Capítulo VI - Parte 1

1959 Palavras
Rebekah acordou com o quarto silencioso demais. Não era um silêncio comum, desses que acompanham as manhãs preguiçosas ou os domingos vazios. Era um silêncio pesado, denso, como se algo estivesse faltando e não apenas alguém, mas uma presença inteira que havia deixado o espaço durante a noite, levando consigo o calor, o som da respiração, o peso de outro corpo ao lado do seu. O ar parecia parado, pesado, e por alguns segundos ela ficou imóvel, encarando o teto, tentando entender por que aquela ausência parecia tão gritante. Virou-se na cama ainda meio sonolenta, estendendo a mão por instinto. Seus dedos tocaram apenas o vazio frio do colchão. Nenhum braço, nenhum movimento, nenhum murmúrio sonolento em resposta. Julian não estava ali. O coração deu um salto desconfortável, um pulo rápido demais para ser ignorado. Rebekah puxou o ar para os pulmões, tentando controlar a sensação súbita de alerta que tomou conta do corpo. Talvez tivesse saído cedo. Talvez tivesse acordado antes dela e decidido ir embora sem fazer barulho. Julian sempre parecera alguém que gostava de controlar o tempo, as entradas e as saídas, as versões da própria história. Sentou-se devagar, passando a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos. Não queria começar o dia criando teorias. Não queria admitir o incômodo que crescia dentro do peito. Foi então que seus olhos caíram sobre o relógio na mesa de cabeceira. Atrasada. O pânico veio rápido. Bekah levantou num pulo, o lençol escorregando de seu corpo enquanto ela corria pelo quarto recolhendo roupas, escovando os dentes às pressas, prendendo o cabelo de qualquer jeito. O reflexo no espelho parecia distante, como se ela estivesse se observando de fora. A noite anterior ainda estava embaralhada na mente, fragmentada em imagens desconexas que ela não teve tempo de organizar. Desceu as escadas quase tropeçando, o coração acelerado, encontrando Angelita ajeitando a sala com a calma habitual de quem parecia sempre saber exatamente onde cada coisa deveria estar. — Menina Bekah, não vai comer? — Angelita perguntou, ao vê-la passar apressada. — Não dá tempo! — respondeu já abrindo a porta, mas parou com a mão na maçaneta. A curiosidade foi mais forte. — Angelita… alguém esteve aqui hoje? Angelita franziu a testa, confusa. — Como assim, “alguém”? — Pensei ter escutado uma voz diferente… — Rebekah explicou, tentando soar casual. — As mesmas pessoas de sempre, Bekah — respondeu com tranquilidade. — Devo ter sonhado, então. Beijo. Saiu apressada, tentando se convencer de que Julian apenas fora discreto. Talvez não quisesse acordá-la. Talvez tivesse achado melhor ir embora cedo. Era nisso que ela escolhia acreditar, mesmo sentindo aquela pontada incômoda insistir no fundo do peito. O caminho até a escola pareceu curto demais. Rebekah apressava o motorista a cada poucos segundos, a mente inquieta, o estômago embrulhado. Pensava na noite anterior, em fragmentos soltos, tentando decidir se estava arrependida ou apenas confusa. Ao chegar, correu até o armário para conferir o horário, jogando os livros para dentro sem muita organização. — Ei, Bex! Ela se assustou, o coração pulando outra vez. — Joey… Oi. — Procurei você ontem. Não te achei. Para onde foi? — perguntou, encostando-se ao armário ao lado do dela. — Pra casa — respondeu, evitando detalhes. — Ia me despedir, mas você parecia ocupado. Eu te enviei uma mensagem. O sorriso dele foi imediato. Sacana. Aquela expressão de quem sabia que tinha sido pego no meio de alguma coisa interessante demais para notar o resto do mundo. — Estamos atrasados — ele disse, fechando o armário com força. — Aula de quê? — Cálculo. E você? — Finalmente! Cálculo! — comemorou, como se aquilo fosse