pai

3879 Palavras
S A M U E L Chego em casa e minha mãe está jogada no sofá assistindo a Um Lugar Chamado Notting Hill pela milésima vez com um pote de sorvete de chocolate em mãos, o que significa que algo de muito errado aconteceu. - Nossa, quem é esse machão? - ela desvia o olhar da TV e sorri para mim - Tem muita pouca cor pra muito Samuel - diz, debochada, apontando para minha roupa. - O que a gente não faz por um amigo... - respondo, já me sentando ao seu lado. - Como foi a festa na mansão do prefeito? Você tá ficando muito importante. - Antes disso você precisa me contar o que aconteceu enquanto eu estive fora dessa casa - eu pego o pote de sorvete emprestado - Porque aquilo ali não significa coisa boa - e aponto para a TV antes da primeira colherada cheia de chocolate. - Seu pai e eu discutimos no jantar. E depois quando chegamos aqui. Nada demais. E eu adoro esse filme - ela faz a cara do deboche de novo e me toma o pote de sorvete. - E cadê ele? No quarto dormindo? - Deu uma saída - ela diz isso olhando para a TV, fingindo que não se importa. - Então é isso - eu me levanto, já pegando o celular do bolso. Ligo para o meu pai, mas caio direto na caixa-postal. Eu já sabia que a situação estava r**m há um tempo, mas essa é a primeira vez que acontece algo tão grave. Ele provavelmente deve estar achando que só vou voltar tarde e vai conseguir chegar antes de mim. Deve ser isso. Os dois estão tentando fazer parecer com que o problema não seja tão grande quanto realmente é, todos esses meses. - Ele não disse para onde ia? - pergunto. Ela só ri e balança a cabeça, sem tirar os olhos do filme. Respiro fundo. Não posso deixar isso acontecer. Eu pelo menos tenho que tentar entender o que está acontecendo, e a minha mãe claramente não está em condições de falar sobre isso. Parece que ela está prestes a explodir em lágrimas a qualquer momento. Talvez tentar ouvi-lo seja a melhor opção. Meu pai sempre diz que eu o "excluo" das coisas, ou não conto tudo para ele como conto para ela. É o que faço. Já estou arrumado, então saio pela porta dizendo um tchau bem rápido, e depois de pegar o elevador e chegar ao térreo, minha mãe me liga, pedindo para voltar para casa, e eu digo que não. Digo que preciso encontrá-lo. O centro dessa cidade não é tão grande assim. Não deve ser impossível. Tento ligar para ele mais algumas vezes, mas o fim é sempre o mesmo. Dentro do Uber, mando uma mensagem para Clara explicando a situação, mas ela diz que está chapada demais e "desculpa". Atualizando: Clara está oficialmente namorando a tal da Carla, a do Tinder, do dia em que Bruno me pediu em namoro no cinema. E a Carla é maconheira. É o casal C&C, com chaminé e tudo. No meio disso tudo, recebo uma notificação de um novo seguidor no Twitter, o @ugustonavis. Pelo menos uma coisa boa. Mudo o destino da viagem no aplicativo duas vezes, e eu realmente não faço ideia de onde esse homem possa estar. Será que ele tem uma amante? Será que a minha mãe sabe disso? Pior: será que minha mãe sabe e aceita isso? - Vocês abriram o casamento? - digo assim que minha mãe atende a ligação. - Quê? Não, não, nada disso - e ela está claramente gritando porque a TV parece estar alta demais agora. - Ele tem uma amante e você descobriu? - Samuel, não é nada disso. Volta pra casa agora, tá bem? - Alguém precisa me contar que p***a está acontecendo - falo, e depois desligo, porque sei que ela iria reclamar do palavrão. Tento ligar para ele pela última vez. E dessa vez chama. Chama. Chama. E ele não atende. Eu juro que não era desse jeito que eu queria terminar as minhas férias de julho. - Eu vou mudar o trajeto pela última vez - digo ao motorista, que me olha com uma cara de b***a pelo retrovisor - É pra onde você me pegou. No condomínio. Agora, já voltando para casa e ignorando uma chamada atrás da outra da minha mãe, percebo como isso tudo foi bem i****a. Eu estou mais perdido que os dois. E meio carente, admito, porque Clara agora praticamente não existe mais. E o Bruno... Bem, agora, aqui, parado no sinal vermelho, de dentro do carro, eu o vejo de mãos dadas com uma garota na