KEYLA A pilha de fotos na minha frente parecia um altar do passado. Eu e o Eduardo, jovens, com sorrisos que não chegavam nos olhos. O casamento, com meu vestido apertando a barriga de grávida. As férias na praia, ele com uma cerveja na mão, eu tentando disfarçar a infelicidade. Cada foto era uma corrente me puxando pra um lugar que eu não queria mais voltar. Peguei o isqueiro, a mão tremendo. A primeira chama tocou no papel e começou a se espalhar, devorando nossa imagem. As lágrimas escorreram quentes pelo meu rosto, mas não era de saudade. Era de alívio. Era de luto por uma vida que nunca tinha sido realmente minha. Queimei tudo, uma por uma, até só sobrar um monte de cinzas pretas no fundo da pia. Era simbólico demais. Tava queimando minha prisão. Aí, a porta bateu. E

