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Amor Colateral

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Sinopse

Há meses que Isaac está apaixonado de Nathan — assim como há meses que Isaac lhe vem demonstrando isso. Mas é claro que ele não é correspondido por Nathan, que na verdade faz

de tudo para vê-lo sofrer, para fazê-lo sofrer por causa do seu amor.

Embora Isaac não soubesse que isso fosse de propósito pela parte de Nathan, Ítalo sabia. Sabia que Nathan era perverso. E, após tanto tempo vendo o irmão mais novo sofrer nas mãos dele, Ítalo decide fazer uma coisa que mudará drasticamente o rumo dessa paixão.

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Survival
Numa aula dessas qualquer — de uma quarta-feira de manhã, ou quem sabe numa quinta-feira à tarde —, Nathan estava conversando com Gabriel sobre Minecraft; afirmando que preferia o modo Sobrevivência do jogo, porque aquele-outro-modo-lá era muito apelão; Gabriel dizendo que não era ser apelão quando se joga sozinho; aí Nathan disse que ainda assim era ser apelão, porque se o lance do jogo era buscar coisas e morrer tentando consegui-las, a fim de construir coisas com as coisas que coisaram, e acabar caindo de metros e metros de altura tentando construir uma coisa grandona e desnecessária mas muito maneira, então... espera, do que Nathan estava falando mesmo? Ah sim! Que ainda assim era ser apelão! Porque a graça do jogo era essa: a de saber que a qualquer momento se pode perder. Enfim. Para encurtar a história — já que Isaac poderia facilmente fazer uma ata com tudo o que foi dito entre os dois —, em algum momento o assunto “qual a sua marca favorita de chocolate?” foi citado. A do Nathan, Ferrero Rocher; e a do Gabriel... bem, não importava; Isaac não prestou atenção nessa parte. Para encurtar ainda mais a história, no dia seguinte, do nada o armário de Nathan amanheceu com uma caixa de Ferrero Rocher dentro de si — e não só um bombonzinho, ou a p***a de uma daquelas embalagens que vem três Rocher's solitários e que ainda assim custa o olho da cara. Era uma caixa impecavelmente enfeitada. Em um post-it anexado ao lado de uma fitinha azul, estava escrito: “Seu preferido, não é? :)”. Nathan olhou bem para aquela caixa de chocolates tentadores. Olhou bem para a fitinha cuidadosamente amarrada na parte de cima da caixa, do tipo que parecia ter dado trabalho para fazer. E também olhou bem para aquele bilhete escrito à mão. Suspirando fundo, encarou o fundo do armário com um meio sorriso estampado. Abriu a caixa sem muito zelo, com pressa; desfolhou e mascou o primeiro bombom. Estava mesmo delicioso. Nathan até fechou os olhos para aproveitar mais a deliciosa sensação que um Isaac sorridente (e observador) do outro lado do corredor provocara nele. Mas Nathan não havia engolido. Não, não. Em vez disso, abocanhou outro Ferrero, de um jeito que fazia suas bochechas estufadas parecerem bate-bags. Isaac já notara isso antes: ele enchia a boca antes de engolir algo; era engraçado e fofo, o jeito que ele fazia isso. Duas a três garfadas por vez no almoço, três a quatro pedaços de maçã antes de engolir, e vários nãos antes de um sim. Isaac sabia bem dos macetes quando se tratava de Nathan, só ao observá-lo (e a observação é quase que uma virtude, não?). Por isso, Isaac, que fingia pôr no próprio armário os livros de Física que não usaria no próximo tempo, sorriu ao ver o garoto amado novamente fechar os olhos, expirando pesado enquanto seu maxilar enrijecia e suas bochechas esvaziavam, mastigando os bombons e diluindo-os em saliva. Ainda sem engoli-los. Estava