo, continua sendo o mesmo babava de sempre, achando sempre que o mundo gira em torno de você. Se você não sabe lidar com os sentimentos de alguém, está explicado porque você nunca viveu um amor intenso em sua vida. — aquilo estava me matando, eu queria gritar mil e uma coisa, mas eu também queria chorar e necessitava mais que nunca de um abraço.
Seu carro estava logo a frente, entrei e sentei no banco de trás, ignorando seus olhares para trás enquanto dirigia. Estávamos quase chegando em casa, quando senti a parada brusca, a errada estava vazia e não havia perigo, não agora.