Jamila permaneceu quieta depois da bronca de Ofélia. Seus olhos, antes encantados com as luzes e a música da festa, agora estavam baixos, carregados de vergonha e medo. Ela se afastou um pouco, ficando perto de uma coluna, como se tentasse desaparecer no meio de tanta gente importante.
Afonso não conseguiu tirar aquela cena da cabeça. A forma como sua mãe falou… o jeito que Jamila ficou, imóvel, como se já estivesse acostumada com aquilo. Aquilo o incomodou profundamente.
Ele respirou fundo, criando coragem, e caminhou até ela.
— Jamila… — chamou, em voz baixa.
Ela levantou os olhos rapidamente, assustada, como se esperasse outra repreensão. Ao ver que era Afonso, apenas abaixou a cabeça novamente.
— Desculpa, senhorzinho… — disse quase num sussurro. — Eu não quis fazer nada de errado.
Afonso franziu a testa ao ouvir aquilo. A forma como ela falava… como se sempre estivesse errada.
— Ei, não precisa me chamar assim — respondeu ele, um pouco sem jeito. — E você não fez nada de errado.
Jamila hesitou. Aquilo era estranho demais para ela.
— Mas… a sinhá Ofélia…
— Minha mãe exagerou — interrompeu ele, olhando ao redor para se certificar de que ninguém estava ouvindo. — Eu… eu só queria saber se você está bem.
Ela demorou alguns segundos para responder. Ninguém nunca perguntava aquilo.
— Estou, sim… — mentiu, com a voz fraca.
Afonso percebeu. Ele não era ingênuo.
— Você pode falar a verdade comigo — disse ele, mais baixo ainda. — Eu não vou te machucar.
Jamila apertou as mãos contra o vestido verde que Chinara havia arrumado para ela. Um vestido tão bonito… e agora parecia pesado em seu corpo.
— Eu só… não queria estragar a festa — confessou, com os olhos marejados. — Eu não estou acostumada com essas coisas.
Afonso sentiu um aperto no peito.
— Você não estragou nada — respondeu com firmeza. — Na verdade… — ele hesitou, mas decidiu falar — quando eu te vi… você estava… muito bonita.
Jamila arregalou levemente os olhos, surpresa. Aquela era, provavelmente, a primeira vez que alguém dizia algo assim para ela.
Ela não soube o que responder. Apenas abaixou o olhar, mas dessa vez havia algo diferente… um pequeno brilho, tímido.
— Obrigada… — murmurou.
Por um instante, o barulho da festa pareceu desaparecer para os dois.
Mas aquele momento não passou despercebido.
Do outro lado do salão, Ofélia observava. Seus olhos frios se estreitaram ao ver o filho conversando com Jamila daquela forma.
E naquele instante, algo ficou claro:
Aquilo não iria acabar bem.
Enquanto isso, Afonso ainda não sabia… mas aquele simples gesto de bondade começava a mudar tudo.Ofélia não tirava os olhos dos dois.
O sorriso leve que surgira no rosto de Jamila foi o suficiente para acender algo duro dentro dela. Aquilo não era permitido. Não naquela casa. Não com o seu filho.
— Santiago… — disse ela, em tom baixo, sem desviar o olhar. — Está vendo aquilo?
O senhor Santiago seguiu a direção dos olhos da esposa e suspirou, já prevendo o problema.
— É só uma conversa, Ofélia…
— Não é “só uma conversa” — respondeu ela, fria. — Aquela menina está esquecendo o lugar dela.
Enquanto isso, sem perceber o perigo que crescia ao redor, Afonso tentava manter a conversa.
— Você… gostou da festa? — perguntou, meio sem jeito.
Jamila olhou ao redor. As luzes, os vestidos, a música… tudo parecia tão distante agora.
— É bonita… — disse ela com sinceridade. — Mas não é lugar pra mim.
Afonso ficou em silêncio por um momento. Aquilo o incomodava mais do que ele queria admitir.
— E se fosse? — ele perguntou, impulsivamente.
Jamila o olhou, confusa.
— Não pode ser — respondeu com simplicidade. — Eu sei quem eu sou.
Antes que Afonso pudesse responder, uma voz firme cortou o momento:
— Jamila!
O corpo dela enrijeceu imediatamente.
Ofélia se aproximava, com passos controlados, mas com o olhar carregado de autoridade.
— Eu mandei você ficar perto de Sol — disse, sem sequer cumprimentar o filho. — Ou agora você também decidiu ignorar ordens?
— Desculpe, sinhá… — Jamila abaixou a cabeça rapidamente.
Afonso se colocou levemente à frente dela, sem pensar muito.
— Mãe, fui eu que chamei ela pra conversar.
Ofélia arqueou uma sobrancelha, surpresa com a atitude do filho.
— Pois não faça isso novamente — respondeu, seca. — Você não precisa desse tipo de companhia.
O clima pesou.
Afonso sentiu o rosto esquentar, mas não recuou.
— Ela não fez nada de errado.
O silêncio ao redor pareceu aumentar, como se até a música tivesse diminuído.
Ofélia se aproximou mais, agora olhando diretamente nos olhos do filho.
— E você está começando a fazer — disse, em tom baixo, porém firme. — Não me desafie em público.
Afonso travou o maxilar, segurando a resposta que queria dar.
Jamila, percebendo a tensão, deu um passo para trás.
— A culpa foi minha… — disse rapidamente. — Eu já vou voltar pra perto da sinhazinha Sol.
Ofélia não respondeu. Apenas a observou se afastar.
Jamila saiu dali com o coração acelerado, tentando não chorar. Cada passo parecia mais pesado que o outro.
Afonso ficou parado, olhando ela ir embora.
E naquele instante, algo dentro dele mudou de vez.
Ele não via mais Jamila apenas como “a menina que cuidava de sua irmã”.
Ele via a injustiça.
E isso… ele não conseguia mais ignorar.
Do outro lado do salão, Chinara observava tudo em silêncio.
Ela conhecia aquele olhar.
Sabia exatamente o que estava começando ali.
E também sabia…
Que quando sentimentos começam a nascer em lugares proibidos, o destino costuma cobrar um preço alto.