tão bom que Nathan estava preservando o momento ao máximo, pensou Isaac, que poderia passar horas admirando aquela cena. E então Nathan parou por um momento; a boca e o resto do rosto paralisados. Ele reabriu os olhos, fixando-os no fundo do seu armário quase vazio. Levou a embalagem aberta da caixa de Ferrero à altura do queixo e cuspiu aquela papa marrom com multigrãos em cima de todos os outros bombons intactos, fazendo aquilo tudo parecer uma torta com cobertura malfeita, m*l batida e, vai ver, até mesmo estragada. Em seguida, Nathan pegou os livros de Química 2 com a mão disponível, lá do fundo do armário, e a usou também para fechar sua portinha. Com a outra, jogou a caixa na lata de lixo mais próxima. Isaac observou-o passar por ele sem nem mesmo olhar para o seu lado. Embora Isaac não soubesse disso, Nathan sabia que fora Isaac — que não sabia que ele sabia, mas que sabia que gostava de Nathan, e sabia que sabia amar Nathan do jeito certo, embora Nathan não soubesse disso ainda, ou de qualquer outra coisa, porque se tratava de Isaac. Mas ele saberia dessa verdade sobre Isaac, um dia — e isso era um fato. Isaac: que chegara a falar com Nathan algumas vezes, por ter gerado uma amizade meio falsa e conveniente e de breve duração com o grupo Nathan-Bernardo-Heloisa-Caio-Felipe-Gabriel-e-companhia. Isaac: que já deixara implícito-explícito há pelo menos um ano que gostava de Nathan. Mas que ainda assim teve a audácia de verbalizar isso para ele, num recreio qualquer desses. Isaac: que agora mordia o lábio inferior do outro lado do corredor. Que pegava os livros que fingia ter colocado no armário, mas que havia colocado de verdade, sem perceber, e que, ops, agora precisaria mesmo deles para a aula de Física 1, seu i*****l. Isaac: que só sairia daquele transe melancólico quando o sinal de “voltem às celas” tocasse. E, se avançássemos em algumas horas daquele mesmo dia, encontraríamos Isaac chegando bem aborrecido em casa, imaginando a caixa com bombons estando estragados, e isso explicaria por que Nathan cuspiu; se achando um babaca por, na emoção de presentear, nem ter conferido validade do produto. É, deveria ser isso. E então, se avançássemos um andar acima daquela casa, encontraríamos Ítalo estranhando o semblante daquele Isaac sôfrego que acabara de entrar no quarto; aquele semblante doído do seu irmão caçula. Estranhando ao ponto de deixar a HQ do Doutor Estranho largada e aberta na cama, perguntando a ele o que houve. — Hum... — E esse hum precederia uma explicação eufemista, ingênua e meio condescendente dos fatos. Isaac contaria para ele que o que havia… machucado mais era o fato de Nathanael não ter sequer olhado para ele enquanto passava — sinal do quanto Isaac havia pisado na bola tendo lhe dado um bombom estragado, não é? —; contaria que passou uns dias pensando na melhor maneira de fazer aquele gesto: não queria que nada desse errado, mas, aparentemente, só se esqueceu de um detalhe bobo, como o de verificar a validade do presente que daria, assim como se esqueceu de perguntar à vendedora se tinha problema ele enfiar e deixar chocolate em um ambiente escuro e abafado por quase quatro tempos de aulas. É, provavelmente teria sido por um motivo tosco, e isso deixava Isaac ainda pior, com a consciência ainda mais pesada. E seu irmão mais velho o escutou com muita, mas muita atenção. Ítalo Monteiro olharia bem sério para ele, o maxilar bem rígido, Ítalo bem puto da vida, apenas perguntando retoricamente. — Ah, foi? Ele fez isso, é? Show... Não fica assim, não, Isah. Tenho certeza que tudo vai se resolver. Isaac encararia com