Capítulo VII - Parte 1

2961 Palavras
Rebekah acordou com a cabeça latejando, como se alguém estivesse martelando seu crânio por dentro, no ritmo exato da própria pulsação. Cada batida do coração parecia ecoar nos ouvidos. Abriu os olhos lentamente, sentindo os cílios grudados de maquiagem antiga e arrependimentos recentes. A luz do dia atravessava as cortinas com crueldade, invadindo o quarto como um castigo divino. — Nunca mais beber. Nunca. Mais. — murmurou para o teto, com a voz rouca e dramática. Tentou virar o rosto para o lado, mas o movimento fez o quarto girar perigosamente. — Ótimo. Estou oficialmente em modo sobrevivência. Passou a língua pelos lábios ressecados. Sentia gosto de álcool, energético e decisões ruins. Fechou os olhos novamente, tentando puxar qualquer lembrança concreta da noite anterior. Música alta. Risadas. Piscina iluminada. Joey dançando de um jeito ridículo. Ray discutindo sobre alguma teoria conspiratória. Cher gritando que amava todo mundo. E Jonathan. Os olhos azuis. Muito perto. Ela abriu os olhos de novo. — Não. Ouviu vozes e gargalhadas vindas do andar de baixo. O som parecia amplificado dentro da sua cabeça, atravessando a dor como estilhaços. Altas demais. Insuportáveis demais. — Eles só podem estar fazendo isso de propósito — resmungou. — Não podem estar felizes às oito da manhã. Gemeu baixo e, com um esforço quase heroico, sentou-se na cama. O simples ato de se mover parecia uma maratona. Levantou-se devagar, apoiando-se na parede até o espelho. Passou a mão pelo rosto, tentando acordar de vez. Seu reflexo no espelho do closet confirmou o desastre: maquiagem borrada, cabelo desalinhado, expressão de quem havia feito escolhas duvidosas. Era a definição de caos. — Parabéns, Rebekah. Herdeira milionária, ressaca proletária. Você é adulta. Comece a agir como uma. Colocou os pés no chão frio e saiu do quarto, arrastando os pés, apoiando-se no corrimão enquanto descia as escadas. Cada degrau era uma provação. Ao chegar à sala, encontrou Jonathan e Cher sentados no sofá, rindo de algo que, naquela manhã, parecia o assunto mais irritante do planeta. — Por que vocês estão gritando? — reclamou, entrando na sala com os olhos semicerrados. Cher ergueu as sobrancelhas. — Estamos falando normalmente. — Isso é normal pra vocês? — Rebekah apontou para a própria cabeça. — Porque pra mim parece um trio elétrico dentro do crânio. Jonathan a olhou de cima a baixo. — Você está péssima. — Obrigada, isso ajuda muito. Ele riu. — Quer que eu minta? — Sim. Ela se jogou no sofá com um suspiro dramático. — Minha cabeça vai explodir… Eu sinto que estou pagando por todos os meus pecados. Parece que fiz algo de muito errado. — Além de beber como se não houvesse amanhã? — Cher provocou. Jonathan riu. — Você devia se ouvir ontem à noite. “Mais uma rodada!”, lembra? — Isso é detalhe. Jonathan cruzou os braços. — Você não fez nada absurdo. — Como você pode ter certeza? — Porque eu estava lá. — Justamente por isso eu estou preocupada. — Vou pegar um remédio antes que você comece a chorar por antecipação. — Cher disse, levantando-se. — E água. Muita água. — Traz um milagre junto — Bekah murmurou, enterrando o rosto nas almofadas. — E eu não choro por antecipação. — Você chora por tudo — Jonathan completou. Ela pegou uma almofada e jogou nele. — Eu odeio vocês dois. — Não odeia não — ele respondeu, segurando a almofada. — Você precisa da gente. — Isso é o que mais me preocupa. Jonathan a observou por alguns segundos, divertido. — Drama demais pra quem dançou em cima da mesa. Ela ergueu o rosto de imediato. — Eu não fiz isso. Ele abriu um sorriso lento. — Fez. — Jonathan! — Estou brincando — ele disse, levantando as mãos em rendição. — Relaxa. — Não fala “relaxa” pra alguém de ressaca. É desumano. Cher voltou com água e o comprimido. — Toma, para de drama e agradece depois. Bekah engoliu com dificuldade. — Estou com vergonha de ontem — murmurou, a voz abafada contra o sofá. — Muita vergonha. Jonathan inclinou a cabeça. — Você não fez nada que já não tenha feito antes. — Isso não é reconfortante. — Estou tentando ser honesto. Ela virou o rosto, encarando o teto como se procurasse