Capítulo 11

1146 Palavras
Sol não esperou. Assim que voltou para a casa, ainda ofegante e nervosa, foi direto procurar o pai. Encontrou Santiago no escritório, como de costume, analisando papéis e contas da fazenda. — Pai, eu preciso falar com o senhor — disse, sem rodeios. Santiago levantou os olhos, percebendo a seriedade na voz da filha. — O que foi agora, Sol? Ela respirou fundo. — É sobre o feitor. O semblante de Santiago mudou levemente, mas ele permaneceu calmo. — O que tem ele? — Ele tá perseguindo a Jamila — disse, direta. — Hoje mesmo… ele apareceu de novo. A gente teve que se esconder. Santiago recostou-se na cadeira, pensativo, mas sem demonstrar urgência. — Você tem certeza do que está dizendo? Sol franziu o cenho, indignada. — Claro que tenho! Eu vi! Um silêncio se instalou por um instante. Então Santiago falou, com uma calma que incomodou: — Ele é um dos meus melhores feitores. Sol não acreditou no que ouviu. — Pai… — É um homem de confiança — continuou ele. — Nunca me deu problema. — Mas tá dando agora! — insistiu ela. Santiago soltou um leve suspiro. — Sol… isso é comum. Ela ficou em choque. — Como assim comum? — Homens como ele… se interessarem por uma escrava jovem… acontece — disse ele, sem peso na voz. — Ainda mais uma como Jamila. As palavras caíram como um golpe. — Então o senhor não vai fazer nada? — perguntou Sol, a voz falhando entre raiva e incredulidade. — Vou observar — respondeu Santiago. — Mas não vou punir um homem fiel por causa de uma suspeita. Sol deu um passo para trás. — Não é suspeita… Mas ele já havia voltado os olhos para os papéis. — Esse assunto termina aqui. Sol saiu dali com o coração apertado. Do lado de fora, alguém havia ouvido tudo. Ofélia. Parada no corredor, em silêncio. Seus olhos estavam frios… mas agora carregavam algo a mais. Um plano. Ela não entrou no escritório. Apenas se afastou lentamente, pensando. — Então é assim… — murmurou para si mesma. Na mente dela, as peças começavam a se encaixar. Jamila. A proximidade com Sol. Os olhares de Afonso. E agora… o feitor. Um leve sorriso surgiu em seus lábios. Mas não era um sorriso bom. Era calculado. Perigoso. — Se essa menina acha que pode subir de lugar… — pensou ela — eu mesma vou mostrar onde é o lugar dela. Ofélia sabia exatamente como fazer isso. E o feitor… seria a peça perfeita. Naquele momento, enquanto Sol voltava frustrada e Jamila ainda tentava se recuperar do medo… algo muito pior começava a se formar. Não era mais apenas o perigo de um homem. Era um jogo. E Ofélia… tinha acabado de decidir jogar. O restante do dia seguiu com um peso estranho no ar. Sol voltou para perto de Jamila com o rosto fechado, diferente do seu jeito leve de sempre. Jamila percebeu na mesma hora. — O que aconteceu? — perguntou, em voz baixa, enquanto organizava alguns panos. Sol hesitou, mas acabou dizendo: — Falei com meu pai. Jamila parou. — E…? Sol desviou o olhar, frustrada. — Ele não vai fazer nada. O silêncio que veio depois foi pesado. Jamila já esperava… mas ouvir aquilo ainda doeu. — Ele disse que o feitor é de confiança… — continuou Sol, com raiva — e que isso é “normal”. Jamila abaixou a cabeça. — Pra eles… é mesmo. Sol se aproximou, indignada. — Não! Não é! Mas Jamila apenas deu um pequeno sorriso triste. — Aqui… é assim que funciona. Antes que Sol pudesse responder, passos firmes ecoaram pelo corredor. Ofélia. — Jamila — chamou, com a voz fria. As duas se viraram imediatamente. — Sim, senhora — respondeu Jamila, abaixando o olhar. Ofélia se aproximou lentamente, analisando cada detalhe dela. — Preciso que você leve alguns tecidos até o depósito no fundo da propriedade. Chinara, que estava próxima, se adiantou. — Eu posso ir no lugar dela, senhora. Ofélia nem olhou para ela. — Eu pedi a Jamila. O tom não deixava espaço para discussão. Jamila sentiu um frio subir pela espinha. — Sim, senhora. Sol percebeu na mesma hora. — Eu posso ir junto — disse rapidamente. Ofélia virou o rosto, encarando a filha. — Não. Simples. Direto. — Você tem outras coisas para fazer. Sol apertou os punhos, mas não respondeu. Jamila pegou os tecidos com mãos levemente trêmulas. Antes de sair, Chinara segurou discretamente seu braço. — Cuidado — sussurrou. Jamila assentiu. E saiu. O caminho até o depósito era mais afastado. Silencioso demais. Cada passo parecia mais pesado que o outro. O coração de Jamila batia forte… como se já soubesse. Quando chegou perto do local, parou. O ambiente estava quieto. Vazio. Mas não por muito tempo. — Eu sabia que você vinha. A voz surgiu atrás dela. O corpo de Jamila gelou. Ela se virou lentamente. O feitor estava ali. Encostado na parede, como se já estivesse esperando há muito tempo. Os olhos fixos nela. — Foi ela que mandou você, não foi? — disse ele, com um sorriso torto. Jamila deu um passo para trás. — Me deixa passar… Ele riu. — Hoje não tem ninguém pra te salvar. Mais um passo dele. Menos espaço pra ela. — Eu fui paciente… tempo demais — continuou. — Agora você vai parar de fugir. Jamila tentou correr. Mas ele foi mais rápido. Segurou seu braço com força, puxando-a. — Me solta! — Para de lutar! — rosnou ele. Jamila gritou. — SOCORRO! Mas o lugar era isolado. E parecia longe demais da casa. O medo virou desespero. Ela se debatia, tentando se soltar. — Me deixa! O feitor tentou imobilizá-la, segurando com mais força. — Ninguém vai ouvir! Mas alguém ouviu. Passos rápidos. Correndo. — LARGA ELA! A voz veio forte. Afonso. Ele apareceu no caminho, ofegante, com o olhar tomado de fúria. Sem pensar, avançou e empurrou o feitor com força, afastando-o de Jamila. — Eu disse pra não encostar nela! O feitor se recuperou, irritado. — Isso já tá passando dos limites… Mas Afonso não recuou. — Quem tá passando dos limites é você! Os dois ficaram frente a frente. Tensão pura. Por um segundo… parecia que ia piorar. Mas o feitor recuou, olhando de Afonso para Jamila. — Isso não acabou — disse, com raiva contida. E foi embora. Jamila estava tremendo. Afonso se virou imediatamente para ela. — Você tá bem? Ela não conseguiu responder. Só assentiu, tentando segurar as lágrimas. Ele olhou ao redor, desconfiado. — Isso não foi coincidência… Jamila olhou para ele. — Foi a senhora… — disse, quase sem voz. Afonso entendeu na hora. O olhar dele mudou. Agora não era só raiva. Era algo mais profundo. Perigo. — Vem — disse ele, com firmeza. — Você não vai ficar sozinha.
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