Pré-visualização gratuita Capítulo 01
Capítulo 1 — No Horizonte, ninguém dorme em paz
Narrado por Mirella
No Complexo do Horizonte, o silêncio da madrugada nunca significava paz.
Significava problema.
E naquela noite… eu ainda não sabia que minha vida estava prestes a acabar do jeito que eu conhecia.
Acordei antes mesmo do despertador tocar. O calor dentro da pequena casa parecia pior naquela manhã, como se o ar estivesse pesado demais pra respirar. Passei a mão no rosto, ainda sonolenta, e fiquei olhando pro teto manchado do meu quarto por alguns segundos.
Cinco da manhã.
Mais um dia.
Mais uma luta.
Aos dezenove anos, eu já me sentia cansada demais pra alguém tão nova.
O espelho velho encostado no canto do quarto refletia a mesma garota de sempre: pele morena clara, olhos escuros marcados por noites m*l dormidas e cachos longos caindo pelas costas em uma bagunça impossível de controlar por causa do calor do Horizonte.
Muita gente dizia que eu era bonita.
Mas sobreviver no morro não deixava muito tempo pra pensar nisso.
Amarrei o cabelo num coque malfeito e fui até o banheiro pequeno. A luz piscava mais do que funcionava. Lavei o rosto tentando afastar o cansaço acumulado de semanas.
Talvez meses.
Eu trabalhava numa loja no asfalto durante o dia e fazia unha em casa quando aparecia cliente à noite. Não era muito, mas ajudava a pagar as contas.
Desde que minha mãe morreu, tudo passou a depender de mim.
Tudo.
Meu pai já tinha ido embora muito antes disso. Bala perdida, numa noite qualquer do Horizonte. Uma troca de tiros que nem era com ele.
Mas no morro pouco importa se você tá envolvido ou não.
Quando a morte resolve entrar, ela entra.
Minha mãe tentou segurar as pontas sozinha por anos. Trabalhou até o corpo não aguentar mais. Eu ainda lembrava dela tossindo escondido no banheiro pra gente não perceber o quanto estava piorando.
Câncer.
A palavra destruiu nossa vida devagar.
Primeiro levou a saúde dela.
Depois levou nosso dinheiro.
Depois levou ela de vez.
E sobrou só eu e meu irmão.
Lucas tinha dezessete anos agora. Mas às vezes parecia muito mais novo. Outras vezes parecia velho demais pra idade.
Eu praticamente criei ele.
Ensinei dever de casa.
Fiz comida.
Levei em médico.
Briguei com professor.
Passei noites acordada quando ele tinha febre.
Enquanto outras meninas da minha idade estavam pensando em festa e faculdade… eu tava aprendendo a sobreviver.
E sinceramente?
Eu não reclamava.
Lucas era tudo que eu tinha.
Ou pelo menos era o que eu pensava.
Saí do banheiro e encontrei a casa silenciosa. Pequena. Simples. Mas limpa. Minha mãe tinha mania de dizer que pobreza não era desculpa pra viver no lixo.
Peguei a chaleira velha e coloquei água pra esquentar. Enquanto isso fiquei olhando pela janela da cozinha.
O Horizonte já estava acordando.
Homens descendo as vielas.
Moto passando rápido.
Som de rádio comunicador chiando ao longe.
Criança correndo atrás de bola mesmo cedo daquele jeito.
E os meninos da boca trocando turno como se aquilo fosse um emprego normal.
Talvez pra eles fosse.
Olhei pra subida principal do morro e vi dois homens armados parados perto da escadaria. O fuzil brilhava mesmo de longe.
Desviei o olhar na mesma hora.
No Horizonte, olhar demais era perigoso.
Principalmente quando o assunto envolvia o tráfico.
Eu odiava aquilo.
Odiava a forma como o crime fazia parte da rotina das pessoas como se fosse algo comum. Como se arma, tiro e morte fossem tão normais quanto comprar pão.
Mas no fundo eu sabia:
ninguém escolhia nascer ali.
Alguns só escolhiam sobreviver do jeito errado.
E Lucas estava começando a se perder exatamente nisso.
A primeira vez que percebi foi meses atrás.
Dinheiro aparecendo do nada.
Tênis novo.
Celular caro.
Sumiços estranhos.
Amizades que eu nunca tinha visto.
No começo ele mentia m*l.
Depois nem fazia questão.
— Relaxa, Mirella. Tu acha que eu vou ficar duro igual nós ficou a vida toda?
Aquela frase ainda queimava dentro de mim.
Porque eu entendia o desespero dele.
Entendia a revolta.
Só não aceitava.
— Dinheiro de tráfico nunca termina bem.
Lembro de ter falado isso chorando numa discussão nossa.
Ele riu.
Riu como alguém que ainda não tinha entendido o tamanho do perigo.
— Aqui no Horizonte todo mundo vive disso.
— Nem todo mundo.
— Os que não vivem… passam fome.
Aquilo me calou.
Porque parte de mim sabia que ele não tava completamente errado.
O morro engolia sonhos.
E oferecia atalhos.
Lucas começou fazendo favores pequenos.
Depois virou aviãozinho.
E eu percebia.
Mesmo quando ele negava.
Eu sentia o cheiro da maconha na roupa dele.
Via o jeito nervoso que escondia dinheiro.
As mensagens apagadas.
As madrugadas fora.
