O sol já começava a desaparecer no horizonte quando a carruagem finalmente chegou à casa. O silêncio dominava o caminho de volta, mas o clima era pesado — Jamila sentia isso no peito. Sabia que Ofélia não deixaria aquilo passar.
Assim que desceram, Ofélia nem esperou. Sua voz cortou o ar, fria e autoritária:
— Jamila, venha comigo. Agora.
Jamila engoliu seco, abaixando a cabeça e seguindo até a sala. Suas mãos tremiam levemente. Chinara observava de longe, apreensiva, sem poder interferir.
Ao entrar, Ofélia fechou a porta com força.
— Você me fez passar vergonha! — disse, andando de um lado para o outro. — Uma escrava se achando no direito de aparecer daquela forma… chamando atenção!
Jamila tentou falar, com a voz baixa:
— Eu… só fiz o que mandaram, senhora…
— Cala-se! — Ofélia gritou.
Ela se aproximou, erguendo a mão como se fosse bater. Jamila fechou os olhos, se preparando…
— MÃE, NÃO!
A porta se abriu de repente. Sol entrou correndo, com os olhos cheios de lágrimas, ficando na frente de Jamila.
— A culpa não é dela! Fui eu que quis levar ela! — disse, firme, mesmo sendo pequena.
Logo atrás, Afonso apareceu, sério, encarando a mãe:
— A senhora está sendo injusta. Jamila não fez nada de errado.
Ofélia olhou incrédula para os dois filhos.
— Vocês estão me desafiando agora?
— Não é desafio — respondeu Afonso, calmo, mas firme. — É o certo.
Nesse momento, Santiago apareceu na porta, atraído pela discussão. Ele observou a cena por alguns segundos antes de falar:
— Já chega, Ofélia.
Ela virou-se para ele, indignada:
— Você vai permitir isso? Seus filhos defendendo uma escrava?
Santiago cruzou os braços.
— Eu vou permitir justiça. E, pelo que vi, ela não merece castigo nenhum.
O silêncio tomou conta da sala. Ofélia respirava com raiva, sentindo-se contrariada por todos os lados.
Sol segurou a mão de Jamila com força, como se estivesse protegendo algo precioso. Afonso permaneceu ao lado delas, firme.
Por fim, Ofélia abaixou a mão lentamente, ainda furiosa.
— Isso não acabou… — disse, antes de sair da sala, batendo a porta.
Jamila ainda estava imóvel, surpresa… mas, pela primeira vez, não estava sozinha.
Sol sorriu para ela, tentando acalmá-la.
— Eu não vou deixar ninguém te machucar.
Afonso concordou com um leve aceno.
E naquele momento, algo mudava dentro daquela casa… algo que Ofélia começava a perder: o controle.
A sala ainda parecia carregar o peso da discussão, mas aos poucos tudo foi se acalmando. Santiago saiu em silêncio, e Sol, ainda segurando a mão de Jamila, sorriu com carinho.
— Vem, vamos sair daqui… — disse a menina, puxando-a suavemente.
Os três foram para o jardim, onde o ar fresco ajudava a aliviar a tensão. O céu já estava escuro, com algumas estrelas começando a aparecer.
Sol logo se distraiu, correndo atrás de uma borboleta que ainda voava por ali. Isso deixou Jamila e Afonso sozinhos por alguns instantes.
O silêncio entre os dois era diferente… não era pesado, mas tímido.
Afonso foi o primeiro a falar:
— Você tá bem?
Jamila hesitou por um momento, olhando para o chão.
— Tô… já estou acostumada…
Afonso franziu a testa, incomodado com aquela resposta.
— Não devia estar acostumada com isso.
Ela levantou o olhar, surpresa com o tom dele. Ninguém nunca tinha dito algo assim.
— Aqui… é assim que as coisas são — respondeu, com a voz baixa.
Afonso deu um passo mais perto.
— Nem tudo precisa continuar sendo.
Jamila sentiu o coração acelerar. Havia algo diferente nele… algo que ela não entendia completamente, mas que a fazia se sentir… segura.
— Por que você me defendeu? — ela perguntou, quase num sussurro.
Afonso não desviou o olhar.
— Porque foi injusto. E… — ele hesitou por um segundo — porque eu me importo.
O silêncio voltou, mas dessa vez carregado de emoção.
Jamila não sabia o que dizer. Nunca ninguém tinha dito aquilo para ela.
Sol voltou correndo, rindo:
— Vocês estão muito quietos!
Afonso sorriu de leve, mas seus olhos ainda estavam em Jamila.
— Só conversando.
Sol olhou de um para o outro, desconfiada, mas logo deu de ombros.
— Vamos brincar!
Ela puxou Jamila, e aos poucos o clima ficou mais leve. Pela primeira vez em muito tempo, Jamila riu… de verdade.
Mas, enquanto brincavam, Afonso observava.
E naquele instante, ele percebeu algo que já não podia negar…
Jamila não era apenas alguém que ele queria proteger.
Era alguém que estava começando a mexer com o coração dele.
A noite já havia caído por completo. A casa estava silenciosa, iluminada apenas pelas luzes suaves dos corredores. No quarto do casal, Ofélia caminhava de um lado para o outro, claramente inquieta.
Santiago estava sentado, tirando as luvas com calma, como se não quisesse alimentar a tensão.
— Você viu? — Ofélia disse de repente, parando e olhando para ele.
— Vi muita coisa hoje… — respondeu ele, sem pressa.
— Não se faça de desentendido, Santiago. — A voz dela ficou mais firme. — Eu vi o jeito que o Afonso olhou para aquela menina.
Santiago suspirou, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Ele só estava defendendo alguém que estava sendo tratado com injustiça.
Ofélia soltou uma risada seca.
— Não. Não foi só isso. Aquilo… — ela hesitou, mas logo continuou — aquilo foi sentimento.
Santiago levantou o olhar, agora mais atento.
— Ele é jovem, Ofélia.
— E ela é uma escrava! — ela rebateu, com dureza. — Você entende o que isso significa?
O silêncio pairou por alguns segundos.
— Eu entendo — disse Santiago, mais sério. — Mas também entendo que não se controla o que se sente.
Ofélia se aproximou, encarando-o.
— Pois eu controlo o que acontece dentro dessa casa.
Santiago se levantou lentamente.
— Cuidado, Ofélia. Quanto mais você tentar forçar, pior pode ficar.
Ela cruzou os braços, irritada.
— Eu não vou permitir que meu filho se envolva com ela. Isso seria uma vergonha.
— Vergonha é injustiça — respondeu ele, firme. — E foi isso que você fez hoje.
Ofélia o encarou, ferida no orgulho.
— Então você está do lado deles?
Santiago não hesitou:
— Estou do lado do que é certo.
Isso a fez respirar fundo, tentando conter a raiva. Seus olhos então ganharam um brilho diferente… mais frio, calculista.
— Se há algo acontecendo… — disse ela, lentamente — eu vou acabar com isso antes que cresça.
Santiago percebeu o tom, mas não respondeu de imediato. Apenas a observou, como se já previsse problemas.
— Não transforme isso em algo pior do que já é — ele alertou.
Ofélia virou-se de costas.
— Já é pior do que você imagina.
Enquanto isso, do lado de fora, o vento soprava pelas janelas… como se anunciasse que algo estava prestes a mudar.
Ofélia agora não via Jamila apenas como uma serva…
Mas como uma ameaça.