Sol não esperou.
Assim que voltou para a casa, ainda ofegante e nervosa, foi direto procurar o pai. Encontrou Santiago no escritório, como de costume, analisando papéis e contas da fazenda.
— Pai, eu preciso falar com o senhor — disse, sem rodeios.
Santiago levantou os olhos, percebendo a seriedade na voz da filha.
— O que foi agora, Sol?
Ela respirou fundo.
— É sobre o feitor.
O semblante de Santiago mudou levemente, mas ele permaneceu calmo.
— O que tem ele?
— Ele tá perseguindo a Jamila — disse, direta. — Hoje mesmo… ele apareceu de novo. A gente teve que se esconder.
Santiago recostou-se na cadeira, pensativo, mas sem demonstrar urgência.
— Você tem certeza do que está dizendo?
Sol franziu o cenho, indignada.
— Claro que tenho! Eu vi!
Um silêncio se instalou por um instante.
Então Santiago falou, com uma calma que incomodou:
— Ele é um dos meus melhores feitores.
Sol não acreditou no que ouviu.
— Pai…
— É um homem de confiança — continuou ele. — Nunca me deu problema.
— Mas tá dando agora! — insistiu ela.
Santiago soltou um leve suspiro.
— Sol… isso é comum.
Ela ficou em choque.
— Como assim comum?
— Homens como ele… se interessarem por uma escrava jovem… acontece — disse ele, sem peso na voz. — Ainda mais uma como Jamila.
As palavras caíram como um golpe.
— Então o senhor não vai fazer nada? — perguntou Sol, a voz falhando entre raiva e incredulidade.
— Vou observar — respondeu Santiago. — Mas não vou punir um homem fiel por causa de uma suspeita.
Sol deu um passo para trás.
— Não é suspeita…
Mas ele já havia voltado os olhos para os papéis.
— Esse assunto termina aqui.
Sol saiu dali com o coração apertado.
Do lado de fora, alguém havia ouvido tudo.
Ofélia.
Parada no corredor, em silêncio.
Seus olhos estavam frios… mas agora carregavam algo a mais.
Um plano.
Ela não entrou no escritório. Apenas se afastou lentamente, pensando.
— Então é assim… — murmurou para si mesma.
Na mente dela, as peças começavam a se encaixar.
Jamila.
A proximidade com Sol.
Os olhares de Afonso.
E agora… o feitor.
Um leve sorriso surgiu em seus lábios.
Mas não era um sorriso bom.
Era calculado.
Perigoso.
— Se essa menina acha que pode subir de lugar… — pensou ela — eu mesma vou mostrar onde é o lugar dela.
Ofélia sabia exatamente como fazer isso.
E o feitor… seria a peça perfeita.
Naquele momento, enquanto Sol voltava frustrada e Jamila ainda tentava se recuperar do medo…
algo muito pior começava a se formar.
Não era mais apenas o perigo de um homem.
Era um jogo.
E Ofélia…
tinha acabado de decidir jogar.
O restante do dia seguiu com um peso estranho no ar.
Sol voltou para perto de Jamila com o rosto fechado, diferente do seu jeito leve de sempre. Jamila percebeu na mesma hora.
— O que aconteceu? — perguntou, em voz baixa, enquanto organizava alguns panos.
Sol hesitou, mas acabou dizendo:
— Falei com meu pai.
Jamila parou.
— E…?
Sol desviou o olhar, frustrada.
— Ele não vai fazer nada.
O silêncio que veio depois foi pesado.
Jamila já esperava… mas ouvir aquilo ainda doeu.
— Ele disse que o feitor é de confiança… — continuou Sol, com raiva — e que isso é “normal”.
Jamila abaixou a cabeça.
— Pra eles… é mesmo.
Sol se aproximou, indignada.
— Não! Não é!
Mas Jamila apenas deu um pequeno sorriso triste.
— Aqui… é assim que funciona.
Antes que Sol pudesse responder, passos firmes ecoaram pelo corredor.
Ofélia.
— Jamila — chamou, com a voz fria.
As duas se viraram imediatamente.
— Sim, senhora — respondeu Jamila, abaixando o olhar.
Ofélia se aproximou lentamente, analisando cada detalhe dela.
— Preciso que você leve alguns tecidos até o depósito no fundo da propriedade.
Chinara, que estava próxima, se adiantou.
— Eu posso ir no lugar dela, senhora.
Ofélia nem olhou para ela.
— Eu pedi a Jamila.
O tom não deixava espaço para discussão.
Jamila sentiu um frio subir pela espinha.
— Sim, senhora.
Sol percebeu na mesma hora.
— Eu posso ir junto — disse rapidamente.
Ofélia virou o rosto, encarando a filha.
— Não.
Simples. Direto.
— Você tem outras coisas para fazer.
Sol apertou os punhos, mas não respondeu.
Jamila pegou os tecidos com mãos levemente trêmulas.
Antes de sair, Chinara segurou discretamente seu braço.
— Cuidado — sussurrou.
Jamila assentiu.
E saiu.
O caminho até o depósito era mais afastado.
Silencioso demais.
Cada passo parecia mais pesado que o outro.
O coração de Jamila batia forte… como se já soubesse.
Quando chegou perto do local, parou.
O ambiente estava quieto.
Vazio.
Mas não por muito tempo.
— Eu sabia que você vinha.
A voz surgiu atrás dela.
O corpo de Jamila gelou.
Ela se virou lentamente.
O feitor estava ali.
Encostado na parede, como se já estivesse esperando há muito tempo.
Os olhos fixos nela.
— Foi ela que mandou você, não foi? — disse ele, com um sorriso torto.
Jamila deu um passo para trás.
— Me deixa passar…
Ele riu.
— Hoje não tem ninguém pra te salvar.
Mais um passo dele.
Menos espaço pra ela.
— Eu fui paciente… tempo demais — continuou. — Agora você vai parar de fugir.
Jamila tentou correr.
Mas ele foi mais rápido.
Segurou seu braço com força, puxando-a.
— Me solta!
— Para de lutar! — rosnou ele.
Jamila gritou.
— SOCORRO!
Mas o lugar era isolado.
E parecia longe demais da casa.
O medo virou desespero.
Ela se debatia, tentando se soltar.
— Me deixa!
O feitor tentou imobilizá-la, segurando com mais força.
— Ninguém vai ouvir!
Mas alguém ouviu.
Passos rápidos.
Correndo.
— LARGA ELA!
A voz veio forte.
Afonso.
Ele apareceu no caminho, ofegante, com o olhar tomado de fúria.
Sem pensar, avançou e empurrou o feitor com força, afastando-o de Jamila.
— Eu disse pra não encostar nela!
O feitor se recuperou, irritado.
— Isso já tá passando dos limites…
Mas Afonso não recuou.
— Quem tá passando dos limites é você!
Os dois ficaram frente a frente.
Tensão pura.
Por um segundo… parecia que ia piorar.
Mas o feitor recuou, olhando de Afonso para Jamila.
— Isso não acabou — disse, com raiva contida.
E foi embora.
Jamila estava tremendo.
Afonso se virou imediatamente para ela.
— Você tá bem?
Ela não conseguiu responder.
Só assentiu, tentando segurar as lágrimas.
Ele olhou ao redor, desconfiado.
— Isso não foi coincidência…
Jamila olhou para ele.
— Foi a senhora… — disse, quase sem voz.
Afonso entendeu na hora.
O olhar dele mudou.
Agora não era só raiva.
Era algo mais profundo.
Perigo.
— Vem — disse ele, com firmeza. — Você não vai ficar sozinha.