respostas escritas ali. — Eu me comportei de forma h******l. Só de pensar me dá enjoo. Jonathan riu de leve. — Para de rir! — Bekah jogou uma almofada nele. — Estou falando sério. Foi deplorável. Ele franziu o cenho. — De qual parte você está falando? — De tudo! — respondeu rápido demais, quase defensiva. — E você não pode contar pra ninguém sobre ontem. Jonathan piscou, confuso. — Contar o quê exatamente? — Nada! — ela corrigiu, rápido demais outra vez. — Quero dizer… só não comenta nada. — Bekah, você está agindo como se tivesse cometido um crime. Ela encarou o teto. — E se eu tiver? Nesse momento, a porta da frente se abriu com um estrondo. — Olha só quem decidiu viver — Ray falou, entrando com um sorriso debochado e óculos escuros. — Achei que tinha morrido lá em cima. — Se eu tivesse morrido, pelo menos estaria em paz — Bekah respondeu, dramática. — Ela está sensível hoje — Cher comentou. — Sensível? — Bekah arregalou os olhos. — Eu estou traumatizada. — Você sempre exagera — Ray jogou-se na poltrona. — Foi só uma festa. — “Só uma festa” — ela repetiu, irritada. — Você não entende. Eu quero silêncio — ela apontou para ele. — Então você escolheu a casa errada. Ray jogou-se na poltrona. Jonathan observava cada reação dela com atenção silenciosa. — Como chegamos em casa ontem? — Rebekah perguntou, sentando-se melhor. — Não faço ideia — Cher deu de ombros. — Eu apaguei no carro. Jonathan respondeu: — Joey dirigiu. Era o único sóbrio. — Joey — Bekah se levantou de um pulo, ignorando a tontura. — Preciso falar com ele. Subiu as escadas quase tropeçando. No quarto, ela pegou o celular na mesa de cabeceira e caiu na cama, respirando fundo antes de ligar. — Olá, sunshine — Joey atendeu animado. Ela sorriu involuntariamente. — Você me deixou viva? — Milagre, né? — Onde você está? — Em casa. Pessoas normais têm casa, Bex. Ao contrário do que você pensa... Ela riu, apesar da dor. — Engraçadinho. Ela respirou fundo. — Você lembra de tudo ontem? — Lembro o suficiente. Ela fez uma pausa. — Tipo… tudo? — Está sondando alguma coisa específica? — Não. Só curiosidade. Ele riu. — Você ficou muito animada. Mas nada fora do padrão Bekah de qualidade duvidosa. — Joey! Você deixou todo mundo aqui? — Sim. Eles reclamaram que estava tarde. E você estava… muito feliz. — O que isso significa? — Significa que você não queria ir embora. Ela fez uma pausa. — Quer que eu vá aí? Ela olhou pela janela. O dia estava absurdamente bonito. — Vem. Vamos fazer uma pool party. — Finalmente uma ideia decente. — Traz bebida? — Você acabou de acordar de ressaca. — E daí? Eu me recupero melhor na água. — Só se você prometer não repetir o espetáculo de ontem. — Joey! Ele riu. — Relaxa. Estou brincando. Te vejo em uma hora, morena. Ela desligou sorrindo, mas o sorriso morreu quando seus olhos caíram sobre roupas jogadas no chão. Roupas masculinas. Roupas que ela lembrava perfeitamente de Jonathan estar usando. O coração falhou uma batida. — O quê…? Levantou-se devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse confirmar um pesadelo. Pegou a camisa do chão. Era mesmo dele. O cheiro ainda estava ali. Flashes vieram como pancadas: risadas muito próximas, a mão dele segurando sua cintura, os olhos azuis intensos demais, um beijo que não parecia acidental… a porta se fechando. — Não… não… d***a! Desceu as escadas rápido demais. — Aconteceu alguma coisa? — Jonathan perguntou, percebendo a expressão dela. — Você está branca — Ray comentou. — Parece prestes a vomitar. — Parece nervosa… — Cher disse. — Joey está vindo. Vamos fazer uma festa na piscina. — Respondeu rapidamente. — Agora? — Cher arregalou os olhos. — Eu nem tenho roupa aqui. — Pega no meu quarto. — Sim. Agora. Vai ser ótimo. — Você é maluca — Ray riu. — Mas eu apoio. — Você está surtando — Jonathan disse baixo. Ela o encarou por um segundo longo demais. — Eu não estou nervosa. Ele sustentou o olhar. — Não falei que estava. O silêncio entre eles ficou pesado. Ray quebrou o clima. — Vou buscar bebida. — Vai logo antes que eu mude de ideia — Bekah respondeu. Enquanto o caos se espalhava pela casa, Bekah subiu novamente com Cher. O quarto parecia ainda mais