“MIA!”
O rugido de Bryan Blackwolf não era um som de comando de guerra ou de fúria controlada, mas sim uma explosão de puro pânico primal, um grito gutural que rasgou o ar pesado e esfumaçado dos jardins devastados da mansão. Ele ainda estava parcialmente transformado, seu corpo envolto em uma aura de poder lupino, as garras afiadas pingando o sangue escuro de inimigos abatidos.
O ataque recente fora uma investida sorrateira e brutal, um golpe covarde desferido diretamente contra o próprio coração de seu território.
O peito do Alfa arfava, não pela exaustão da batalha recém-terminada, mas por uma angústia gélida que lhe corroía as entranhas. Ele a sentira — uma pontada aguda e envenenada que atravessara seu Vínculo de Companheiros como um raio n***o, um grito silencioso que ecoou em sua alma até o centro.
Bryan disparou através do jardim, onde a grama estava pisoteada e rosas esmagadas soltavam um perfume de morte e destruição, derrubando qualquer um de seus próprios guerreiros que estivesse em seu caminho. Quando ele finalmente alcançou o local onde Mia havia caído, jazendo inerte entre as flores massacradas, o mundo desabou em ruínas. Lá, envolta por sombras que pareciam se contorcer, ela estava. O horror que o atingiu não era apenas a ferida aberta em sua carne, mas as veias negras e sinuosas que já começavam a se espalhar a partir dela, como raízes retorcidas de uma árvore amaldiçoada que crescia sob sua pele.
Ele desabou de joelhos ao lado dela, suas mãos enormes e ensanguentadas tremendo ao tocá-la com uma delicadeza que contrastava brutalmente com a carnificina ao redor.
— Mia? Mia, me ouve! — Sua voz era um sussurro rouco, despedaçado. — Abre os olhos! Por favor, não… não é assim que isso termina.
Com um cuidado desesperado, ele a ergueu nos braços. O corpo dela estava inerte e assustadoramente mais frio do que deveria. O desespero se solidificou em lava em suas veias, um fogo frio. Ele se virou para os Deltas e guerreiros que chegavam, ofegantes, e sua voz explodiu novamente, mas agora era o trovão de uma fúria primordial, prometendo morte e vingança sem limites.
— ALGUÉM VAI ME DIZER QUE CRIATURA DO INFERNO FEZ ISSO! QUERO O NOME, QUERO O CHEIRO, QUERO A ALMA DA b***a QUE OUSOU TOCAR NELA! NÃO VAI SOBRAR NEM POEIRA DELES!
A vitória, se é que podiam chamar o m******e daquilo, deveria ter sido um brinde de alegria. Em vez disso, era um mel amargo e oco que se dissolvia na boca antes de ser engolido. A alcateia Blackwolf havia sobrevivido à investida, e os inimigos jaziam derrotados e encharcados de seu próprio sangue nos jardins, mas o ar não carregava um único canto de triunfo. Ninguém sequer respirava aliviado.
Porque Mia, a Rainha Luna deles, o coração pulsante e a força moral de todos os Blackwolfs, estava sendo consumida por um veneno ardiloso e desconhecido. Nem Mika, sua loba ancestral, a fagulha divina que habitava sua alma, conseguia expurgar ou curar o m*l.
Os melhores médicos e curandeiros da alcateia haviam esgotado seu conhecimento secular, suas fórmulas de ervas e feitiços. Após todas as tentativas fracassadas no hospital, Mia foi transferida de volta ao suposto refúgio de seu próprio quarto na mansão. Era um cômodo imenso, com janelas altas que outrora emolduravam a vista do jardim florido, mas que agora pareciam os olhos vazios de um gigante moribundo.
O ambiente havia sido transformado às pressas em uma enfermaria particular, onde a elegância sucumbia à utilidade desesperada. Equipamentos médicos de aço cromado, com luzes piscantes e monitores digitais, cercavam a cama de dossel. Os curandeiros, com suas expressões de derrota e cansaço, se revezavam em turnos exaustivos, monitorando cada respiração ofegante, cada espasmo de dor que percorria o corpo de Mia.
