Finalizando a ligação, Rebekah permaneceu alguns segundos com o celular apoiado contra o peito, respirando fundo. O silêncio do quarto parecia mais suportável agora, como se as palavras ditas tivessem organizado minimamente o caos dentro dela. Ainda doía, ainda havia um peso estranho no estômago, mas ao menos não se sentia completamente à deriva.
Respirou fundo antes de desbloquear o telefone novamente. Sabia que precisava avisar Joey. Não porque lhe devesse explicações, mas porque ele fazia parte daquela noite, daquele plano que agora parecia frágil demais para se sustentar sozinho.
Abriu a conversa.
Rebekah:
Oi… sei que deve estar ocupado, mas quando puder ler.
A resposta não veio de imediato. Ela não se surpreendeu. Joey nunca foi de responder no segundo exato, mas sempre respondia.
Enquanto esperava, levantou-se e caminhou até o closet. Abriu as portas devagar, observando os vestidos pendurados como se cada um representasse uma versão diferente de si mesma. Havia opções claras demais, chamativas demais, delicadas demais. Nenhuma parecia certa.
O celular vibrou na cama.
Joey:
Tô aqui. Aconteceu alguma coisa?
Ela mordeu o lábio inferior antes de digitar.
Rebekah:
O caos, não é mesmo. Foi… pesado. Mas assim, não é sobre isso.
Jonathan chamou a gente para ir ao baile da faculdade, você topa?
A resposta demorou alguns segundos a mais dessa vez. Bekah imaginou Joey lendo, relendo, tentando decidir o tom certo.
Joey:
Claro que vamos.
Baile, garotas… Só vi vantagem.
Mas se você não quiser ir, a gente inventa outra coisa.
Ela sorriu de leve. Era exatamente isso. Nenhuma cobrança. Nenhuma expectativa imposta.
Rebekah:
Quero ir.
Só não prometo ser a melhor companhia do mundo.
Joey:
Relaxa.
Eu sou ótimo em carregar o clima sozinho.
Ela soltou um pequeno riso, quase imperceptível, mas real.
Rebekah:
Obrigada.
Sério.
Joey:
Sempre, Bex.
Levantou-se então para se arrumar. Abriu o closet devagar, observando os vestidos pendurados como se cada um carregasse uma versão diferente de si mesma. Queria algo que não fosse chamativo demais, mas também não queria desaparecer. Depois de alguns minutos, fez sua escolha.
Seda preta. Alças finas. As costas cavadas até a metade deixavam a pele à mostra de forma elegante, e o colo aparecia na medida certa, sem esforço. A f***a discreta na perna direita trazia movimento ao tecido, um detalhe quase despretensioso. Era simples, mas marcante. Exatamente como ela precisava se sentir naquela noite.
Separou o salto preto, alto o suficiente para alongar a postura, confortável o bastante para não virar um castigo, e a bolsa pequena, apenas o essencial: celular, documentos, batom. Nada a mais.
Enquanto se maquiava, manteve o visual sóbrio: pele bem feita, olhos levemente marcados, boca em um tom neutro. Prendeu o cabelo de forma que caísse solto, enquadrando o rosto. Quando terminou, encarou o próprio reflexo por alguns segundos.
Não estava tentando provar nada para ninguém. Mas também não queria parecer frágil.
O celular vibrou novamente.
Joey:
Passo aí às 19h em ponto.
Prometo não buzinar.
Rebekah:
Milagre.
Te espero.
Às dezenove horas em ponto, a campainha tocou.
Joey.
O caminho até o carro foi rápido. Joseph havia pegado o carro do pai emprestado, e Rebekah percebeu de imediato o cuidado silencioso dele. Ele não fez perguntas. Não tentou puxar conversa. Apenas ligou o motor e seguiu o trajeto com atenção. Ela agradeceu mentalmente por isso. Não tinha energia para explicar nada.
A cidade passava pelas janelas como um borrão de luzes e sombras. Bekah observava distraída, perdida em pensamentos que se atropelavam. O silêncio entre eles não era desconfortável, era respeitoso.