uma interrogação no rosto o irmão que parecia dizer coisas desconexas e sem muita aplicabilidade à sua atual situação. O tom reflexivo mas convicto daquelas palavras pareciam torná-las ainda mais irrealistas. Afinal, palavras reconfortantes sempre eram, mesmo. Ítalo ficaria sabendo bem tarde da paixonite de Isaac. Ele ficara sabendo bem mais tarde da paixonite de Isaac. Sabia que ele passava mais tempo no celular desde o começo do semestre, o que poderia indicar que ele tinha arrumado alguém, ou então que estava traficando órgãos. Mas, nesse primeiro caso, Isaac teria anunciado a Ítalo, não? Eles sempre se apoiavam em tudo mesmo. Como daquela vez em que: — Ítalo, acho que quebrei o vaso da mãe. — Como assim você acha? Aah, tá, sai, sai daqui, deixa que eu limpo. — Mas é que... — Pode deixar, já não disse? Eu falo que foi culpa minha: esbarrei quando fui pegar o controle ou sei lá. Sai daqui. Mas, não. Isaac não esconderia uma namorada de Ítalo por tanto tempo assim, o que o levaria à teoria de que talvez ele só estivesse gostando de alguém mesmo. Isso explica o tempo no celular: stalkeando quem quer que fosse, conversando sobre isso com os amigos, supondo que eles existiam... Porém, teoria essa que seria confirmada logo no dia seguinte, com Isaac confessando a Ítalo que se tratava de alguém da escola deles mesmo. — Da sua sala? — perguntou Ítalo. — Não. — Então é da segunda turma do primeiro? Isaac negou. Então Ítalo pensou um pouquinho mais. — Da minha sala? — Nathan. Sim. — Isaac enrubesceu um pouco. — Você m*l deve conhecer. Ele não faz algumas das suas matérias. Não é aquele viadinho loiro do teatro? Que brigou com aquela garota ou algo assim? — Ele não chegou a brigar com ela — argumentou Isaac. Lambedor de cu nas horas vagas. Enfim, não se sabe. E Ítalo sabia menos ainda, já que só ouvira a voz do garoto Nathan dizendo “presente” para a chamada, e também quando ele atuava nas peças obrigatórias de conscientização da escola. O que Ítalo sabia era que: 1) ele queria deixar que tudo se resolvesse, sem estresse, porque paixonites são assim mesmo e formam o caráter de um cara, principalmente nos nãos. Mas, 2) Ítalo não gostava de ver o irmão sofrendo, como nenhum irmão gostaria, ou ao menos não deveria gostar, e foi aí que ele soltou o seu “tenho certeza de que tudo vai se resolver” definitivo. Porque, 3) c*****o, essa não era a primeira vez que esse loirinho chateava o Isaac, mas seria a última. Pois, prestem atenção, senhoras e senhores, queridos pais e mestres, amigos e vizinhos aqui presentes: se aquela bicha shakespeariana acha que pode fazer uma merda dessas com o Isaac e ficar numa boa, ela vai ter que arranjar um jeito de interpretar a voz de Júlio César com os dentes da frente que nem os do Freddie Mercury. Agora, num momento mais próximo de outro agora na história, especificamente mais próximo do momento em que o sinal toca, como que anunciando “voltem às celas” novamente, Ítalo caminhou a passos gélidos até Nathan, que punha naquele seu mesmo armário o anel dourado de linhas prateadas — que ele vivia tirando e recolocando nos dedos. Nesse canto menos movimentado do corredor, ele conversava com Gabriel, o seu melhor amigo, sobre a prova do terceiro tempo com uma certa serenidade — a serenidade de quem obteve o gabarito de uma fonte confiável, ou a serenidade de quem copiou do segundo aluno mais esperto da sala em troca de uma graninha extra. Poderíamos citar que o céu estava lindo sobre o trânsito pedestre abaixo dele, com alunos apressados se enveredando por entre as paredes de concreto daquela bem preservada escola. Poderíamos