GABRIELA BORGES
Me olho no espelho, admirada com a beleza do vestido que estou usando. A cintura acentuada dava uma sensação de requinte, o tom vinho ficou bem na minha pele, que noto estar um pouco pálida. Hoje terá um evento na fazenda da família do Marcus, um leilão de gado, e o Marcus quer que eu vá.
– Preciso de sol – sussurro, e Marcus me olha.
– O que disse? – pergunta, enquanto borrifa perfume em seu pescoço.
– Preciso de sol, estou pálida – ele me analisa por alguns segundos e concorda com a cabeça.
– Pronta? – Ele sabe que estou pronta, não me deixa usar maquiagem e sempre manda que eu deixe meus cabelos soltos. Concordo, e ele sorri satisfeito. – Amanhã é dia de falar com sua amiguinha, não preciso dizer que deve se comportar hoje, certo?
– Certo – minha vontade era mandar ele se f***r.
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A mãe do Marcus abriu um sorriso largo ao me ver chegar, parecia realmente feliz em me ver.
– Cobra – deixei o pensamento escapar em um sussurro, que felizmente ou infelizmente só o Marcus ouviu – cobram para as pessoas participarem desses eventos?
Disfarço, tentando mostrar interesse sobre o evento. Marcus me olha de forma séria. Ele sabe que me referia à sua mãe, mas acho que consegui me sair bem. A mãe dele chegou perto e me puxou para um abraço.
– Que bom te ver novamente, está linda!
– Obrigada, a senhora também está linda!
Ela era realmente muito bonita, provavelmente na casa dos setenta anos, muito bem conservada. O dinheiro ajuda muito na beleza, e dinheiro é poder. Eu sei que a família Volpone tem.
O Marcus me manteve praticamente grudada em seu corpo, segurando minha cintura durante todo o evento, que por sinal era uma chatice sem fim.
– Marcus, deixa a menina respirar – Mauro brincou com o irmão – Como vai, Gabriela?
– Bem... – respondi e abaixei a cabeça. Eu tenho muito medo de despertar o interesse dele em mim e ser dividida entre eles.
Mas, para a minha felicidade, o Mauro parecia não gostar de mim.
– Vem, Gabriela, se junte a nós.
– Mãe, se você tentar tirar a Gabriela do Marcus ele vai te morder – Mauro ironiza.
Marcus me solta para que eu fique com sua mãe. Ele fica em uma conversa com o irmão e outros homens, e eu fico com a mãe dele.
– Que bom que voltou, Gabriela – Geovana me abraça – Como vai a faculdade?
– Faculdade?
– O Marcus disse que estava sumida por causa da faculdade – todas me olham e eu fico sem saber o que responder.
– Vocês viram que a filha da Dalva está grávida? – a mãe do Marcus muda o assunto – E vocês nada de me dar netos, né?
Nesse momento meu mundo caiu ao me lembrar que eu não tinha menstruação há pelo menos três meses. Comecei a sentir um calor absurdo, a boca seca e uma tonteira.
– Nossa, você ficou pálida. Está tudo bem? – Geovana pergunta, e a única coisa que consigo fazer é negar com a cabeça.
Tem tanta gente aqui... será que ninguém me ajudaria a fugir dessa família sem colocar a Clara em perigo?
Um milhão de pensamentos e ideias vêm à minha cabeça, o medo de estar grávida me dominando, respirar parecia difícil demais.
– Vou chamar o Marcus – alguém fala.
– Você trabalha e dirige, por que você não foge? – sussurro para a Geovana enquanto ela me ajuda, me afastando de todos.
– Por que eu fugiria?
Talvez ela não esteja com ele obrigada, ou talvez já se conformou.
– O que aconteceu? – a voz de Marcus atrás da gente me fez ficar tensa. – Vou te levar pra casa – ele coloca uma mecha do meu cabelo carinhosamente atrás da minha orelha e depois direciona o olhar para a Geovana.
– Acho que ela está em uma crise de pânico.
– Vou levá-la para casa, querida!
– Marcus, eu não consigo respirar. Desculpa, por favor, desculpa.
– Você está respirando, Gabriela. Só precisa se acalmar – ele começou a me puxar em direção ao estacionamento.
– Sua mãe foi buscar sua irmã – Geovana informa, e ele continua me puxando.
– Ela só precisa descansar!
Meu corpo treme quando ouço a porta do carro bater. Me vejo sozinha com o Marcus. Ele está com raiva, posso ver em seus olhos.
– Desculpa, por favor, eu me comportei – grito desesperada, e ele tampa minha boca com sua mão.
– Você nunca mais vai sair de casa, Gabriela! – ele fala com tanta raiva e tão perto que gotas de sua saliva molham meu rosto – Se acalma, p***a!
Ele tira a mão da minha boca, se posiciona corretamente e liga o carro. Seguro em seu braço.
– Eu tô atrasada, por favor, não deixa ninguém tocar em mim, eu faço o que você quiser, não deixa ninguém tocar em mim, por favor, deixa minha amiga em paz!
– Está nervosa assim porque se deu conta que está atrasada? – confirmo com a cabeça. – O anticoncepcional que te aplico corta a menstruação, você não está grávida!
– E se o remédio falhar?
– Eu resolvo. Ainda não está pronta para ser mãe, você precisa me amar primeiro.
Na minha cabeça, eu gritei que isso nunca iria acontecer.
Quando chegamos em casa, Marcus me deu um teste para que eu fizesse. Para minha felicidade, deu negativo. Sabe-se lá Deus como ele iria “resolver”. Depois, me levou para meu cativeiro.
– Não me deixa sozinha hoje, por favor. Me faz um carinho, eu vou ser boazinha!
Eu estava me sentindo tão vulnerável que acabei deitando minha cabeça no colo dele em busca de algum carinho. Ele fez. Acho que deve ser essa a sensação que um cachorro sente ao receber carinho do seu dono que só o maltrata. Eu fiz tudo o que ele quis e como ele quis. Ele foi carinho comparado ao que é normalmente. Eu só não queria ficar sozinha.
Na manhã seguinte, Marcus abriu a porta da sacada do seu quarto para que eu pudesse tomar um pouco de sol pela manhã. Depois me deixou ligar para a Clara. Ele estava feliz por eu ter não só aceitado como também ter pedido por carinho ontem.