suspeito sob a luz do dia. Cher parou no meio do cômodo. — Sua casa é ridiculamente grande. — Cresci aqui — Bekah respondeu, abrindo gavetas. — Entre mármore e ausência parental. Bekah riu sem humor. — Você fala disso com tanta naturalidade. — Porque é normal pra mim. Estava acostumada ao luxo. Cresceu ali, entre corredores largos demais e silêncios ainda maiores. Entre empregados que preenchiam os vazios e pais que raramente estavam presentes ao mesmo tempo. Vinha de uma família que mantinha empresas na Inglaterra e também no exterior. Seu pai administrava a maioria, mas depois que ele morreu sua mãe assumiu o seu lugar. A casa ficou ainda maior depois disso. — Às vezes eu esqueço que você é praticamente herdeira de um império — Cher comentou, mexendo nas cortinas. — Império vazio — Bekah respondeu, abrindo a gaveta de biquínis. — Não é tão glamouroso quanto parece. Entregou um biquíni a Cher e começou a procurar o seu. — Angelita sempre compra demais — comentou distraída. — Ela trabalha aqui há muito tempo? — Desde que eu era pequena. Ela que me levava na escola quando minha mãe não estava em Londres. Cher entrou no banheiro para se trocar. Bekah ficou parada, olhando novamente para a camisa no chão. Pegou-a e jogou dentro do cesto de roupas como se quisesse apagar qualquer evidência. — Você lembra de algo? — Cher perguntou de dentro do banheiro. — Não. — Nada mesmo? — Só flashes. — Bons ou ruins? — Intensos. E isso é pior. Quando Cher saiu do banheiro, sorria maliciosa. — Depois de ontem, não tem como ele não se render mais ainda. Bekah gelou. O coração dela disparou. — O quê? — Você não lembra? Vocês estavam se beijando… depois sumiram. — Sumimos pra onde? — Não faço ideia. Você voltou horas depois dizendo que precisava ir embora. Quando chegamos, subiu com o Jonathan. A porta estava trancada. O ar pareceu rarear. — Trancada? — Sim. — Que porta? — A do seu quarto, ué. Bekah caiu sentada na cama. — Acho que fiz algo muito e******o. — Tipo? Ela respirou fundo. — Tenho flashes… e nesses flashes eu fiz s**o com alguém. Cher arregalou os olhos. — E você acha que foi…? — Jonathan. — NÃO ACREDITO. — Para! — Bekah jogou um travesseiro nela. — Não grita! — Isso muda tudo! — Eu sei! — E foi bom pelo menos? — Eu não sei! — Bekah! Você sente que foi? Ela passou as mãos pelo rosto, respirando fundo. — Eu acordei me sentindo… diferente. — Diferente como? — Como se eu tivesse cruzado uma linha. Cher cruzou os braços. — Ok. Vamos organizar isso. Você gosta dele. — Eu não disse isso. — Não precisa dizer. Está na sua cara há meses. — Isso não significa que eu queria… — ela parou. — Que queria t*****r com ele? — Cher! — Estou sendo prática. — Esse não é o problema. — Então qual é? Ela engoliu seco. — E se eu quis? E se eu realmente quis e agora estou fingindo que não? Cher ficou em silêncio. — Hoje eu disse pra ele esquecer tudo — Bekah continuou. — Falei que me dava vontade de vomitar. — Você disse isso pra ele? — Disse. — Bekah! — Eu estava em pânico! — Você é um desastre emocional. — Obrigada pelo apoio. — Estou sendo sincera. Mas chama ele. Conversa. Bekah… joga verde. Diz que não lembra de nada. — Se foi ele, ele nunca vai contar. — Por quê? — Porque ele é o Jonathan. Cher inclinou a cabeça. — E o que isso significa exatamente? — Significa que ele me conhece demais. Se eu realmente não lembrasse, ele saberia. E se eu lembrasse e estivesse fingindo, ele também saberia. — Então você está com medo. — Estou com medo de ter cruzado uma linha que não tem volta. Ela fechou os olhos. — Ou de ter gostado. O silêncio caiu entre elas. — Você precisa decidir o que é pior — Cher disse, mais suave. A voz de Ray ecoou lá de baixo. — A festa vai acontecer ou vocês vão filosofar o dia inteiro? Cher levantou e se aproximou de Bekah. — Faz o que eu disse. Depois vemos o estrago. Bekah permaneceu sentada na cama por mais alguns segundos depois que Cher saiu. O silêncio do quarto parecia pesado demais para caber dentro dela. O coração ainda batia rápido, não pela ressaca, mas pela dúvida. Ela respirou fundo. — Você não vai fugir disso — murmurou para si mesma. Levantou-se devagar, ajeitando o biquíni por baixo