dizer até que uma gota de orvalho ainda pendia na ponta da folha solitária e vizinha à chegada do sol, que fazia resplandecer no mar sereno das brumas cheirosas, e toda essa viadagem. Mas é muito mais relevante o seguinte: narrar que Ítalo disse: — Precisamos conversar, você e eu. E Nathan se lembrava dele, é claro. Eram da mesma sala. E, ainda que não fossem, Ítalo era o capitão, ou co-capitão, ou o braço do co-capitão, ou alguma merda assim, do time da escola. Era bonito, também. Muito bonito. Tinha os cabelos mais negros e sedesos que Nathanael já vira na vida, assim com o seu irmão Isaac, com a diferença de que o seu cabelo alcançava os ombros, enquanto o de Isaac esparramava fios morenos sobre sua cabeça. Uma outra diferença entre eles, além dos 30 cm de altura, era o corpo. Ítalo tinha o corpo de quem se preparava para as seletivas de uma Olimpíada; magro no sentido de que toda a sua carne parecia ser apenas de músculos bem trabalhados. Isaac, por sua vez, era apenas um garoto magro, se comparado ao irmão. E Ítalo, aliás, — Nathan não sabia nada sobre Isaac, então não podia afirmar o mesmo sobre ele — havia se saído muito bem na última feira de ciências. Ítalo, ao que parecia, só não era mais gostoso que esperto. — Hum... oi — respondeu o cara loiro de nome Nathanael (Nathan, para os íntimos), mas que agora se chamava hum, oi. — E você — Ítalo disse simplesmente, em direção a Gabriel —, dá o fora. — Perdão? — interjeicionou Gabriel, meio surpreso, mas também ofendidíssimo. Sabe, o que acontece é que esse pobre amigo do Nathan era muito respeitoso e educado com todo mundo, e o tempo todo; por isso, ele bem sentiu falta de um “Oi, gente. Nathanzinho, querido, posso falar com você um minuto? Ops, não quis interromper. Licença, Gabriel. Se não for incomodar”. Ah. Pobrezinho. O cabelo de Ítalo estava amarrado em uma espécie apressada de r**o de cavalo, deixando assim cair mechas em suas bochechas. Ao lado das mechas, olhos sérios e não muito bem-humorados o fitavam. — Eu falei pra você sumir. Não ouviu? Gabriel o encarou erguendo uma sobrancelha subversiva. — Olha só, primeiramente é “por favor, teria como…” Ítalo o agarrou pelo casaco tão depressa e com tanta força que seu dedo acabou agarrando também o zíper, que chiou, que se arrebentou e se espalhou por algum lugar aos seus pés. Em determinado momento, Gabriel pensou que fosse cair, ao tropeçar e sentir Ítalo o empurrando; porém seu corpo — mais infelizmente do que felizmente, na verdade — bateu com força na parede próxima deles que ah-é-essa-parede-estava-aqui-mesmo-ain-doeu-ain. O cabelo ruivo de Gabriel ficou balançando sobre o couro cabeludo dele como uma peruca m*l colocada, e seus olhos verdes vasculharam por alguma escapatória daquela situação, a qual parecia não haver. — Cara. Eu mandei você vazar daqui, c*****o — reiterou Ítalo. Dócil como um aspirante a criminoso. — Ga-Gabriel — Nathan tentou intervir. Alguns olhares curiosos e bocas por vários meses sedentos de briga! briga! briga! espiavam aqueles três e a tensão entre eles, já quase parando para assistir melhor à cena. — Pode ir, Gabriel. Por favor — afirmou Nathan, tentando passar confiança. Mas também estava tremendo um pouco. — Tá tudo bem. Não precisa falar duas vezes, chefe. — Pode soltar ele? Por favor? Ele já está indo... Nathan não sabia que Ítalo gostava de humilhar nerds, que nem o grupo de atletas babacas, seus colegas. Nathan achava que ele só não fazia o tipo. Ele lia, parecia escrever também, e ficava sempre na dele, inclusive após vencerem uma partida emocionante. Mas seria uma mentira grosseira narrar