Ao chegarem à faculdade, Bekah avisou Jonathan por mensagem. Não demorou muito para vê-lo se aproximando do estacionamento.
— Ei… — ele disse, sorrindo ao vê-la. — Uau. Você está linda.
Havia algo sincero na forma como ele falou, sem exageros, sem segundas intenções aparentes. Jonathan a abraçou com carinho, um abraço seguro, conhecido. Depois cumprimentou Joey com um toque de mãos rápido, quase automático.
— Vamos entrar — ele sugeriu.
Enquanto caminhavam, Bekah notou como Jonathan ficava bem de smoking. O tecido escuro contrastava com a pele clara, e a barba por fazer lhe dava um ar diferente, menos juvenil, mais intenso. Ela tentou afastar o pensamento imediatamente, lembrando-se da conversa estranha que tivera com Cher meses antes. Eles eram amigos. Apenas isso.
Ainda assim, os olhos azuis dele pareciam mais profundos sob a luz do lugar.
— Bekah! — Ray chamou, animado.
— Ray! — ela o abraçou com força. — Cher!
— Enxuga a babinha — Cher cochichou, rindo baixo. — Pensou no que conversamos?
— O quê? — Bekah a encarou, nervosa.
— Relaxa. Seu segredo está seguro comigo — Cher piscou, afastando-se antes que Bekah pudesse responder.
— Eu não vejo a hora de vir pra faculdade — Joey comentou, erguendo um copo que alguém lhe entregara. — Aqui até a bebida presta.
— E você não vai beber — Bekah tirou o copo da mão dele com naturalidade. — Está dirigindo.
— Estraga-prazeres… — ele resmungou, antes de se afastar em direção a duas garotas que sorriam para ele.
— Esse Joseph não muda — Ray comentou, rindo.
A música mudou para algo mais animado, o grave vibrando no chão. Ray puxava Cher para a pista com empolgação, girando-a sem qualquer coordenação, arrancando risadas de quem estava por perto.
— Vem, Bekah — Joey apareceu ao lado dela, segurando sua mão antes que ela pudesse recusar. — Não aceito não como resposta hoje.
— Joey, eu não tô no clima — ela reclamou, mas deixou-se puxar.
— Mentira. Você só tá fingindo costume — ele respondeu, já a levando para o meio da pista. — Além disso, essa música exige talento.
— E você tem talento desde quando? — ela arqueou a sobrancelha.
— Desde sempre. Só não foi reconhecido ainda.
Ele começou a dançar de um jeito completamente exagerado, sem ritmo algum, misturando passos aleatórios, girando os ombros e fazendo caretas. Bekah tentou manter a pose por alguns segundos… falhou miseravelmente.
— Para! — ela riu, empurrando-o de leve. — As pessoas estão olhando.
— Ótimo. — Joey abriu os braços. — Finalmente meu momento de fama.
— Você é impossível.
— E mesmo assim você tá sorrindo — ele provocou, inclinando-se para falar perto do ouvido dela. — Missão cumprida.
Bekah respirou fundo, deixando o corpo acompanhar a música. Pela primeira vez naquela noite, sentiu os ombros relaxarem. Não pensava em Julian. Não pensava em consequências. Só dançava.
— Promete que, se eu começar a fazer besteira hoje, você me tira daqui?
— Prometo — Joey respondeu sem hesitar. — Mesmo que você brigue comigo depois.
— Eu nunca brigo com você.
— Ainda bem — ele sorriu. — Eu não saberia lidar.
A música mudou novamente, mais animada, e Ray apareceu ao lado deles, puxando Bekah pela outra mão.
— Agora é minha vez! — ele anunciou. — Antes que o Joey estrague mais ainda.
— Ei! — Joey protestou. — Isso aqui é arte!
Ray riu e começou a dançar com Bekah, girando-a com cuidado.
— Você está bem? — ele perguntou, mais sério, inclinando-se para ouvi-la melhor.
— Tô tentando ficar — ela respondeu com sinceridade.
— Então já tá no caminho certo.
Bekah sorriu, rodando com ele, sentindo o vestido acompanhar o movimento. Pela primeira vez em horas, sentia-se leve. Inteira. Cercada de pessoas que a conheciam de verdade.