calçada. E ele me vê. E eu viro a cara, para frente, para o celular. d***a d***a d***a d***a. Eu olho de novo; agora as mãos deles estão separadas. A garota meio que percebe tudo, porque agora ela também está olhando pra mim. Ótimo. Y A N Dou play em A World Alone, música que Augusto me recomendou ontem à noite com um link, mas eu já estava dormindo. Depois ele me enviou uma foto de dentro do carro do amigo, fumando um cigarro, com Guilherme meio embaçado no fundo, dirigindo. Enquanto ouço seus áudios cantando tudo meio errado, corro para ver a letra e, nossa, eu quero muito escrever alguma coisa. Eu já não escrevo nada há dias, verdade, mas aqui, neste lugar, é impossível. Sei que prometi a mim mesmo que iria tentar mudar as coisas desde que finalmente contei a verdade à Larissa, mas, bom... As coisas não estão bem como o planejado. Para piorar a situação, estou sem meu psicólogo esse mês. E estou sentindo mais falta da minha ex do que imaginava, porque, querendo ou não, ela era a minha melhor amiga. Augusto não tem mais tanto tempo assim para mim. E, sei lá, estar com ele é sempre meio estranho, mesmo eu me sentindo bem. Estou nervoso por saber que ele vai acabar indo lá pra casa, uma hora ou outra. Por quanto tempo os pais do Guilherme vão mantê-lo lá? Eu só queria que eles, tipo, expulsassem o Augusto de lá logo. Sem querer ser rude. Parar piorar, estou em um acampamento jovem da igreja, num sítio. São apenas três dias, mas hoje ainda é a manhã do segundo, então ainda tenho muito o que aturar. Ontem não aconteceu basicamente nada, só o normal. Eu não estaria aqui até os quarenta e cinco do segundo tempo, mas acontece que todo ano é a mesma coisa: eles não preenchem todas as vagas, porque nem todo mundo tem dinheiro pra pagar, tipo eu, aí eles fingem que alguém "patrocinou" alguns jovens sem condições, mas a verdade é que ninguém pagou p***a nenhuma, mas eles simplesmente não podem deixar claro que umas quinze pessoas estão indo de graça em respeito aos outros cem pagantes. É basicamente isso. E é basicamente por isso também por que estou aqui. Meu pai quem fez as minhas malas, dizendo que eu não poderia perder uma oportunidade dessas. "Deus sabe o quanto eu queria que você fosse, e por isso providenciou um jeito de isso acontecer.'' Estou deitado agora. Sozinho. Todos os outros sete garotos que estão no mesmo quarto que eu já saíram para o café da manhã. Quando penso em pegar o meu pequeno caderno para tentar escrever alguma coisa, o Alex, um dos meus vizinhos de cama, abre a porta. "Cara, o café da manhã acaba em vinte minutos" ele diz, aproximando-se. Quando o garoto acende a luz e abre as cortinas, meus olhos se fecham automaticamente. "É, eu sei. Tô sem fome." "Não sabe o que tá perdendo." "Vou guardar o meu estômago para o almoço" digo, e ele ri. "Você tá bem? Sei querer ser intrometido, mas você tá com essa cara meio.... meio craquelada desde ontem." "Craquelada?" rio "Eu tô bem." "Craquelada serve pra muita coisa" ele dá dois passos para trás "Bem, te vejo no culto daqui a pouco, então?" "Isso" dou um sorriso forçado, e ele finalmente vai embora. Já no culto, às dez da manhã, presto atenção somente nos detalhes que interessam, como o fato do guitarrista muito bonito ter sido substituído por outro que é bem nada demais. Alex está na bateria, excelente como sempre. Ele até nota que estou olhando para ele, e sorri. Pronto, agora ele vai achar que somos amigos. O pastor está falando diversas coisas e eu não estou dando a mínima. Até um mês atrás eu detestava tudo isso, mas ainda tinha um mínimo de respeito. Eu tentava parecer que estava muito interessado, diferente de Augusto, que já não consegue fazer isso há um bom tempo. É por isso que ele está livre agora, e eu continuo preso. Ainda me restam umas trinta e cinco horas nesse lugar. Na hora do almoço, Larissa me dá um oi na fila do self-service (que não tem nada de self-service, porque são umas tias que colocam a comida no nosso prato), e logo depois me manda um "estou com saudade" por mensagem. Muito bom. Também vejo meu irmão, bem de longe, com a namorada/noiva e o grupinho