motivo de festa. Rebekah não conteve o sorriso. A naturalidade de Joey era quase um alívio. A aula se arrastou. Joey fazia comentários aleatórios, piadas baixas, observações completamente fora de contexto. Bekah ria, grata pela distração, pelo som familiar da voz dele. Era fácil esquecer, por alguns minutos, a inquietação que ainda se espalhava dentro dela. Já na aula de francês, sozinha, o desconforto voltou com força. Rebekah checou o celular diversas vezes. Nenhuma resposta. Nenhuma visualização. Julian não respondia às mensagens. No intervalo, percebeu cochichos espalhados pela escola. Grupos que se calavam quando ela passava. Olhares longos demais. Risadinhas abafadas. Tentou ignorar. Era comum depois de festas. As pessoas sempre falavam demais. No refeitório, pegou um suco de framboesa e procurou Joey com os olhos. Ele estava com alguns jogadores do time de futebol, rindo alto, completamente à vontade. Rebekah pensou em ir embora, procurar um lugar vazio, até ouvir o assovio irritante que chamou a atenção de todos. — Onde a senhorita pensa que vai? — Joey se aproximou, atravessando o espaço entre eles. — Vem, vamos sentar. — Lá com eles? — ela arregalou os olhos. — Claro que não. Tem outra mesa. Passaram pela mesa do time. — Ei, Rebekah — um dos garotos chamou, rindo. — Pode me mostrar umas posições? As risadas ecoaram alto demais, cruéis demais. — Como é que é? — Joey parou. — Eu mandei parar com isso! — ele empurrou o garoto, sem medir força. — Vai defender ela? — o outro avançou. — Tá fodendo ela também? O soco veio antes que Rebekah pudesse reagir. — Nunca mais fala dela assim — Joey rosnou. — Nunca. Melhor eu nem ver você perto dela, ou vai se ver comigo, entendeu? — Vai se arrepender disso, King! Joey saiu puxando Bekah pelo braço, levando-a para longe. — Joey, para! — ela se soltou no corredor. — O que tá acontecendo? Ele respirou fundo, passando a mão pelo cabelo. — Eles sabem. Todo mundo sabe. Sobre você e o Julian… ontem. O chão pareceu ceder sob os pés dela. — Como assim sabem? — Quem estava lá? — Eu e ele. — Você contou? — Não! — a voz falhou. — Por que eu contaria? O olhar dele respondeu antes das palavras. O mundo de Bekah girou. Julian contou. Ele quis que soubessem. — Ele contou, Bex. — Não… — a voz falhou. — Ele não faria isso. — Eu queria estar errado. — Joey lamentou. O silêncio entre eles pesou. — Desculpa, Bex… não queria que você descobrisse assim. O estômago embrulhou. Não era só humilhação. Era traição. Confiança quebrada. Tudo aquilo que ela demorou tanto a reconstruir dentro de si, a autoestima, o corpo, a coragem de se abrir, parecia desmoronar em segundos. Os olhos dela se encheram de lágrimas. — Eu não contei pra ninguém. — Eu sei. — Ele respirou fundo. — Mas ele quis que soubessem. — Por quê? — Porque pra ele isso é jogo. Status. Ego. Bekah sentiu o estômago embrulhar. — Eu me sinto tão burra… — Não fala isso — Joey disse firme. — Confiar não é burrice. Trair é. Ela respirou fundo, tentando não chorar ali. — Obrigada por me defender. — Eu faria isso mil vezes — respondeu. — Mesmo que me custasse muito mais. Ela assentiu, tocada. — Joey… se eu for embora agora… — Eu vou com você. — Não. — Ela balançou a cabeça. — Preciso resolver isso. Ele hesitou, depois assentiu. — Eu tô aqui. Sempre. Sem dizer mais nada, saiu andando. Encontrou Julian atrás da escola. Ele beijava Maya. O ar faltou, mas ela respirou fundo. — Seu b****a. Por que fez isso comigo? Eles se afastaram. — Você acreditou mesmo que ele gostava de você? — Maya riu. — Olha nos meus olhos e fala a verdade — Rebekah pediu, a voz firme apesar das lágrimas. Havia ainda um fio de esperança. — Era um jogo — Julian respondeu, indiferente. — E eu odeio perder. Algo se quebrou de vez. — Pode voltar e