Uma música lenta começou a tocar. Jonathan apareceu ao lado de Rebekah e estendeu a mão. Ela hesitou por um instante, mas aceitou. Ele passou o braço pela cintura dela com cuidado; Bekah apoiou as mãos nos ombros dele.
Por um instante, o mundo pareceu diminuir.
As luzes, as pessoas ao redor, o som alto… tudo ficou distante. Havia algo confortável naquele contato, algo conhecido demais para ser ignorado. Jonathan sempre estivera ali. Sempre soubera o que dizer, quando se afastar, quando ficar.
Será que Cher estava certa?
Eles se conheciam desde sempre. Jonathan sabia seus medos, seus gostos, suas cicatrizes, as visíveis e as invisíveis. Talvez fosse fácil demais confundir conforto com sentimento. Talvez fosse perigoso demais.
— Obrigada — ela disse, mais baixo, quando a música diminuiu um pouco.
— Pelo quê?
— Por isso. — Ela fez um gesto vago com a mão. — Por não me deixar afundar.
Jonathan ficou sério por um segundo, raro nele.
— Você nunca se afunda sozinha, Bekah. Nem quando tenta.
Ela sorriu, sentindo algo quente no peito.
— Jhonny… — ela murmurou, sentindo a garganta apertar. — Eu amo você.
Não era a primeira vez que dizia aquelas palavras. Sempre fizeram parte da amizade deles. Mas, daquela vez, o peso era diferente.
Jonathan engoliu em seco.
— Eu… eu amo você também, Bekah.
A música, as luzes baixas, o cansaço emocional… tudo conspirava. Jonathan se aproximou devagar, sem pressa, dando espaço para que ela recuasse se quisesse. Rebekah não o fez.
O beijo aconteceu suave, cuidadoso, carregado de sentimentos antigos, de possibilidades nunca exploradas.
E foi isso que a assustou.
A realidade bateu forte, como um choque de água fria. Bekah se afastou abruptamente, o coração acelerado demais.
— Jonathan… — respirou fundo. — Nós somos amigos. Eu não quero estragar isso.
Ele assentiu, visivelmente abalado, mas respeitoso.
— Me desculpa — disse, antes de se afastar.
Bekah ficou parada por alguns segundos, sentindo o peso da decisão se acomodar no peito. Cher se aproximou pouco depois.
— O que houve?
— Estou confusa — Bekah passou as mãos pelo rosto. — Preciso beber.
As horas seguintes passaram rápido demais. O álcool deixou tudo mais leve, mais borrado. Jonathan havia sumido em algum ponto da noite. Cher dançava com Ray, rindo alto. Joey… bem, Joey estava sendo Joey, circulando, conversando, sempre atento de longe.
Rebekah se deixou levar pela música, pelo calor do ambiente, pela necessidade desesperada de esquecer. O corpo se movia quase no automático quando sentiu mãos firmes em sua cintura.
Virou-se.
Olhos azuis. Um sorriso confiante, desconhecido o suficiente para não carregar passado algum.
— Olá — ele disse, próximo demais.
— Olá — ela respondeu, sentindo o coração acelerar.
A conversa foi breve, superficial, como se nenhum dos dois realmente se importasse com palavras. O beijo veio intenso, urgente, abafando pensamentos, inclusive o rosto de Jonathan, que insistia em surgir em sua mente.
— Quer ir para um lugar mais tranquilo? — o garoto sugeriu, baixo.
Ela hesitou por um segundo. Sabia que se arrependeria depois. Sabia que aquilo não resolveria nada. Mas, naquele momento, tudo o que queria era não sentir.
Concordou.
O estacionamento estava quase vazio. O carro foi destrancado, a porta foi aberta para ela. Rebekah ainda tentou argumentar, mas sua voz soou distante até para si mesma.
— Não vai demorar — ele disse.
A porta se fechou.
O resto ficou envolto em confusão, desejo e escolhas feitas no impulso.
E Rebekah sabia, no fundo, que aquele momento teria consequências.