Capítulo 10

1163 Palavras
Jamila se deitou na cama, sentindo algo que há muito tempo não sentia: maciez. O tecido limpo, o cheiro leve… tudo era estranho demais. Ela virou de um lado para o outro algumas vezes, olhando para o teto, como se não acreditasse que estava ali. Cada pequeno barulho fazia seu corpo se enrijecer. Passos no corredor. Uma porta ao longe. O rangido da madeira. Nada ali era familiar. No outro canto, Chinara também não dormia. Estava deitada, olhos abertos, atenta a qualquer movimento. — Tá acordada? — sussurrou Jamila. — Tô — respondeu Chinara, baixo. — Você também não consegue dormir? Chinara soltou um suspiro leve. — Quando a vida inteira a gente dorme em alerta… é difícil desligar de repente. Jamila ficou em silêncio por um momento. — Aqui parece mais seguro… — Parece — corrigiu Chinara. — Mas não esquece do que eu te falei. Jamila apertou levemente a pulseira no pulso. — Eu não vou esquecer. O silêncio voltou. Aos poucos, o cansaço venceu. E, pela primeira vez em muito tempo… Jamila dormiu sem o barulho da senzala, sem o cheiro abafado, sem o frio da madrugada. Mas não sem sonhos. Sonhos confusos. Mistura de medo… e sentimentos que ela ainda não sabia lidar. O dia seguinte chegou cedo. Mesmo dentro da casa, a rotina não mudava tanto assim. Antes mesmo do sol nascer completamente, uma batida leve na porta acordou as duas. — Acordem — disse uma voz do lado de fora. — Já está na hora. Chinara foi a primeira a levantar. — Vamos — disse, firme. Jamila ainda se ajustava, meio sonolenta, mas logo se levantou também. O frio do chão era diferente… menos agressivo, mas ainda real. As duas se arrumaram rapidamente e saíram para começar o trabalho. Na casa-grande, tudo já estava em movimento. Panelas no fogo. Passos apressados. Ordens sendo dadas. — Vocês duas — chamou uma das mulheres da cozinha — venham ajudar aqui. Jamila e Chinara começaram o dia limpando, organizando e preparando o café da manhã. O trabalho era intenso, mas diferente da lavoura. Ainda assim, não havia descanso. Enquanto se movia pela casa, Jamila sentia os olhares. Alguns curiosos. Outros desconfiados. E um em especial… pesado. Ofélia. A senhora observava de longe, com expressão fria. — Então é aqui que vocês vão ficar agora… — disse ela, se aproximando. Jamila abaixou o olhar imediatamente. — Sim, senhora. Ofélia analisou cada detalhe, como se estivesse procurando falhas. — Não pense que isso muda alguma coisa — disse, com frieza. — Continuam sendo o que são. — Sim, senhora — respondeu Chinara, com respeito. Ofélia se virou, mas antes de sair, lançou mais uma frase: — E qualquer erro… será punido. O recado estava dado. Jamila sentiu um aperto no peito. Mas antes que pudesse pensar mais, uma voz mais leve surgiu atrás. — Bom dia… Era Sol. Com um sorriso discreto, mas sincero. — Dormiram bem? Jamila olhou para ela. — Sim… obrigada. Sol percebeu o clima. — Não liga pra minha mãe. Chinara trocou um olhar rápido com Jamila, mas permaneceu em silêncio. Pouco depois, Afonso apareceu. Ele parou por um instante ao ver Jamila ali, dentro da casa, como se ainda estivesse se acostumando com aquilo. — Bom dia — disse ele, tentando parecer natural. — Bom dia, senhor — respondeu Jamila, controlando a voz. O olhar dos dois se encontrou por um breve segundo. Mas foi o suficiente. O suficiente para lembrar tudo. A noite. O rio. O perigo. E o sentimento. Afonso desviou o olhar primeiro, seguindo caminho. Mas algo já estava claro. A presença de Jamila dentro da casa… não iria trazer apenas proteção. Ia mexer com todos. E o novo dia que começava… trazia consigo novas tensões. E novas possibilidades. Jamila e Chinara passaram a manhã entre panelas, panos e ordens. O ritmo era intenso, e qualquer erro parecia maior sob o olhar atento de Ofélia. Ainda assim, havia algo diferente… Jamila não estava mais na senzala. Isso mudava tudo — e ao mesmo tempo, não mudava nada. Depois do almoço, Sol apareceu novamente. — Jamila, vem comigo um pouco — disse, em tom mais leve, tentando puxar um momento de respiro. Jamila olhou para Chinara, pedindo permissão com o olhar. Chinara hesitou por um segundo… mas assentiu. — Não demora. E fica atenta. Jamila concordou. As duas saíram pelos fundos da casa, caminhando por um caminho mais afastado, cercado por árvores e sombra. Sol parecia animada, como sempre. — Você quase não saiu hoje… achei que precisava de ar — disse ela. Jamila deu um pequeno sorriso. — Obrigada… eu precisava mesmo. Por alguns minutos, tudo pareceu tranquilo. O som dos pássaros, o vento leve… Sol falando de coisas simples, como fazia desde criança. Mas então… Passos. Quebrando galhos. Pesados. Jamila parou na mesma hora. Seu corpo reagiu antes mesmo da mente. — O que foi? — perguntou Sol, confusa. Jamila levou o dedo aos lábios. — Shhh… Ela puxou Sol rapidamente para trás de um tronco grosso de árvore, escondendo-se. Sol começou a entender que algo estava errado. — É ele… — sussurrou Jamila, quase sem voz. O feitor apareceu no caminho. Caminhando devagar. O olhar atento… procurando. Como se já soubesse. Jamila segurou o braço de Sol com força, o coração disparado. O silêncio era absoluto. O feitor parou. Olhou ao redor. Deu mais alguns passos. Por um instante, pareceu que iria seguir adiante… Mas então ele virou o rosto na direção onde elas estavam escondidas. Jamila prendeu a respiração. Sol também ficou imóvel. O homem ficou ali por alguns segundos, em silêncio… observando. Até que, lentamente, um leve sorriso surgiu em seu rosto. Um sorriso que não trazia nada de bom. — Eu sei que você tá por aqui… — disse ele, em voz baixa, mas suficiente para gelar o sangue. Jamila sentiu o medo subir pelo corpo inteiro. Mas não se moveu. Não fez som. Nada. O tempo parecia não passar. Então, finalmente… O feitor virou as costas e continuou andando, se afastando aos poucos. Os passos foram ficando mais distantes… até desaparecerem. Mesmo assim, Jamila não saiu do lugar. — Já foi… — sussurrou Sol, nervosa. — Espera… — respondeu Jamila, ainda com medo. Só depois de alguns minutos, ela teve coragem de espiar. O caminho estava vazio. Jamila soltou o ar que nem percebeu que estava segurando. Sol olhou para ela, assustada. — É ele, né? Jamila assentiu. — Ele não vai parar… Sol engoliu seco. — A gente precisa contar pro meu pai. Jamila olhou para ela, com um misto de dúvida e receio. — E se… piorar? Sol ficou em silêncio por um instante. — E se a gente não fizer nada? As duas se olharam. O medo estava ali. Mas agora… não era só de Jamila. Era das duas. E pela primeira vez… Sol começava a entender que aquilo era maior do que apenas um problema. Era um perigo real. E cada vez mais próximo.
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