que Nathan ficara chocado ao vê-lo sendo um babaca, como quem descobre só hoje que Capitu não traiu Bentinho. Afinal de contas, o bom filho à casa torna, e filho de peixe, peixinho é — fosse o que fosse o significado dessas analogias. Ítalo olhou no fundo daqueles olhos verde-acinzentados e de cabelos vermelhos de Gabriel e decidiu soltá-lo, observando-o pegar a mochila, se despedir de Nathan com um ininteligível sibilar que mais parecia um “au atãn” (tchau, Nathan), e então Gabriel, o Biel, ou Bielzinho, bem, ele simplesmente vazou dali. — Você e eu — repetiu Ítalo. — Agora você e eu vamos conversar. — Ítalo esbarrou nele ao ameaçar um passo, enquanto Nathan ajeitava a mochila num dos ombros, fechando o armário para se apoiar nele. Aguardando... tolamente aguardando. Ítalo viu que Nathan não ia se mover, logo: — Eu disse vamos. — Não vou a lugar nenhum. Acho que você pode falar aqui mesmo. Ítalo meditou por dois segundos. Só dois segundinhos antes de puxar Nathan pela camisa como um cachorrinho levado, quase o enforcando com aquele colarinho chamativo e lindo demais para ser usado para enforcar alguém. Eles atravessaram o corredor e passaram por uma porta que Nathan, se desequilibrando no próprio corpo, não soube identificar de que sala era. Só quando sentiu a base da coluna gemer contra o impacto com a pia foi que Nathan notou que a sala secreta de interrogatório era um dos banheiros da escola. Ítalo o largou e não falou nada por quase um minuto inteiro, e não seria o Nathan o primeiro a dizer “Dá pra ser? Temos Literatura daqui a pouco”. Não, não, senhoras e senhores, amigos e vizinhos, respeitável público. O rosto do Nathan estava bem do jeitinho que estava. Ninguém entrava ou saía do banheiro nesse momento, e também não parecia haver alguém numa daquelas poucas cabines, o que era algo surpreendente para o horário, mas nem tanto assim, na verdade — devia ter uns 18281 banheiros masculinos no prédio —, e se aquilo não estivesse acontecendo realmente com Nathan, ele diria que a aura que ali se instaurava, inclusive o seu temor crescente por aquele garoto gótico que o arrastara, era de mentira, ficcional. Mas: — Então, você cuspiu. — recapitulou Ítalo. E agora ele estava mesmo meditando na questão. Nathan deixou o rosto pender para o lado de uma forma muito, muito presunçosa; e o jeito com ele empinou o lábio inferior, com aquele ar de superioridade reluzindo no anil dos seus olhos, fingindo sequer imaginar do que se tratava a conversa, estando prestes a perguntar “cuspi o quê?”, só para zombar da cara já não muito simpática de Ítalo... ah, isso sim o fez perder a simpatia, meus caros. Ítalo encheu a mão direita com gosto, o corpo ampliando a base de equilíbrio, e Nathan girou o olhar pelo teto do banheiro, um piiiiiiii ecoando em sua cabeça aturdida, fazendo sua orelha esquerda latejar com o tapa. Se ele olhasse para trás (e não para Ítalo, com aquela cara surpresa e temerosa), poderia enxergar, pelo espelho,, através do espelho, o quanto sua bochecha estava vermelha. — Vamos lá. Anda. Faz cara de p**a desentendida de novo, faz. Eu te desafio. A p*****a desentendida recolheu o rostinho com a mão trêmula, de repente tímida agora, vejam só! — Você não só não comeu a p***a do bombom — retomou Ítalo. — Mas ainda teve a audácia de encher a boca, mastigar, sentir o gosto, cuspir, e não só cuspir, mas cuspir no restante que ainda prestava daquela merda em que você transformou. E então jogou no lixo com o mesmo descaso que vem fazendo com o sentimento dos outros à sua volta. Foi ou não foi? Nathan mastigou a bochecha, os dentinhos frontais