Lopes Narrando
Fiz a pergunta pra ele e ele ficou me encarando. Mas pelo jeito que ele mexeu a sobrancelha, que ele sorriu passando a língua nos lábios e dando uma leve balançada na cabeça, deu pra entender que ele sabia exatamente onde tava me colocando. Ele sabia que essa colisão podia acontecer.
Olhei pra ele, estralando os dedos da mão. Lembrando do estrondo. Lembrando daquele prédio todinho caindo em cima da Carol.
Antes de pensar que ela é a morena da blitz, a gostosa do short de couro, eu também penso nela como um civil. Eu sei que tem que ter as operações. Eu sei que tem que ter toda essa norma de cumprir. Eu sei que existe uma barreira entre a lei e o crime. Mas quando aquele prédio caiu, eu não senti só a mulher que me fez sentir o maior t***o da minha vida sendo esmagada por aquilo tudo. Eu senti a dor que eu sinto por uma pessoa inocente sendo esmagada pelo sistema.
— Vai ficar com esse sorrisinho no rosto ou o senhor vai me falar o que tá acontecendo? — perguntei, o tom de voz já alterado.
Ele bateu palma. Se aproximou. Me segurou pelo colarinho.
— O que tá acontecendo é que aqui quem dá as ordens sou eu. Você não percebeu que tinha uma ordem? Eu queria ele morto. Ou a cabeça dele. Você não tem que me questionar. Você atrapalhou muita coisa lá dentro.
Ele falava do jeito que sempre fala com os subordinados dele. O jeito que me fez perceber, naquele momento, que ele nunca me quis de volta como filho. O papinho furado de que ter a família por perto era o melhor fazia parte do plano dele. Sempre fez.
— Eu fiz meu trabalho — falei, segurando a raiva. — Entrei junto com o batalhão. Fiz o que tinha que fazer. Você disse que queria ele vivo ou morto. Deixei ele lá, espalhado no chão do Dendê.
Antes de eu terminar de falar, a mão dele veio na minha cara. Um tapa estralado que me fez rodar.
Passei a mão no rosto. Olhei pra ele. Sangue na boca.
— Você acha que eu não sei? — ele cuspiu. — Você acha que eu não tenho informante lá dentro? Eu sei que ele escapou. Eu sei que você deixou.
— Sei como é. Sei que não tem como ele ter acesso a nenhuma câmera de dentro do morro. Eu sei como os traficantes, os donos de morro, são espertos quanto a isso. Mas você é PM. Se tem informante lá dentro, é porque alguém vendeu a alma.
Ele riu.
— Vendeu a alma? Eu tenho é gente que sabe onde o dinheiro tá. Diferente de você, que se apaixonou pela causa.
— Sério mesmo que essa vingancinha sua, barata, fez você se tornar um dos homens mais desprezíveis que eu já conheci?
Não terminei de falar. A mão dele veio de novo. Dessa vez eu segurei.
— Chega.
Ele me olhou, surpreso.
— Pensei que você não fosse cometer o mesmo erro que eu — ele disse, a voz baixa. — Pensei que você ia fisgar a mina com seu charme, e depois meter ela dentro do carro da polícia e levar presa.
Ri. Balancei a cabeça, negando.
— Não vai me dizer que você se apaixonou pela mulher do Zeus? — ele perguntou, o olhar cínico.
Entrelacei os dedos. Estiquei o braço pra frente, sentindo as costelas doerem ainda da queda, da hora que o caveirão capotou.
— Olha pra mim — ele continuou. — Olha quem eu sou. Olha quem o Zeus é. Pra você achar que eu posso ter me apaixonado por uma mulher que se apaixona por um traficante.
Ele falou com ódio. Mas tinha algo no olhar dele que dizia completamente o contrário.
— Eu quero que você me tire dessa vingança — falei, a voz cansada. — Isso não é comigo. Eu tô na polícia pra servir a lei. Não pra servir teu ódio pessoal.
Ele deu uma gargalhada. Amarga.
— A lei? Tu acha que a lei é essa p***a que tu aprendeu no cursinho? A lei sou EU! Eu e meus pares! Nós fazemos a lei, Lopes! E eu vou usar minha influência quantas vezes for necessário! Se eu descobrir que o Zeus tá vivo, que ele escapou por tua causa, vai sobrar pra você também.
Olhei nos olhos dele.
— Cê tá me tratando como inimigo agora?
Ele se aproximou. Ficou bem na minha frente.
— Inimigo, não. Mas se você se torna amigo do meu inimigo, você se torna meu inimigo também.
Balancei a cabeça. Cansado. Derrotado.
— Essa conversa já deu. Vou embora.
Virei as costas. Coloquei a mão na maçaneta.
— Não terminamos — a voz dele veio firme.
Virei de novo.
— Então fica sozinho. Se quiser vingança, sobe o morro você pessoalmente. Já que o ódio é teu.
Ele sorriu. Daquele jeito que me gelava a espinha.
— Pode deixar que na próxima vez que eu mandar subir, vai ser pra matar a filha dele. Se ela não tiver morrido no desabamento do prédio.
Meu sangue gelou.
— Como é que você sabe que o prédio desabou?
Ele gargalhou. Alto. Sádico.
— Porque fui EU que mandei.
O mundo parou.
— O quê?
— A ordem saiu da minha mesa. Explosão autorizada. Eu sabia que ele tava lá. Eu sabia que ela tava perto. E eu não tava nem aí.
Minhas mãos fecharam. O corpo inteiro tremeu.
— Você mandou matar inocentes.
— Inocente? A filha do traficante? Aquela vagabunda que te enfeitiçou? Não me venha com essa.
— ELA PODIA TER MORRIDO!
— E DAÍ? Tomara que tenha virado pó!
Avancei. Meu rosto colado no dele.
— Se ela morreu, você vai pagar. Eu juro por tudo que é mais sagrado, você vai pagar.
Ele me olhou. Sem medo. Sem recuar.
— A única coisa que você vai fazer é ficar quieto. Porque se você abrir sua boca pra defender essa vagabunda, eu juro que acabo com você. Acabo com sua carreira. Acabo com seu nome. E ainda vou pessoalmente subir aquele morro pra ver se ela tá viva ou morta.
Respirei fundo. O ódio queimando.
— Se você tocar nela...
— Você vai fazer o quê? — ele cortou, rindo. — Me matar? Matar o próprio pai? Então faz. Mas antes, pensa bem: você é minha cria. Meu sangue. Meu nome. Por mais que tente fugir, você é minha continuação. E eu vou usar isso até o fim.
Ele virou as costas. Foi até a janela.
— Agora sai. Vai tomar seu banho. Trocar esse uniforme. E reza pra que ela esteja viva, porque se ela tiver morta, você vai carregar esse peso achando que podia ter feito algo. E se ela tiver viva, eu vou mandar buscar ela. E dessa vez, não vai ter erro.
Saí. Bati a porta.
Lá fora, o ar parecia mais pesado.
E na minha cabeça, uma única imagem: ela. Caindo junto com o prédio.
Continua...