se lamentar com seu novo amiguinho. — Maya fez beicinho, mas logo riu. — Thomas sabe disso? — Bekah perguntou, limpando o rosto. — Ele nem mora mais aqui — Maya deu de ombros. — E eu gosto de aproveitar o momento. Rebekah saiu sem olhar para trás. Em casa, trancou-se no quarto e desabou. Chorou até o corpo doer, até a cabeça latejar, até não restar nada além de cansaço. Horas depois, o celular tocou. — Oi, JJ… — O que aconteceu? — a preocupação era evidente. — Foi o Julian. Você estava certo. — Eu sabia… — a voz dele falhou. — Ele te machucou? — Não fisicamente. — Se eu estivesse aí… — Sem violência — Cher interrompeu. — Deixa eu falar com ela. Escuta, Bekah, essas quedas machucam, mas ensinam. — Bela ajuda. — Escutou a voz de Jonathan. Bekah riu fraco. — Obrigada… eu acho. JJ… — ela respirou fundo. — Eu só precisava ouvir sua voz. Houve silêncio. — Você quer que eu vá até aí? — Não. — Ela sorriu fraco. — Mas obrigada por perguntar. — Você não fez nada de errado. — Eu sei… mas dói. — Dói agora — Cher interrompeu. — Mas passa. — Fica quieta. — Rebekah riu, escutando a voz de Raymond. — Hoje é o Homecoming — Jonathan comentou. — Ia te chamar… — Eu vou — decidiu. — Não vou deixar ele me destruir. — Você pode trazer alguém, se quiser. — Sugeriu. — Posso levar o Joey? Assim não preciso me preocupar com a volta. — Claro, antes ele que o outro. — O desdém era nítido na voz de Jonathan. — Bom, vou me arrumar então. Obrigada, Jhonny. — O garoto sorriu ao ouvir Bekah chamá-lo pelo apelido de infância. — Por nada, Caneca. — Bekah gargalhou ao ouvir seu apelido. Rebekah sempre foi grata pelas amizades que tinha. Jonathan e Raymond sempre estiveram lá. Conheceram-se ainda crianças, cresceram juntos, dividiram dores, risadas e silêncios. Sorriu ao lembrar da infância, dos dias simples, quando o mundo ainda não parecia tão c***l. — Nos vemos mais tarde — disse, encerrando a ligação. Rebekah e Jonathan eram inseparáveis. Conheceram-se quando eram bem pequenos, Jonathan morava duas casas depois da sua e sempre que Angelita levava Bekah ao parque, ele estava lá com sua mãe. Na escola, em algumas aulas Bekah era um pouco avançada e coincidiu de ficar na mesma turma que ele. — Eu vou te chamar de Jhonny. — Ela estava radiante por ter inventado o novo apelido. — Mas do que irei te chamar? — Jonathan pensava em algo legal para a amiga. — As pessoas me chamam de Bekah. — Bekah, Bekah... Prefiro Caneca. Quando estavam com dez anos, Raymond se mudou para a casa que havia entre a deles. Logo os três se tornaram inseparáveis. Nos momentos difíceis para Rebekah, os dois sempre estiveram lá por ela. A amizade dos amigos era capaz de ajudá-la a esquecer a ausência da mãe e a falta que sentia do seu pai. Sorriu ao se lembrar dos bons tempos de infância, onde não havia pessoas tão ruins na sua vida. Ela ficou alguns minutos sentada na cama, abraçando as próprias pernas, deixando o silêncio da casa se acomodar ao redor. O choro havia cessado, mas os olhos ainda ardiam. Rebekah respirou fundo e, sem perceber, um sorriso pequeno surgiu em seus lábios. Pensou em Joey. No jeito desengonçado de dançar, nas piadas fora de hora, na forma quase instintiva com que ele se colocou à frente dela sem pensar nas consequências. Pensou em Jonathan, em Raymond, nos apelidos bobos da infância, nas tardes em que tudo parecia simples demais para machucar. Havia pessoas que não precisavam prometer nada. Elas apenas ficavam. Bekah passou a mão pelo rosto, sentindo o coração um pouco menos pesado. Talvez o amor tivesse falhado. Talvez tivesse confiado em quem não merecia. Mas a amizade… a amizade nunca a abandonara. Sorriu sozinha. Talvez estivesse machucada. Mas não estava sozinha.
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