Ela jazia no centro daquele turbilhão de impotência. Sua pele, outrora radiante e cheia de vida, ostentava agora uma palidez cadavérica que contrastava de forma c***l e quase obscena com a fina camisola branca que vestia. A febre era uma fornalha interna, e um suor frio e pegajoso escorria incessantemente por sua testa. Olheiras profundas, como manchas de sombra, denunciavam a tortura incessante.
O mais aterrorizante, porém, eram as marcas escuras do veneno. Não eram meras manchas, mas veias negras e pulsantes, serpentes de sombra subcutâneas que subiam por seu pescoço, invadiam seu tórax e cobriam parte de seu rosto, avançando com uma determinação implacável em direção ao seu coração.
Seus gritos não eram mais de alerta ou comando, mas sons guturais, que m*l podiam ser identificados como humanos, arrancados da profundidade de uma alma em tormento. Ela se contorcia na cama, incapaz de escapar da jaula de sua própria carne. Os sedativos potentes não faziam efeito diante do veneno que a mantinha cruelmente consciente de cada pontada e queimação. Mika, a loba poderosa que vivia dentro de Mia, estava silenciosa, sem brilho, sua essência prateada ofuscada pela escuridão que a consumia.
Bryan observava a cena, e cada neurônio em seu cérebro gritava em uma impotência agonizante. Seu rosto, talhado para a autoridade e a firmeza, estava agora marcado por uma angústia que sulcava sua testa. Cada grito de Mia era uma facada torcida em seu próprio peito. Ele percorria o quarto com passos curtos e agitados, como um tigre enjaulado, as mãos cerradas em punhos tão tensos que as unhas ameaçavam romper a pele de suas palmas.
— Temos que fazer alguma coisa! — Bryan finalmente explodiu, sua voz não era um comando, mas um rosnado gutural de desespero animal.
Alexander Blackwolf, tio de Bryan e médico-chefe da alcateia, estava ao lado da cama, seu semblante um retrato da mais profunda gravidade. Ao seu lado, Evy Blackwolf, a 3ª Luna, segurava a mão de Mia com uma ternura que contrastava brutalmente com a frieza da pele da neta.
— Já tentamos de tudo, Alfa — a voz de Alexander era pesada, carregada. — Cada antigo preparado de ervas, cada feitiço de cura transmitido por gerações, até mesmo o soro de Regeneração Avançada que Apolo Mykonos nos enviou. Este veneno… é desconhecido. E está se movendo rápido demais. Não há antídoto.
O ar no quarto ficou ainda mais pesado, quase sólido, irrespirável. A verdade, c***l e cortante como uma lâmina de gelo, atingiu Bryan com a força de um míssil. Mia estava morrendo, e ele, o Alfa, o guerreiro mais forte, era impotente para salvá-la.
Bryan caiu de joelhos ao lado da cama, o poder de seu título não significando nada agora. Ele apertou a mão gelada de Mia entre as suas, tentando transferir parte de sua própria vitalidade, de seu próprio ser, para ela. — Mia, aguenta firme aí… por favor. — Sua voz era um sussurro rouco, áspero de emoção contida e lágrimas não derramadas.
Mas Mia não respondia mais. Seus lábios estavam selados pelo sofrimento. Seus olhos, outrora cheios do fogo da vida e da inteligência, agora estavam vidrados, opacos, fixos no vazio do teto, sem ver.
Na sala de espera improvisada, a tensão era uma entidade viva, palpável e fria. Alexander, com as mangas da camisa ainda arregaçadas, observava a porta fechada do quarto com uma expressão que ia além da gravidade, tocando o desespero.
— O veneno… — ele sussurrou para os líderes reunidos, — é algo que nunca vi. Não há registro, nem mesmo nas folhas mais antigas e frágeis de nossa biblioteca. Não há toxina conhecida que se comporte assim, consumindo a força vital.
