Capítulo 05: Raízes do morro

1119 Palavras
Mariana subia a ladeira que levava ao seu lar no Complexo da Maré, o sol ainda alto no céu de um fim de tarde. Era cerca de 16:00, e ela estava voltando da faculdade de advocacia, onde estudava com dedicação na esperança de um futuro melhor. Ao chegar perto da escadaria que conduzia à sua casa, um cenário perturbador chamou sua atenção. Ela parou por um instante, sentindo um calafrio percorrer sua espinha ao notar um grupo de garotos reunidos ao redor de uma mesa improvisada. A mesa, coberta com um pano sujo, exibia vários tipos de drogas. Os jovens, com expressões endurecidas pela vida no morro, negociavam com uma calma assustadora. Mariana nunca imaginara que a favela onde vivia fosse tão abertamente dominada pelo tráfico. O cheiro acre das drogas misturava-se com o ar pesado e quente da tarde, criando uma atmosfera sufocante. Mariana sentiu o coração acelerar, seus passos hesitaram. Ela sempre soube da presença do tráfico no complexo, mas ver a operação tão explicitamente era algo que não conseguia processar facilmente. Havia algo de profundamente perturbador em testemunhar a normalidade com que aquelas crianças lidavam com a ilegalidade. Enquanto ela se movia com cuidado, tentando não chamar atenção, percebeu homens armados com fuzis, parados em pontos estratégicos, observando a cena com olhares vigilantes. A presença deles era intimidante, suas figuras imponentes transmitiam uma sensação de poder incontestável. Mariana desviou o olhar, mas não pôde evitar o temor crescente que se apossava dela. Ela continuou andando, tentando se misturar à rotina da comunidade. Seus pensamentos estavam confusos, um turbilhão de sentimentos contraditórios. Mariana sabia que muitos daqueles jovens não tinham escolha, que o tráfico era a única oportunidade que lhes restava em um mundo onde as opções eram escassas. Mas isso não tornava a situação menos aterrorizante. Passando por uma viela estreita, ela ouviu fragmentos de conversas entre os traficantes. Eles falavam de suas operações com uma naturalidade que a fez sentir um nó no estômago. A brutalidade de suas vidas era tratada como rotina, e Mariana não conseguia deixar de pensar na vulnerabilidade daquelas crianças, empurradas para um caminho sem retorno. Quando ela finalmente se afastou da escadaria e dos olhares dos traficantes, respirou um pouco mais aliviada, mas a tensão não desapareceu completamente. Mariana continuou a caminhada até sua casa, passando por outras cenas cotidianas da favela – mães chamando os filhos para dentro de casa, vendedores ambulantes oferecendo seus produtos, crianças brincando descalças nas ruas de terra batida. Tudo parecia seguir seu curso, alheio ao mundo sombrio que havia se revelado para ela. Mariana finalmente chegou em casa, sentindo um alívio ao fechar a porta atrás de si. O ambiente familiar e acolhedor de seu lar oferecia um contraste marcante com a cena perturbadora que acabara de presenciar. Sua respiração estava acelerada, e seu coração ainda batia rápido. Ela se recostou na porta por um momento, tentando se acalmar e processar o que havia visto. Mariana era do interior de Minas Gerais, e tinha vindo para o Rio de Janeiro graças a uma bolsa de estudos, apesar da resistência de seus pais. Eles sempre assistiam ao jornal e sabiam dos perigos e da criminalidade das favelas do Rio. Mariana também sabia, mas ver tudo tão de perto era uma experiência assustadora e diferente de tudo o que ela tinha imaginado. Enquanto tentava recuperar a compostura, sua tia, Dona Clara, entrou na sala. Clara era uma mulher de meia - idade, com cabelos grisalhos e olhos cheios de preocupação. Ao ver Mariana pálida e visivelmente abalada, seu rosto se encheu de alarme. — Mariana, o que aconteceu? Você está bem? — perguntou Dona Clara, aproximando-se rapidamente da sobrinha. Mariana tentou esboçar um sorriso, mas falhou. Sua mente ainda estava presa nas imagens dos garotos vendendo drogas e dos homens armados com fuzis. — Eu... estou bem, tia. Foi só um dia difícil na faculdade. — respondeu Mariana, tentando manter a voz firme. Dona Clara não se convenceu. Ela conhecia sua filha bem demais para acreditar naquela resposta simplista. — Não minta para mim, Mariana. Você está pálida. O que aconteceu de verdade? — insistiu Clara, com a voz cheia de preocupação. Mariana respirou fundo, sentindo as lágrimas ameaçarem escorrer pelo seu rosto. — Tia, eu vi... eu vi coisas horríveis hoje. — começou Mariana, sua voz trêmula. — Tinha uma mesa cheia de drogas, e meninos tão jovens vendendo como se fosse a coisa mais normal do mundo. E havia homens armados, com fuzis, vigiando tudo. A tia de Mariana, Dona Clara, tentou tranquilizá-la, compreendendo o choque da sobrinha ao ver a dura realidade da comunidade. — Mariana, eu sei que é assustador, mas aqui na comunidade isso é mais comum do que deveria ser. — disse Dona Clara, sua voz suave e reconfortante. — Só não fica encarando muito, tá? Eles não vão te fazer m*l se você não se meter nos negócios deles. Mariana olhou para a tia, os olhos ainda cheios de medo e incredulidade. — Mas tia, como pode ser normal viver assim? Como as pessoas conseguem lidar com isso todos os dias? — perguntou Mariana, tentando entender como aquela realidade era aceita por todos ao seu redor. Dona Clara suspirou, sentando-se ao lado de Mariana e segurando suas mãos. — A gente se acostuma, Mariana. Não é fácil, e não deveria ser assim, mas as pessoas aqui fazem o possível para viver suas vidas. — explicou Dona Clara. — Muitas dessas crianças e jovens não têm outra escolha. É a única forma que encontram para ajudar suas famílias a sobreviver. — Eu entendo que a situação seja difícil, mas ver isso de perto... é muito diferente de ouvir falar ou ver na televisão. — disse Mariana, ainda tentando processar tudo. — Eu sei, minha querida. — respondeu Dona Clara, apertando as mãos de Mariana com carinho. — Mas você é forte. Vai conseguir se adaptar e, quem sabe, fazer a diferença como sempre quis. Mariana respirou fundo, tentando absorver as palavras da tia. Ela sabia que Dona Clara tinha razão, mas ainda era difícil aceitar aquela realidade tão brutal. — Eu vou tentar, tia. Mas promete que vai me ajudar a entender melhor tudo isso? — pediu Mariana, seus olhos implorando por orientação. Dona Clara sorriu, acariciando o rosto da sobrinha. — Prometo, Mariana. Vamos passar por isso juntas. — assegurou ela, abraçando a sobrinha com carinho. Mariana se sentiu um pouco mais calma com as palavras de Dona Clara. Ainda havia muito a entender e aceitar, mas saber que não estava sozinha naquela jornada tornava tudo um pouco mais suportável. Ela sabia que, com o tempo, poderia encontrar seu lugar e talvez até fazer a diferença que tanto desejava.
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