da idade dele. Os quase-trinta. Eu acabo me sentando na mesa dos garotos do meu quarto, com Alex, um garoto que eu acho que se chama Hugo, o Thiago e o Marlon, que também tocam nos cultos, e os outros eu não faço ideia do nome, porque não são da nossa igreja de fato. Acontece isso nesse tipo de evento. Visitantes. Pensando bem, até o próprio Alex é meio que um visitante. "Alguém também não gosta de futebol, pelo jeito" ele entra no quarto às cinco da tarde, horário sagrado do campeonato masculino de futebol entre crentes. "Eu até que jogo muito bem" respondo, olhando para o meu caderno e as poucas palavras que consegui escrever, e eu vejo que ele está sorrindo pelo olhar periférico. "Ficou na reserva, Neymar?" agora o baterista mexe em sua mochila, sentado em sua cama. "Meu time foi eliminado ontem, você não viu?" sorrio. Ele até que é engraçado. De uma maneira estranha, mas ainda sim. "Eu sou mais do vôlei com as garotas" ele diz, e eu olho diretamente para ele. O que foi que ele disse mesmo? "Não tenho altura para isso. Mas combina com você, ein?" "Não poderia desperdiçar esses 1.89m de altura" e quando vejo ele já está bem próximo, olhando diretamente para o meu caderno "Escritor, hm? Por que nunca ouvi nenhuma de suas músicas nos cultos?" Ele é bem fofoqueiro também. "Elas não são exatamente sobre Deus" falo, porque eu praticamente tenho quase certeza de que esse cara é gay? G A B R I E L Fim de festa é uma d***a. Levou um tempo até certos parentes se mancarem do horário e irem embora de uma vez. Alguns nem chegaram a ter esse estalo, na verdade, porque o meu primo Henrique, o qual deu uns beijos na minha melhor amiga umas horas atrás, vai dormir aqui esta noite, junto com suas irmãs e a minha tia, irmã da minha mãe. As meninas vão logo para um dos quartos de hóspede, mas ele resolve vir atrás de mim, no meu quarto, e começa a fazer milhares de perguntas sobre Laura. Na vigésima pergunta eu finjo que estou escutando Henrique e digito um "Você não conversou por horas com a d***a do meu primo chato??? + emoji de olhos revirados". Mas eu não deveria ter reclamado. Quando Laura me responde, ele solta algo inesperado. - Você tem amigos gays? - e a minha cara simplesmente vai no chão. - Por que a pergunta? - é o que se faz quando você não quer responder a uma pergunta. Você faz outra. - Eu acho que tinha um casal gay hoje na festa. Amigos seus. As minhas irmãs até comentaram sobre isso de uma forma não muito legal - ele fala as três últimas palavras bem pausadamente, e eu tento não respirar fundo - E, tipo, eu não penso como elas, sabe? Quando você entra na faculdade a sua mente fica mais aberta, e lá eu vejo caras gays o tempo todo. Por essa eu não esperava. - A questão é - ele se aproxima um pouco mais, e eu juro que isso aqui tá quase virando uma cena de filme gay meloso - eu vi que a Laura não gostou muito do que as minhas irmãs disseram. E eu gostei muito dela, de verdade, e eu não quero que ela pense que eu sou um b****a. As minhas irmãs vão entender um dia. Elas estão no ensino médio ainda, uma hora isso tudo acaba mudando. E eu nem percebo que eu só olhei para cara dele, sorri e comecei a digitar uma mensagem para Laura com "AI MEU DEUS + MILHARES DE EMOJIS ALEATÓRIOS". - De qualquer forma, eu nem sei o que você pensa sobre isso. Nem sei se o que elas viram foi de verdade, não sei se eles são gays, mas eu não falei nada porque as minhas irmãs são difíceis. Meu Deus, ele fala muito. Fofo. - Laura deve ter me achado só mais um desses caras idiotas - ele finaliza. - Não achou, não - eu finalmente dou uma resposta ao garoto, e ele sorri - Fica tranquilo. Eu vou falar tudo pra ela - digo, mas na verdade eu já estou dizendo agorinha mesmo, digitando tudo isso em uma mensagem - Você tem quantos anos mesmo? - Dezoito. Entrei na faculdade ano passado. - Precoce - digo, e ele ri - E, olha, aqueles dois não eram um casal. Mas eles são gays. Enfim, não fala nada pras suas irmãs. - Não, vamos esquecer isso - ele sorri. E ele fica parado, como se estivesse me esperando. Ele quer que eu fale alguma coisa. Meu Deus, ele provavelmente está