Foi então que Joel, um dos Alfas anciões, levantou-se com a solenidade de quem carrega o peso da história e dos séculos. Ao seu lado, Jackson Blackwolf, o Juiz Ancião, assentiu gravemente, seu rosto austero.
— Há uma chance — a voz de Joel era calma, mas firme, cortando o desespero instalado. — Uma remota, um fio de esperança mais tênue que uma teia de aranha, mas ainda assim uma chance.
Precisamos chamar uma bruxa antiga. Uma anciã que vive isolada nas profundezas intocadas da floresta e dos povos antigos. Ela é… diferente. Anahí Jaguaretê, nossa Bruxa Híbrida, tem conhecimento profundo, mas ela mesma a reverencia. Se alguém pode entender a natureza desse m*l, é ela.
Bryan, que havia saído do quarto por um instante para tomar um ar que não fosse tão sufocante, ouviu as palavras de Joel e se virou abruptamente, a incredulidade e o desespero misturados em seu rosto. — Uma bruxa? Você acha mesmo que é hora de superstições, Joel? Já perdemos tanto tempo com feitiços de cura!
— É a nossa única esperança, Bryan. — Joel encontrou o olhar do Alfa, e não havia vacilação em seu olhar ancião. Ele se inclinou para frente, a seriedade pesando em sua voz. — Eu irei buscá-la. Conheço o caminho e o rito para que ela nos receba.
E assim, enquanto Mia agonizava em seu purgatório particular, Joel partiu sob o céu noturno, a esperança, por mais tênue e frágil que fosse, seguindo-o como uma sombra fiel.
Muitas horas se arrastaram, e a sala de espera se transformou em um verdadeiro purgatório de incerteza. A cada grito abafado ou gemido de agonia que vencia a espessa porta do quarto, a ansiedade de Bryan, de Ben, do pai dela Alaric e de todos os presentes, intensificava-se ao ponto da dor física.
Então, finalmente, quando a noite estava em seu ponto mais profundo e frio, uma figura apareceu na entrada da mansão, guiada por Joel, cujo rosto estava marcado pela jornada exaustiva e tensa.
Era uma idosa, uma anciã cuja pele era um mapa de histórias não contadas e sofrimento. Seus cabelos, brancos como a primeira neve e longos, caíam lisos sobre seus ombros. Mas eram seus olhos que capturavam a atenção: profundos, escuros como ébano, e tão antigos que pareciam ter testemunhado o próprio nascimento das florestas.
Ela caminhou com passos lentos, porém decididos, diretamente para o quarto de Mia, ignorando todos os outros líderes. Com um aceno simples, mas de autoridade inquestionável, ela dispensou Alexander e os curandeiros.
A bruxa anciã se aproximou da cama, sua sombra pairando sobre Mia. Ela tocou a pele febril e marcada da jovem com a ponta dos dedos, e um calafrio eletrizante percorreu o corpo de todos os que observavam.
Enquanto preparava uma poção com movimentos precisos em um pequeno frasco de barro, a anciã começou a falar. Sua voz era rouca, como o som de pedras sendo arrastadas em um leito de rio seco, cheia de poder arcano.
— A criatura que fez isso com a Rainha Loba… — ela começou, seus olhos escuros fixos nas marcas negras que pulsavam sob a pele de Mia, — é a mais terrível entre todos os seres deste mundo e do mundo dos espíritos. Eles não se alimentam de carne ou osso. Eles sobrevivem de sugar a própria essência, o fio da vida das criaturas vivas. Não são mortos, pois se movem. Não são vivos, pois não possuem o calor da vida. Vivem uma meia-vida, uma existência amaldiçoada na penumbra. São condenados a uma fome eterna e insaciável.
Ela contava essas verdades aterrorizantes enquanto terminava a poção. Com uma mão surpreendentemente firme e forte, ela ergueu a cabeça de Mia e a fez engolir o líquido escuro e viscoso.
