Michael Williams:
Estava me controlando ao máximo para beijá-la, mas isso se tornou impossível de não o fazer quando olhei para trás e vi sua respiração ofegante. Estávamos um pouco elevados, mas ainda sim estávamos sóbrios e com a consciência em dia. Com o carro parado, ela desceu e estava reclamando baixinho.
— Acho que precisamos pautar algumas coisas por agora. Nutrimos o mesmo sentimento um pelo outro, nada mais justo que compartilharmos nossas dores, você não acha isso justo? — enconstada em uma árvore ela se mantinha calada, com o olhar baixo e um bico querendo retrucar.
— Acho que as coisas tem que ser conforme o tempo vai passando, do que adianta a gente partilhar momentos e dores se eu não sei se você vai permanecer aqui comigo? — seu medo do abandono era alto assustador, era como se ela tivesse o máximo apego ao que havia acabado de conhecer pelo simple medo da solidão. — Daqui a alguns dias você irá retornar para sua casa, seu trabalho e sua rotina, quando a mim… eu nem emprego tenho mais!
— Sabe que isso não é um problema, Émie. Eu já disse que irei dar uma pausa em minha vida, tenho uma criança que depende de mim e vou ter que saber lidar com ele me chamando de pai, ou pelo menos tentando. Quero você ao meu lado, quero proteger você dos perigos que lhe rodeiam. Mas antes quero pedir perdão por ter lhe deixado, perdão por não estar presente nos momentos mais obscuros da sua vida, se me permitir, eu farei de você a mulher mais feliz desse mundo, me permita viver ao seu lado e juntos vivenciar tudo aquilo que por orgulho ou burrice eu deixei passar.
— Desde quando aprendeu a usar palavras bonitas para conquistar um coração magoado? Eu… — era impossível pensar em qualquer outra coisa que não fosse beijá-la.
No exato momento em que tomei seu lábio, senti seu corpo arfar, a respiração dela ficar descompassada e seu corpo se entregar inteiramente à mim. Mil e dois pensamentos vagavam em minha mente, como se todos eles me mandassem beijá-la e nunca mais soltar. Pela primeira vez obedeci a eles, e como se a qualquer momento nossos corpos fossem se fundiram, pelo simples motivo de estamos mais juntos que nunca. Estávamos ali de corpo e alma, senti meu corpo flutuando mesmo que nem do chão estivesse saído, e quando as coisas poderiam avançar, a luz forte do farol do carro que vinha encadeou nossos olhos e nos fizeram nos soltar.
— Acho melhor a gente terminar isso em outro lugar, isso aqui não é nada arqueado… — seu sorriso fez meus sentidos despertarem e a esperança renascer outra vez..
“Betsy, me perdoe por não ir pela manhã. Há coisas que eu preciso resolver antes de qualquer coisa, preciso que Zenith tenha Émie ao lado dele, nem que seja como amiga ou visitante, só ela pode me ensinar sobre o amor.” — enviei uma mensagem rápida antes de partir.
(...)
Seu corpo marcado pela violência que sofria dos seus pais era doloroso de se ver. Ela tentava ser forte o tempo todo, mas aquilo me feriu intensamente. Enquanto lavava o seu cabelo, ela relaxava e por um instante ela não se deu conta de que estava totalmente nua e que eu poderia ver todas as suas curvas, sinais e cicatrizes. Com cautela e cuidado ensaboei sua cintura, e quando toquei no meio das suas costas ela deu um leve salto para frente, andando um passo e parando em frente ao box, ainda de costas para mim.
— Ainda dói? — coloquei novamente minha mão em cima do que se assemelhava a cicatrizes de riscos de faca, queimaduras e afins… embora ela estivesse escondendo o rosto, eu sabia que ela estava chorando nesse momento. — A dor às vezes pode ser invisível para algumas pessoas, mas eu sinto a sua. — me abracei ao seu corpo, beijando seu ombro e tentando lhe mostrar que ela não estaria mais sozinha, nunca mais. — Feliz Natal, meu amor.
— Você ainda não me enxaguou! — sorri sem jeito, a segurei em meu colo e dentro da banheira nos acomodamos, com ela encostada em meu peito enquanto bebíamos um vinho branco. — Feliz Natal! — seu tom de voz mudou e ela parecia feliz em me desejar felicitações. — Não sei muito bem como fazer isso, mas espero que eu faça parte de muitos natais seus e de Zenith.
— Isso só vai depender se você ainda continuar me querendo com o passar do tempo. — naquele momento senti o prazer da vida, estava feliz e não queria mais nada. Émie tinha sobre mim o poder da paz, tranquilidade e sempre que eu olhava pra ela, me perguntava o porquê de tanta ingratidão minha, quando ela agradece a tudo mesmo tendo a vida que levava até poucos dias atrás.
Emília era amiga da minha mãe, embora as duas tivessem gostos muito diferentes, havia alguma coisa grande que ainda as unia. Como sua biblioteca estava à venda, esse era um dos presentes ao qual estava incluído na lista para Émie. Ali poderia ser seu passatempo, já que uma de suas paixões é a literatura. Betsy havia respondido com um áudio, mas sob hipótese alguma eu iria ouvir ou responder alguma coisa por ora. Ela estava caindo no sono, ali mesmo encostada no meu corpo, com a taça vazia em sua mão. — realmente, você precisa me achar novamente. Eu precisava me reencontrar e você está fazendo isso por mim — ela não ouviu, mas sorriu e levantou sonolenta, me estendendo a mão ela parecia cansada.
— Amanhã eu quero que seja um dia especial, quero te levar a um lugar que eu espero que goste. Posso te levar no colo?
— Se isso não for muito abuso, eu deixo.
Após tê-la colocado na cama, fui tomar um banho e tentar relaxar um pouco, tentando afastar os pensamentos intrusos que invadiam a minha mente em relação a Émie, mas jamais lhe forçaria nada, meu desejo era apenas amá-la.