08. Dia azarado, parte 2

1046 Palavras
Kitty Tem dias que devem ser feitos literalmente na intenção de te derrubar. Caminho para o balcão pedindo que me dessem lenços ou guardanapos e, um pouco assustada, a moça trabalhou ligeiro para me auxiliar. Mesmo trabalhando em um café, não deve ver muito disso. Mas o que posso dizer? Não é o meu dia. — Um cappuccino e algo salgado — peço fazendo uma pequena vistoria do ambiente. Não é um local que já tenha vindo. Também não consigo identificar ninguém que seja o Dylan. Mato Javier mais tarde? Só pode ser brincadeira que eu tenha que adivinhar. A moça me indica um lugar onde sentar depois que recebi os lenços para tentar tirar parte do que continua fazendo o tecido grudar em minha carne. “Apenas continue mentalizando coisas boas, Kitty, vai dar certo”, murmuro em minha mente, pondo a minha bolsa sobre a mesa antes de começar a me limpar minimamente. Continuo analisando a entrada e as mesas, mas não há ninguém além de um rapaz bebendo seu café com cuidado, e nem posso ver o seu rosto bem, já que além do capuz erguido, mantém um boné na cabeça. Pelo jeito, não fui a única que teve problemas para chegar em nosso encontro. A moça aproxima-se, colocando meu pedido algum tempo depois na minha frente. Me dá um sorriso de compreensão por me ver arrastando o lenço pelo tecido. Quem sabe pense que é uma pena, o que é, mas não posso me agarrar a isto, não foi a maior desgraça no meu dia. Tomo um gole do meu cappuccino verificando a porta quando novos clientes chegam, mas é somente uma dupla de garotas que começam a cochichar assim que percebem que a mesa mais afastada é mantida pelo rapaz com o capuz. Ele sequer ergueu a cabeça para verificar quem entrou, somente manteve a sua atenção em sua bebida. Com pressa, engoli a pequena torta salgada que a moça escolheu e usei o cappuccino para fazê-la descer. Apanho o celular verificando as horas e são quase dez, nosso encontro era às nove. Será que ele foi embora após perceber o meu atraso imenso? Solto um suspiro vendo de soslaio que as duas garotas, depois de pegarem o seu pedido, apressam-se em se sentar na mesa ao lado do rapaz, que só está ansioso para encontrar o fundo de sua xícara. Elas claramente não importam para ele. Percebo que, com a mão esquerda, faz alguns rascunhos em um bloco de notas. Deve ter alguma coisa em mente para não se importar com os arredores. No entanto, é bem claro que as garotas o fazem por ele. Ergo-me indo na direção do caixa mais uma vez, sendo atendida outra vez pela moça que verifica o estrago catastrófico em minha blusa branca. — Pode me dar algo doce dessa vez? — pergunto e não faz muitas perguntas antes de somente me dizer o total de tudo o que pedi e lhe passo as notas ligeiro antes de voltar para minha mesa. Com o pedaço de torta na minha frente, só consigo pensar que deve ter acontecido exatamente o que temia. Dylan chegou e se foi após perceber que não sou nada pontual. Solto um p***a quase mudo antes de enfiar a primeira garfada da sobremesa na minha boca. Se é bom misturá-la com café? Não tenho ideia, mas o que é a vida além de uma grande experiência sobre o que pode dar ou não certo? Poderia ter continuado a aproveitar a minha sobremesa se não fossem os murmúrios repetidos vindo das garotas, que inicialmente estavam apenas comendo e bebendo vigiando o encapuzado, mas agora estão sendo bem mais descaradas enquanto tentam conseguir uma foto dele. Ele apenas reage, quase enfiando a cara na mesa. Não diz nada, quando tem o direito, já que invadem seu espaço. Porém, estava decidida a deixar que ele lidasse com seus próprios problemas, já que tenho que mandar uma mensagem para Javier dizendo que dei uma grande bola fora com Dylan, mas minha ideia se foi quando percebi que ambas avançaram até ele. Viro meu rosto, notando a atenção nos olhos da mulher que me atendeu após se aproximar sorrateiramente de mim. — Não sei se seria rude, mas quer tentar uma blusa minha? — Dou um sorriso para ela. É mesmo gentil. — Não é rude, mas não precisa, meu compromisso deve ter corrido de mim por meu atraso — comento, e olho para onde as duas garotas continuam falando como duas matracas ambulantes. — Clientes recorrentes? — Ele começou a vir aqui recentemente, costuma vir mais cedo, antes que o movimento se intensifique — me conta, sem se preocupar com minha curiosidade. — Elas passaram a vir depois de perceberem que ele tem alguma rotina. O café é só uma desculpa para que tentem se aproximar — explica, e não sei que tipo de expressão fiz para que o rosto dela mudasse, entretanto, me contou algo bom. Devo comprar mais algumas coisas, quem sabe receba uma boa comissão. Não trabalha em uma franquia, esse lugar tem um dono que pode agradecer o aumento das vendas. — Pode empacotar cinco de cada coisa que me deu? Menos os cafés — profiro, e ela meneia a cabeça concordando. — Na verdade, seis, tenho que comer de novo — falo com um tom de brincadeira e ela sorri, afastando-se. “Agora, o que eu devo fazer?” Me pergunto olhando para o local onde elas insistem em falar, e a testa dele parece cada vez mais próxima da madeira, é nítido que quer se esconder. Se pudesse, creio que viraria uma bolinha que rolaria para fora do lugar antes que elas estourassem os seus ouvidos com seus pedidos. Tem mesmo pessoas que não ligam para como usam a sua educação. Se o dia está r**m, não há m*l em buscar por uma dose de alegria, certo? Ainda que não receba um agradecimento, ele certamente vai se sentir mais confortável depois que as moscas pararem de zunir em seu ouvido. Ponho mais um pedaço de torta na minha boca, mastigando com certa alegria. Sim, posso animar um pouco o meu dia, no mais, terei algo divertido para contar às meninas ao invés de chorarmos pela minha lataria amassada.
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