pressionando o lábio inferior. Respirou fundo, com raiva demais agora para encará-lo. Interpretou o chão como a opção mais segura. Ítalo esperou por três segundos. E isso era muita bondade da parte dele, convenhamos. Monteiro o agarrou pelo colarinho com uma pressa que fez Nathan tentar abrir a guarda, sem muito sucesso; impedido por pernas e tórax maiores que os seus. Ítalo regurgitou algo dentro de si, algo como raiva, asco e instinto protetor, e lançou um cuspe encharcado no rosto de Nathan, que o fez fechar o olho esquerdo, se acumulando nas dobras da sua pálpebra e sobre seus cílios, que agora escorria pelo canto do nariz, já tocando a parte superior da boca. Com sua linguinha nervosa, Nathan pôde sentir o terrível gosto salgado. Não é bom cuspir nas coisas? — Quando eu te fizer uma pergunta… — alertou Ítalo Monteiro.… — Ítalo alertou. Mas não precisou completar. — Eu entendi, eu entendi. — Nathan tentou se lembrar da pergunta enquanto limpava o rosto com as costas da mão. A um suspiro de chorar. A um suspiro de começar a chorar. — Foi, foi sim. — Eu nunca me meti com você e você nunca se meteu comigo. Quando a galera do futebol implicava com vocês do teatro, do teatro eu implicava junto deles? 1... 2... — Não! Não implicava, não implicava... — Uma vez, eu até defendi, quando estavam saindo do auditório e eles foram implicar contigo e a sua turma, não foi? — Foi. — Mas, agora, você quem ferrou com o Isaac, o que acaba ferrando comigo também. — O rosto dele não estava só sério. Tinha raiva ali também. Muita raiva. — Desculpa, olha, Ítalo, desculpa. Não sei por que eu cuspi os bombons. É que seu irmão fica direto em cima de mim! Direto. Eu tentei dizer a ele, educadamente, que eu não estava a fim. Eu...! — Tentou dizer. Que merda de desculpa é essa? Nathan fechou os olhos, já esperando outro tapa. Que não veio. Que não veio ainda, mas não vamos abusar. — Eu não gosto dele, sabe. O que é que eu posso fazer?! Aí Ítalo sorriu. Era um sorriso branco e sereno, à medida que era tenebroso, na límpida certeza que só uma solução premeditada poderia lhe dar. — Você pode sair com ele — disse Ítalo, libertando-o. — Pra compensar. — E agora seu tom não era mais de sugestão, como quem só comentasse sobre o clima de hoje: — Você vai sair com ele. Amanhã você está livre? — Se eu não for, você vai me bater? Não era um desafio. Não, não, pelo amor de Deus, não era mesmo um desafio. Tentem entender. Nathan só estava tentando ser curioso. — Se fizer o que estou te falando para fazer, não vai precisar descobrir. Você só estará fazendo uma gentileza, recompensando quem você que fez uma coisa não muito legal. “O que faz um dia bom é fazer uma boa ação.” Essa merda não é de uma fala das suas peças? — É do filme “Hoje eu não quero voltar sozinho” — comentou Nathanael, sem muita emoção. — Que seja. Amanhã à noite. Entendeu? — Eu não vou fazer isso. f**a-se. Não vou participar dessa merda. — Eu tô achando que você esqueceu de tirar a p***a da boca pra falar comigo. — Ítalo lambeu os lábios secos. — Repete. — Não vê que isso é humilhante pro seu irmão? Mais humilhante que uma caixa de bombom jogada no lixo. Beleza, beleza, eu peço desculpa, eu digo pra ele depois: desculpa, cara, se você não sabe quando as pessoas que não gostam de você não te querem por perto, e aí você pega a bola e vai pra casa, e chama o irmão mais velho pra brigar com quem chutou forte demais o brinquedo novo. Mas, isso é humilhante, digno de pena. E você, irmão dele, me ameaçando para sair com seu irmão! Isso sim é pior, mais digno de pena. Acha que está fazendo bem pra ele ao fazer iss- E