esperando que eu diga que também sou gay. "Você contou alguma coisa sobre mim sem querer pro Henrique??" digito, e Laura diz no mesmo segundo "É claro que NÃO???". Depois de algum tempo em silêncio, meu primo finalmente diz boa noite e desculpa qualquer coisa e tchau e sai do meu quarto. Depois de um banho demorado, eu me jogo na cama e meus pais aparecem para dizer boa noite. Já são mais de duas da manhã, mas o sono não vem, então eu fico perdendo tempo na internet. Primeiro vejo uma mensagem de Lucas, da escola; aquele garoto deixou um olho roxo no meu namorado e ainda acha realmente que tem alguma chance. Tudo bem que ele não sabe que namoramos oficialmente, praticamente ninguém sabe, mas, né? Vejo fotos da festa, fotos que as pessoas me marcaram, e acabo postando as poucas que tirei do meu celular. Depois fico rolando a timeline do Twitter até encontrar algo interessante. Quem procura, acha. "O que houve? :(", Augusto responde a um tweet de Samuel que diz "Quando tudo já está r**m e fica ainda pior". Apesar de agora eu já estar com tempo livre para sentir ciúmes, mando uma mensagem para Sam perguntando o que aconteceu. Ele visualiza e me liga. - Pode falar por aqui? A minha mãe não para de me ligar mas eu não quero atender. E também não quero desligar o celular e ficar sozinho - Samuel diz com voz de choro. - O que houve? - agora estou realmente preocupado. - Ah, meus pais brigaram e quando eu cheguei da festa ele não estava em casa. E até agora não voltou. E eu estou pulando de um Uber pro outro procurando por ele. E pra piorar eu vi o Bruno com uma garota. Não quero chegar em casa chorando. Minha mãe já está m*l o suficiente. Eu não sei. - Calma. Olha, você precisa voltar pra casa. Sua mãe deve estar muito preocupada. Quer deixar ela pior do que está? - Eu só quero encontrar aquele desgraçado e dar uma surra nele. - Sam... - Eu sei, você tem razão. - Volta pra casa. Não vou desligar até você me dizer que está em casa. Quero ouvir sua mãe dizer um oi. - Tudo bem, tudo bem. Desculpa. Eu só surtei. Por causa do Bruno. Por causa de um garoto. Eu sou patético. - Isso é normal, Sam. - Minha mãe precisando de mim e eu surtando por causa daquele i****a - ele parece estar limpando as lágrimas. Consigo visualizar isso. - Você é adolescente - falo, e ele dá uma risada seca. - É - Samuel funga, e a voz de choro se vai - Raça i****a. L U C A S Só há uma pessoa no mundo que sabe que gosto de garotos além de gostar de garotas: minha mãe. Isso é bem incomum, sei disso, mas a minha vida é uma zona sem sentido. A prova real disso é o meu filho, o pequeno Marcus, que acabou de me deixar em paz, finalmente. É sempre assim quando estou sem ajuda, ele só dorme depois de eu me desdobrar por mais de uma hora. Eu ainda estou escondido por vários motivos, mas o principal é a minha avó. Eu ter dado a terrível notícia "vou ser pai" aos 17 anos foi demais para ela. A dona Sílvia foi do tipo de mulher que só se casou depois do casamento e essa coisa toda, então para ela foi meio que uma decepção, mesmo eu sendo homem e as coisas sendo mais fáceis (infelizmente). Acho que se eu contar pra velha que eu gosto de garotos depois de ter tido um filho, ela morre. Tipo ter um ataque e morrer. A mulher é meio dramática. Outra coisa sobre a minha vida: quase ninguém sabe que o Marcus existe. Tipo, parece meio errado esconder um bebê, mas é basicamente o que eu faço. Não por mim, mas por elas. Minha mãe é meio surtada igual a mãe dela e não quer que meu pai saiba que fui pai cedo etc. Ele mora na p**a que pariu, e, ao menos que você poste uma foto nas redes sociais hoje, ninguém acaba sabendo de nada. De qualquer jeito, uma hora ele vai acabar sabendo. A verdade é que toda essa história de esconder o Marcus é sobre o ego da minha mãe, que não quer ser afetado. Ela acha que vão chamá-la de incompetente ou sei lá. Isso tudo é coisa da minha vó também. Minha mãe a escuta mais do que deveria. Ela lança aquele papo de voz da experiência etc e, pronto, a cabeça dela foi feita. Imagina se soubessem que eu já fiquei com um primo? Graças a Deus homens não engravidam. Só