Ao longe, mesmo com a atenção parcialmente voltada para Leo, Mia sentiu um puxão gélido no elo que a ligava à alcateia. Um arrepio percorreu sua espinha. Algo se movia na mansão. Lobos inimigos, astutos e persistentes, avançavam com fúria, tentando invadir o interior.
Bryan, transformado em Bones, erguia-se como uma muralha cinza-tempestade na entrada principal, bloqueando cada avanço com rugidos que faziam o próprio ar vibrar. Seus músculos tensionados, cada movimento calculado, protegiam os filhotes que carregava cuidadosamente.
— Bones! — Mia gritou mentalmente, sentindo a pontada aguda de dor reverberar através do elo que os ligava. — Ele está ferido!
“Dardos de acônito”, a voz de Mika ecoou na mente dela, tensa e urgente. — Eles estão envenenando a todos, esse veneno é letal para nós …
Mia ergueu-se com determinação. Não podia deixar o irmão agonizando, mas precisava descobrir o que realmente acontecia. Um calafrio percorreu sua espinha, mais profundo que o medo. Então, um rugido através do link mental disparou pela alcateia:
— ELES QUEREM CHEGAR NOS FILHOTES! — Ben rugiu com urgência. — Concentrem-se na mansão!
Ela avançou, finalmente vendo Bryan mais próximo do que imaginava. Sobre suas costas estavam os três filhotes deles: Logan, assustado, segurava Lauren; Luke agarrava o irmão como se sua vida dependesse disso — e, de fato, dependia. Bones rugiu, um som profundo que fez todos os inimigos cambalear, incapazes de suportar aquela onda de poder. Cada movimento de seu corpo era calculado, brutal, uma dança de força e fúria que nenhum inimigo ousaria enfrentar de frente.
Mia sentiu algo estranho. Sua aura etérea irradiava com força antiga, compartilhando poder com a alcateia. Uma onda de cura e força fluiu de si para todos os lobos. A lua parecia maior, cheia, intensa, como se estivesse observando a batalha abaixo. Um vínculo místico se formava — mas o presságio sombrio ainda pairava. A própria Selene estava com eles, ela sentia isso no fundo de sua alma. Por um instante ela fechou os olhos e falou “ Mãe esteja do nosso lado nessa batalha”
De repente, a lua começou a sangrar. Bordas vermelhas surgiram, se espalhando pelo orbe prateado, transformando-o em um olho rubro. O pânico tomou conta de Mia. O sangue da batalha parecia estar sendo drenado para o céu. Um frio sobrenatural surgiu, cortante, e uma presença que não pertencia àquele mundo tomou forma diante dela.
Ela olhou, e lá estava ele: um homem alto, forte, vestido de preto, imóvel no meio do caos. Um guerreiro que exalava apenas sombra. Energia opressora, sem vida, que fez Mia dar dois passos para trás.
— Mika! — gritou em sua mente. — Não sinto você!
O silêncio da conexão mental a deixou desnorteada. O medo mortal a engasgou, suas entranhas reviradas. A Mansão Blackwolf, antes símbolo de força e poder, agora parecia envolta em presságio de desgraça. Lobos lutavam bravamente, mas pareciam marionetes sem vontade própria. Tiros, uivos e explosões cortavam o ar, mas Mia só via a figura sombria diante dela.
Bryan sentiu o pânico de Mia através do elo. Mesmo sobrecarregado, protegendo os filhotes, desviou o olhar. Os olhos vermelhos se fixaram na criatura. Um rosnado profundo escapou de Bones, mas morreu na garganta. Pela primeira vez, o Alfa, o Rei dos Lobos, sentiu medo — um medo primitivo, silencioso, que ressoava em seus ossos. Bones então murmura para ele em sua consciência “ Não sinto Mika” um múrmuro de dor e angustia que se misturava tanto a fera quanto o homem sentiam.
A criatura começou a se mover, passos silenciosos, quase flutuando sobre o solo encharcado de sangue. Mia tentou recuar, mas seus pés pareciam presos. O ar ao redor tornou-se pesado, esmagador, como se mãos invisíveis apertassem seus pulmões. Seus olhos vermelhos perfuravam não apenas seu corpo, mas sua essência, sua alma.
Todos ao redor — lobos e humanos, aliados e inimigos — estavam paralisados. O céu inteiro tingido de vermelho refletia a carnificina abaixo. Mia percebeu detalhes impossíveis: cabelos negros como o vazio entre estrelas, pele pálida, quase translúcida, pupilas verticais e famintas. O sobretudo n***o parecia feito da própria noite, e cada movimento criava um vácuo onde o som desaparecia.