foi desse jeito. Ítalo fechou o punho e mirou bem na boca de Nathan, que gemeu derrotado, provando o gosto do próprio sangue. A cabeça deu um solavanco para trás, e Ítalo o segurou para que o baque não quebrasse o vidro do espelho do banheiro. Com um olhar de e eu te perguntei alguma coisa, seu puto? Pois é. O Ferrero Rocher, pelo menos, tinha um gosto melhor do que sangue com sabor soco e cobertura de dor. Nathan limpou o lábio com a língua mesmo, estando ela coberta de vermelho coagulado e baba de outro cara agora. E, enquanto era sacudido, Nathanael sibilou algo não muito compreensível, é verdade, pois tudo ao seu redor girava. Temeu outro soco, estando bem satisfeito só com esse. Porque Ítalo o havia acertado na boca, e ele poderia ter quebrado o nariz Nathan, se quisesse; ou mesmo ter escolhido acertar o olho, e todos saberiam, pelo roxo no cara ou pelo nariz enfaixado, que Nathan havia apanhado, levado uma boa de uma coça. Portanto, aquela bochechinha rasgada era nada. Um filete de sangue aqui e outro ali era como uma calda de morango com gosto mais metálico. Nathan levou a mão à boca avermelhada e com tons mais escuros de rosa, que agora se diluíam na saliva de seus lábios mais inchados que antes. Ítalo o puxou para perto, para bem mais perto, sua respiração pesada sufocando a do Nathan, enquanto um sorriso m*****o se estendia por detrás daqueles riso imaculadamente branco. Olhando para uma cabine em específico, de porta entreaberta, Ítalo teve uma ideia. — Não, por favor, tudo bem, tudo bem — Nathan pôde ler a expressão dele, e ainda estava questionando se havia interpretado corretamente. Havia, sim. Ele sentiu seu corpo ser conduzido pelo banheiro. Sentiu sua garganta doer ao implorar não não não por favor. E sentiu alguma coisa dentro de si ameaçando vomitar e outra coisa ameaçando chorar quando viu Ítalo abrir, chutando, uma das cabines, que apresentavam um vaso mais lá do que cá, e que lhe sorria um lindo mijo amarelo e fedido — de dentro dele e da borda, acumulando pequenas poças no assento. Nathanael sentiu a nuca sendo pressionada por alguém mais forte que ele, e notou o golpe que o fez se ajoelhar, sentindo a dor de bater com os joelhos no chão; e por pouco, mas por pouco, não começou a chorar ali mesmo. Ele teve a péssima ideia de se imaginar sentindo o gosto daquela humilhação amarela, mais salgada que cuspe, borbulhando afogados gritos por socorro. Quase mordiscando o lóbulo, Ítalo sussurrou-lhe, bem no ladinho do ouvido de Nathan: — Agora escuta uma coisa. E Nathan escutou. Ah sim, pode apostar que escutou. Uma, duas, três... Escutou Ítalo admitir ter um lado sádico muito comportado, até; principalmente quando implicavam com ele — oh oh, me mandou tomar no cu? Hahaha uau esse Theo é mesmo uma figura haha —; mas, se implicassem com Isaac, o lance era bem diferente. Escutou que, se Nathan contasse para quem quer que fosse, não só o Ítalo, mas o time inteiro de futebol iria acabar com a raça loira de frutinhas como a dele. Ah sim, pode apostar. Porque Ítalo nunca pedira nada àqueles caras, e eles não lhe negariam esse favor, esse pequeno favor; certamente não — eles já não gostavam mesmo de razões para serem babacas, né. Nathan escutou que, se fosse denunciá-los por isso, teria que ir denunciá-los por umas 11, 12 vezes. Porque todo dia iriam infernizar a vidinha dele, e não todos de uma vez, não, não, senhoras e senhores. Um de cada vez, um a cada dia. E, à medida que um fosse suspenso, outro se colocaria no lugar. Pois então, Nathanzinho, pense bem, sua consciência, materializada na voz de Ítalo, o aconselhava: são 