E toda vez que eu tentava puxar ele de volta… parecia que o Horizonte puxava mais forte.
Naquela noite ele ainda não tinha chegado em casa.
Outra vez.
Olhei o relógio.
Onze e quarenta e sete.
Meu estômago apertou.
Peguei o celular e liguei.
Caixa postal.
De novo.
Suspirei irritada, jogando o aparelho no sofá velho.
Eu tava cansada de viver preocupada.
Cansada de sentir medo toda vez que escutava tiro.
Cansada de imaginar polícia invadindo nossa casa.
Ou alguém vindo me avisar que Lucas tinha morrido.
No Horizonte, notícia r**m sempre chegava rápido.
Fui tomar banho tentando esquecer aquilo. A água gelada caiu sobre meu corpo enquanto eu encostava a testa no azulejo.
Talvez amanhã eu conversasse sério com ele outra vez.
Talvez ainda desse tempo.
Queria acreditar nisso.
Quando saí do banho, o morro estava mais silencioso. Estranhamente silencioso.
Só o som distante de uma moto cortando as vielas.
Deitei na cama usando apenas um short largo e uma blusa velha. O ventilador girava lentamente no teto.
Olhei o celular.
Nenhuma mensagem.
Fechei os olhos tentando dormir.
Mas no Horizonte a paz nunca dura muito.
As batidas no portão começaram pouco depois das duas da manhã.
Fortes.
Desesperadas.
Meu coração disparou no mesmo instante.
Sentei na cama assustada.
Mais batidas.
Dessa vez acompanhadas de uma voz rouca:
— Mirella! Abre! Pelo amor de Deus!
Lucas.
Levantei tão rápido que quase tropecei. Corri pela casa enquanto meu peito apertava cada vez mais.
Quando abri a porta…
o mundo pareceu parar.
Lucas estava machucado.
O rosto coberto de sangue.
A camiseta rasgada.
Respiração pesada.
Olhos arregalados de puro medo.
— Meu Deus…
Segurei ele antes que caísse.
— Lucas, o que aconteceu?!
Ele entrou desesperado, olhando pra rua antes de fechar o portão rapidamente.
As mãos tremiam.
Eu nunca tinha visto meu irmão daquele jeito.
Nunca.
— Eles vão me matar…
A voz dele saiu quebrada.
Puxei ele até o sofá enquanto meu coração batia tão forte que chegava a doer.
— Quem?!
Ele passou a mão ensanguentada no rosto.
— Deu r**m… deu muito r**m…
Corri até a cozinha pegar água e uma toalha. Minhas mãos também tremiam agora.
Quando voltei, ele estava curvado pra frente, respirando pesado.
Comecei a limpar o sangue do supercílio cortado.
— Lucas, olha pra mim. O que tu fez?
Ele demorou pra responder.
E aquele silêncio me assustou mais que o sangue.
— Eu perdi uma carga.
Senti o ar sumir dos meus pulmões.
— O quê?
— Não foi culpa minha!
Ele levantou nervoso.
— A polícia apareceu, teve correria… os caras pegaram tudo!
— Que carga, Lucas?!
Ele fechou os olhos.
E então falou baixo:
— Droga.
Minhas pernas enfraqueceram.
Afastei alguns passos dele tentando processar aquilo.
Não.
Não.
Não podia ser naquele nível.
— Tu tá trabalhando pra boca?
Ele não respondeu.
E aquilo já era resposta suficiente.
Passei a mão no rosto sentindo vontade de chorar.
— Meu Deus…
Lucas começou a andar pela sala desesperado.
— Eu juro que ia sair disso depois! Eu só precisava de dinheiro!
— Dinheiro pra quê?! Pra morrer antes dos vinte?!
— Tu não entende!
— ENTÃO ME EXPLICA!
Minha voz saiu mais alta do que eu queria.
Ele ficou em silêncio.
Depois falou quase sussurrando:
— A carga era importante.
Meu estômago gelou.
Muito importante.
Pela primeira vez senti medo de verdade.
Porque no Horizonte existiam erros que não tinham perdão.
E mexer com droga era um deles.
— Quem tá cobrando isso?
Lucas desviou o olhar.
Aquilo bastou pra me deixar ainda mais nervosa.
— Lucas…
Ele respirou fundo.
— Me deram até amanhã à noite pra pagar.
— Quanto?
Quando ele falou o valor, achei que tinha ouvido errado.
Era impossível.
A gente nunca teria aquele dinheiro.
Nunca.
— Isso não existe…
— Eu sei.
— Então como tu vai pagar?!
Ele começou a chorar.
Meu irmão.
O garoto que tentava pagar de durão o tempo todo.
Chorando igual criança.
— Eu não sei…
Aquilo destruiu alguma coisa dentro de mim.
Porque naquele momento eu percebi:
Lucas tava marcado.
E no Horizonte, gente marcada não costumava viver muito.
Sentei devagar ao lado dele.
— Quem te bateu?
— Os vapores.
— E amanhã?
Ele ficou quieto.
Silêncio.
Pesado.
Assustador.
Então ele me olhou.
E pela primeira vez naquela noite…
eu vi terror verdadeiro nos olhos do meu irmão.
— Se eu não pagar até amanhã…
Minha respiração falhou.
— Quem vem cobrar pessoalmente…
Ele engoliu seco.
— …é o Dominik.