A anciã continuou, sem desviar o olhar do rosto contorcido da jovem. — Esta poção vai acalmar os demônios da dor que a assombram, vai retardar um pouco o avanço do veneno. Dará a vocês… um fôlego. Porém…
Bryan não gostou daquela palavra. “Porém”. Ela cortou o ar como uma lâmina de obsidiana. Nada de bom vinha de um “porém” em um leito de morte.
A anciã prosseguiu, seus olhos agora se desviando de Mia para fixarem-se na lua, como se pedisse a ela ajuda — Porém, a Rainha Loba só será salva pela mesma criatura que a marcou. Aqueles que meu povo chama de ‘Sem Alma’ têm o poder duplo de dar e tirar a vida. O que significa que ele só tem duas intenções: ou ele a quer morta e sabe que, se ele não intervir, a morte é inevitável… ou ele quer fazer uma troca. Ele ofereceu um prelúdio de morte para barganhar pela vida dela.
Bryan praguejou alto, um rugido de frustração profunda e raiva impotente que ecoou pelas paredes do quarto. A verdade era um soco no estômago. Aquele monstro não apenas havia ferido Mia, mas agora a mantinha refém. Ele era o Alfa, o Rei, mas estava de joelhos diante de um desconhecido.
As horas subsequentes foram as mais longas da vida de Bryan. A poção da anciã cumprira sua promessa: os gritos lancinantes de Mia cessaram, substituídos por um silêncio pesado e gemidos baixos de dor suportável. A agonia visível diminuiu, mas ela ainda estava terrivelmente m*l, deslizando para a beira do abismo. A batida de seu coração era um sussurro quase inaudível no monitor.
Bryan estava à beira da loucura. A impotência o consumia, e a culpa era um veneno mais lento em suas próprias veias. “Tinha que ter ficado perto dela,” o pensamento martelava em sua mente, repetitivo e c***l. Seu lobo, Bones, uivava de aflição dentro dele, uma dor que ele m*l podia conter. Em um ato de extrema vulnerabilidade e fé perdida, Bryan fez uma oração silenciosa e desesperada, a cabeça baixa sobre o lençol.
— Oh, Deusa, por favor, não a leve de mim! — suplicou o Rei Alfa, sua voz embargada, enquanto apertava a mão gelada de Mia contra seus lábios.
E então, ele veio.
No meio daquela noite angustiante, a criatura sombria materializou-se. Não houve estrondo, nem rajada de vento, nem a distorção familiar de um portal. Foi uma mudança sutil e sobrenatural na atmosfera. A própria noite pareceu congelar, e um frio absoluto e antinatural desceu sobre a mansão, fazendo as luzes piscarem e os monitores zunirem em protesto.
Num momento, o espaço ao lado da cama de Mia estava vazio; no próximo, ele estava ali. Parado. Imponente. Uma silhueta de homem envolta em uma aura poderosa. Seus olhos de um verde musgo profundo e antigo fixos nela.
Bryan se ergueu num movimento fluido e ameaçador. Cada músculo de seu corpo tencionou como arame farpado. Através do elo mental da alcateia, a voz de Bryan ressoou, cortante e urgente:
“ELE ESTÁ AQUI. TODOS EM ALERTA TOTAL. NINGUÉM SE MOVA.”
Antes que Bryan pudesse sequer pensar em liberar seu lobo por completo, a criatura levantou a mão em um gesto lento, deliberado e cheio de uma calma aterradora. Seus olhos verdes musgo se desviaram de Mia e fixaram-se nos de Bryan.
— Não vim para lutar, Alfa Blackwolf — a voz dele ecoou no quarto, cheia de um poder que vibrava nos ossos de quem ouvia, uma calma que era mais ameaçadora do que qualquer rugido. — Vim para negociar. Pode guardar suas garras. A vida dela depende do que vou dizer.