12 caras VS as suas 7 supostas vidas, gatinho. Vamos, você não é tão burro em matemática assim. Além do mais, (Nathan escutou também) ele achava mesmo que expulsariam alguém do time por causa de um aluno do clube de teatro que, convenhamos, queridos pais e mestres e amigos aqui presentes, nem é tão bom assim, e que sempre erra uma ou duas palavras quando lhe dão um monólogo. Fazendo “prevenção” parecer “pretensão”, e “o estádio lota” parecer “esse rádio x**a”. E então? O que iria ser, Nathanzinho? Dar um selinho no irmão saradinho do irmão sarado, que poderia ser bem persistente quando queria, mas só para encerrar logo essa história, ou ter a cara enfiada em mijo e apanhar todo dia de atletas que socam e levantam coisas o tempo todo, até ficar desfigurado? O rostinho gay com olhos azuis de Nathan, marinado em Assepsia e leite-de-rosa, certamente seria algo como um massageador de punhos para aqueles caras. — Por favor, cara, não, não! Tá bom, tá? Tá bom! Agora sim Nathan estava chorando. — Amanhã. 19h30. Numa lanchonete ou, sei lá, no cinema, que seja. É você quem vai convidá-lo. Hoje. E do jeitinho mais viadinho e convincente que conseguir. Afinal de contas, você é ator. E, no encontro, você vai levar um presente. Vai levar um...— Ítalo pensou, encarando aquele vaso tentador ele pensou. — Uma caixa de Ferrero Rocher. E você ainda vai se desculpar por hoje, por ter sido um cuzão. Você entendeu? Ah, entendeu, entendeu. Nathan já sentia o cheiro de mijo corroendo suas narinas. Uma gotinha de sangue que fugiu dos lábios agoniados e suspirantes dele manchou aquele líquido amarelado que antes era homogêneo; e se Nathan sequer soluçasse de mau jeito, iria descobrir o sabor humilhante de sangue quente diluído em urina fresca. — Que bom. Quando sua nuca foi liberada, o impulso de ser solto acabou fazendo a pontinha do nariz tocar naquela água. Talvez um pouco mais que a pontinha, e as narinas do loiro latejavam, reclamando da acidez. — Não se atrase. — Dito isto, o banheiro se fez menos populoso que antes. Mas Nathan só teve certeza disso quando ouviu a porta ranger, e quando looongos segundos de reconfortante silêncio se passaram. Só aí ele teve coragem de erguer o rosto que fungava; suas narinas ardendo. E, se lembrando da conversa de mais cedo, só agora havia entendido que às vezes não é mesmo tão legal assim jogar no modo Sobrevivência. Porque sobreviver é uma merda. Mais tarde, ele jogaria Minecraft pelo modo Criativo. Havia descoberto que o Sobrevivência não era tão divertido. A passos lentos de um caminhante vandalizado, Nathan finalmente encontrou o espelho, e se encarou; encontrou a torneira, e se lavou, mais ou menos. Viu a mochila jogada ao chão e a pôs alçada nos ombros. Quando retornou ao espelho, e se encarou, e se lavou, e se moveu para ir embora, foi ali que ele começou a odiar de verdade Ítalo Monteiro, sim, mas principalmente esse tal do irmão dele. Passando agora para o agora mais próximo do agora, no enredo, veríamos um Isah sorridente planando até o quarto dos Monteiro. — Ítalo! Ei, ai, c*****o, ei! Tá em casa? E, antes de a porta ser aberta, a HQ do Doutor Estranho já estava de lado na cama — dessa vez, a de Vol.2 —, e Ítalo aguardava a chegada de Isaac pressionando os lábios, para conter o sorrisinho b***a. — Se eu te contar... tu nem acredita. Ítalo fez cara de interessado. Se ajeitou na cama, tentando achar sua posição mais confortável de desconforto. — Bem — murmurou de lado, deixando o olhar vagar por qualquer outro lugar do quarto —, isso eu quero ver. O que houve?

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