Apesar do terror, algo a atraía — um fascínio obscuro e perigoso. Um desejo de se ajoelhar, de se entregar. A beleza era c***l, hipnotizante, e isso tornava a criatura ainda mais mortal.
Ele parou a um braço de distância. O silêncio era absoluto. Então falou:
— Rainha Loba… — murmurou. — Você é magnífica. Sem dúvida, a melhor presa que já tive.
Seus dedos longos e pálidos tocaram o pescoço dela com precisão gélida. Não havia violência, apenas i********e predestinada. Mia sentiu uma dor sutil, refinada, quase prazerosa, que corria por seu corpo. Cada músculo arqueava-se contra o toque dele. O sangue correu com rapidez, e uma energia desconhecida pulsou por suas veias.
— Mia… — sussurrou, mas não era voz humana. — Perfeita.
Ela sentiu cada segundo, cada detalhe, enquanto Malik bebia sua essência lentamente. Cada gota de vida que ele consumia parecia queimá-la e, ao mesmo tempo, conectá-la a algo antigo e proibido. Era doloroso e intenso.
Quando ele se afastou, os lábios rubros refletiam a lua sangrenta. Malik sorriu — um sorriso que não pertencia ao mundo dos vivos.
— O seu poder é delicioso, Rainha Loba.
Mia cambaleou. A febre n***a se espalhou pelo corpo, cada fibra dilacerada pelo veneno de sua presença.
O mundo ao redor continuava a guerra, mas tudo parecia em câmera lenta. Lobos e humanos lutavam com bravura, mas seus movimentos não eram suficientes contra o caos instaurado. A mansão tremia com o impacto dos ataques, e cada disparo de prata cortava o ar como lâminas afiadas. Bryan rugia, protegendo os filhotes, cada passo seu criando ondas de energia que derrubavam inimigos como bonecos de pano.
— Logan, Luke, Lauren! Segurem firme! — Mia o grito saindo como um sussurro para os filhotes, sentindo o poder da lua se esvair dela. — Segurem-se firme!
O sangue rubro da lua tingia o céu e banhava a batalha em uma luz sombria e inquietante. Cada uivo de seus lobos parecia cortar a escuridão, cada golpe e salto carregava o peso do instinto e da sobrevivência. Mas a lua não brilhava como aliada; ela era um espelho c***l do derramamento de sangue, pulsando vermelha como se compartilhasse da fúria e do desespero que consumiam a mansão.
Mia sentiu a energia da sua alcateia reagindo ao seu chamado, mas não havia beleza na luz rubra — apenas urgência e caos. Tiros de prata explodiam, lobos inimigos eram arremessados como bonecos, e o chão se misturava em lama, sangue e fúria. Cada instante da batalha era visceral, cinematográfico e impiedoso, cada respiração pesada um lembrete do perigo absoluto.
E, mesmo sem vê-lo, Malik estava lá. Mia podia sentir sua presença como um toque gélido e c***l sobre a pele, envolvendo seus sentidos, sedutora e mortal. Tremia, não apenas de medo, mas de uma dor deliciosa e arrebatadora que atravessava cada fibra do seu corpo. O veneno percorria suas veias, queimando, consumindo, corroendo sua força, enquanto cada pulsar de seu coração a lembrava de que a maldição era real e inescapável.
Ela cambaleou, vendo os filhotes protegidos nos braços de Bryan, mas sentindo a fraqueza crescendo com cada segundo. A lua rubra sobre eles era testemunha silenciosa do terror, um orbe de sangue que parecia absorver toda a vida ao redor, refletindo a presença invisível de Malik, observando, calculando, pronto para atacar novamente.
O mundo parecia se estreitar ao redor de Mia. Cada sombra se tornava ameaça, cada som reverberava com intenção de morte. E, mesmo assim, um fio de determinação a mantinha de pé — um instinto primitivo que gritava para proteger aqueles que amava, custasse o que custasse.
Ela respirou fundo, a visão turva pelo veneno, e sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Malik não estava longe; estava em cada sopro de vento, em cada sombra que dançava entre os destroços. O medo se misturava à excitação c***l, à dor e à necessidade de resistir. Cada músculo do corpo de Mia gritava contra a fraqueza que se instalava, mas ela sabia alguma coisa estava mudando nela.
E então, no instante em que sua visão quase falhou, ela ouviu um sussurro na mente, um eco gelado e familiar:
— Nos veremos novamente, Rainha Loba.
Então desapareceu. Não como sombra ou fumaça, mas como se nunca tivesse existido. Restou apenas o frio e o cheiro de sândalo.
O veneno queimava, o corpo cedia, e a lua rubra parecia rir da sua agonia. Mia caiu de joelhos, mas em seus olhos havia clareza: Malik ainda estava lá, esperando, e o verdadeiro terror estava apenas começando.