tenho mais uma semana de férias da escola, então estou aproveitando ao máximo o meu tempo com o meu filho. Eu quase não cuido dele de verdade, então acho justo dar um descanso pra minha mãe, minha vó e a... Taisa. Que é a mãe do Marcus e também mora com a gente. Ela tem 24 anos. A gente não tem mais nada, absolutamente nada, desde o nascimento do bebê. Enfim, nós também temos um cachorro, o Luiz, de sete meses. Que também é meu filho. Tenho dezoito anos e tenho duas crianças pra tomar conta, mas eu não tomo conta direito de nenhuma das duas. Uma zona sem sentido, como eu disse. Rafael: "Tem um bebê na sua casa?", ele diz ao telefone. Está tentando me convencer a sair hoje, mas não vai rolar. Eu: "Não vai dar não, cara", fecho a porta do quarto de Marcus para abafar o som do choro. Ele acabou de acordar e está no berço e seguro, caso esteja me achando um monstro. Rafael: "Vai ter muita mulher. A gente tá esperando por essa festa faz um tempão, eu não tô te entendendo." Eu: "Tem visita aqui em casa. Uns primos e uma tia. Por isso você ouviu criança chorando." Rafael: "Urgh, Eu odeio criança", ele ri. Foi meio difícil mas consegui despitá-lo. Rafael consegue ser insistente, e com isso quero dizer muito chato, quando quer, mas eu já sei bem como lidar com ele. Foi difícil ter que explicar o que eu estava fazendo com Gabriel naquele dia do shopping, foi sim, mas eu consegui. Sete e meia da noite, hora da janta do bebê. Eu não vejo a hora de ver as mulheres dessa casa entrando pela porta da sala. Eu: "Hora do papá", digo, fazendo uma colher cheia de comidinha r**m de aviãozinho. Marcus: ... (cara de desprezo) Eu: "Abre a boca!", sorrio, e aí eu tento empurrar a colher dentro da boca fechada de Marcus, e ele não abre nem que a vaca tussa. Eu sou um desastre de pai. Olho para o relógio na parede da sala e segundo as minhas contas eu tenho pelo menos mais uns trinta minutos sozinho ouvindo música boca. Sozinho com o meu filho, claro. Meus filhos. Luizinho, como minha vó o chama, está dormindo no tapete da sala, de frente para o ventilador, o folgado. Ainda bem que nenhum deles consegue falar, ou iriam me denunciar para a bisavó deles. Imagina: Marcus: Papai, TV, Gaga. Lady Gaga. TV. Luizinho: Isso mesmo. Eu: Eu não faço ideia do que eles estão falando. Vó: Você tava ouvindo aquela mulher demoníaca de novo? Não seria nada legal. Minha vó é espírita há uns dois anos, assim como minha mãe e a Taisa (mais recentemente e totalmente por influência desta casa), e as três estão numa reunião do centro que tem aqui perto. Eu costumava ir antes da minha vida virar uma loucura. Resumindo, minha avó uma vez viu algum clipe antigo da Gaga e acha que ela não tem uma energia boa. Ela diz que precisamos filtrar bem o que colocamos para assistir, ouvir, etc., dentro de casa. Isso tá mais pra gaguice (rindo) do que algum tipo de religiosidade em si, até porque minha mãe adora a Gaga. Coloco aquele hino do rock, Electric Chapel, e aproveito os meus últimos minutos sozinho. Pena que a felicidade dura pouco, já que um simples passo de dança me faz lembrar da última vez em que arrisquei o meu lado sigiloso. A noite da festa gay de Ribeirão, a noite em que Gabriel me viu e... aquilo aconteceu. Às vezes nem eu acredito nesse meu lado estourado e agressivo. Eu sou assim superficialmente na maior parte do tempo, principalmente dentro da escola, o lugar que mais preciso me fingir de hétero. Ainda bem que em cinco meses eu me formo. Acho que o Gabriel nunca vai me perdoar de verdade. Ele diz que não, que não guarda mágoas, mas se fosse verdade ele pelo menos responderia às minhas mensagens. Ele nem se deu o trabalho de mencionar que seu aniversário estava próximo e que ele daria uma p**a festa. Nada. Eu: "Ei", envio para ele. Eu: "Como está a vida de férias?" Eu: "Estou vendo as fotos da festa. Bem f**a Deve ter acabado de começar, então você deve estar ocupado e tal." Eu: "Fala comigo quando estiver livre, ok?" Depois de quase uma hora, elas chegam. E três horas depois disso eu ainda não tenho nenhuma resposta dele.
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