da camisa larga que vestia. Passou os dedos pelos cabelos, tentando dar um mínimo de dignidade à própria aparência. Olhou-se no espelho mais uma vez. Externamente: impecável. Internamente: caos absoluto. Desceu as escadas ouvindo barulho de música começando a tocar lá embaixo. Ray já tinha conectado o celular na caixa de som, obviamente escolhendo algo alto demais para o horário. — Isso não é cedo demais pra esse volume? — ela perguntou ao aparecer na sala. — Nunca é cedo demais pra música boa — Ray respondeu, girando a garrafa que tinha acabado de trazer. Cher surgiu logo atrás dela. — Ele já abriu três latas e nem são dez da manhã. — Eu estou em modo recuperação — Ray respondeu sério. A campainha tocou. Bekah sentiu o estômago dar um pequeno salto. Jonathan, que estava encostado na parede mexendo no celular, ergueu o olhar discretamente para ela. Por um segundo rápido demais, os olhos dos dois se encontraram. Tensão. Curiosidade. Algo não dito. Ray correu até a porta. — Finalmente! A porta se abriu revelando Joey com óculos escuros, sorriso fácil e uma sacola cheia de bebidas pendurada no ombro. — Trouxe reforço! — ele anunciou. — Você é oficialmente meu favorito — Ray disse, puxando a sacola. Joey entrou, espalhando energia pela sala como se fosse contagioso. Ele abriu os braços dramaticamente ao ver Bekah. — Olha ela! Viva, de pé e aparentemente arrependida. — Eu não estou arrependida — ela respondeu, cruzando os braços. — Está com cara de quem fez promessa para o universo. — Eu fiz. Várias. Ele se aproximou e deu um beijo rápido na bochecha dela. — Você fica dramática depois de beber. — Eu fico dramática sempre. — Justo. Cher apareceu ao lado deles. — Vamos pra piscina antes que o sol resolva nos abandonar por falta de paciência. — É disso que eu gosto — Joey disse animado. — Energia caótica logo cedo. Jonathan passou por eles com uma toalha no ombro. — Só não esqueçam que temos vizinhos. — Eles sobrevivem — Ray respondeu. A porta de vidro que dava para a área externa foi aberta, deixando entrar o calor do dia e o cheiro leve de cloro. A piscina brilhava sob o sol, perfeita demais para combinar com o turbilhão interno de Bekah. Joey já estava tirando a camiseta. — Quem pula primeiro? — Não! — Cher gritou rindo. — A água está gelada! Ray foi empurrado antes que pudesse reagir. O barulho do mergulho arrancou gargalhadas gerais. — Traição! — ele gritou da água. Joey olhou para Bekah com aquele sorriso de desafio. — E você, morena? Vai ficar só organizando festa ou vai viver? Ela hesitou por um segundo. Então sorriu. — Eu sempre vivo. Tirou a camisa larga, revelando o biquíni, e caminhou até a borda da piscina. O sol aquecia a pele, a música vibrava no fundo, os amigos riam alto demais. Ela mergulhou. A água fria a envolveu, arrancando um suspiro involuntário. Por alguns segundos, tudo ficou silencioso debaixo d’água. Sem vozes. Sem dúvidas. Sem flashes. Quando voltou à superfície, Joey espirrou água nela. — Bem-vinda oficialmente à recuperação! — Se você me afogar, eu volto pra te assombrar — ela respondeu. Jonathan entrou na piscina por último, descendo pela escada. A água subiu devagar pelo corpo dele. Ele não disse nada, mas o olhar encontrou o dela outra vez. E ficou ali por um segundo a mais do que deveria. Ray começou uma guerra de água. Cher gritou. Joey tentou organizar um jogo improvisado. — Time da direita contra time da esquerda! — ele anunciou. — Isso nem faz sentido! — Cher respondeu. — Faz sim! Eu explico no meio do caos! Risadas. Música mais alta. Garrafas sendo abertas. Externamente, era apenas mais um dia perfeito. Internamente, Bekah sentia a dúvida pulsar sob a pele como uma segunda batida do coração. Ela riu quando Joey a puxou para o meio da piscina. Ela empurrou Ray. Ela discutiu com Cher. Ela fingiu normalidade com perfeição. Mas quando seus olhos cruzavam com os de Jonathan, por breves segundos, tudo ficava em silêncio outra vez. E a pergunta continuava ali. O problema não era lembrar. Era descobrir se aquilo realmente tinha acontecido. E pior. Descobrir se, no fundo, uma parte dela não tinha desejado.
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