Y A N
Já na noite do segundo dia de acampamento eu pesquiso o significado da palavra "craquelada" na internet. E depois acabo descobrindo no i********: que Alex, o baterista, é na verdade Alecs. Alecsander. Esse cara adora palavras peculiares.
Eu sempre o conheci de vista porque ele é de uma igreja bem próxima da minha, e sempre aparece por lá, tocando como convidado, mas nunca tínhamos trocado muitas palavras. Agora ele até sabe que eu componho. É.
Depois do culto e da janta, vem a tão aguardada festa de sábado à noite. É tipo uma versão fracassada de uma festa mundana dos jovens, só que sem músicas boas (funk gospel definitivamente não deveria existir) e nada de bom do resto. Mas o pessoal pode usar fantasias. Bem inocentes, aliás, nada demais. É o auge do crente descolado. Só isso.
Vejo um stories de Augusto na mansão de Gabriel, no aniversário dele. Eu definitivamente não tenho como competir com esse cara. Não mesmo.
Mas eu estou aqui, "felizmente", porque se eu estivesse em Ribeirão estaria sofrendo muito mais. Por estar mais perto e tal.
Mas isso não significa que eu estou bem também. Está tocando um remix de uma música da Cassiane (sério), e, tipo, o Alex tá bem na minha cola, perguntando mais sobre minhas músicas e tudo isso. E aí uma hora ele endoida de vez:
"A gente podia montar uma banda" ele diz, vestindo uma blusa do Batman velhíssima.
"Banda?" acabo dando um sorriso, depois balanço a cabeça. Beberico um pouco da minha batida super descolada de suco de morango com... açúcar.
"É, cara" ele dá um tapinha no meu ombro esquerdo, o que me faz olhar meio torto pra ele "Você é o super-man, e eu sou o Batman. Dois caras fo..." ele diz, mas aí fecha a boca e ri "Incríveis."
"Eles não são exatamente amigos, acho" digo, olhando pro S no meio da minha blusa. Não está tão velha quanto a de Alecs, mas também está longe de parecer nova.
"Chamei o Marlon pra compor a banda. Só é a banda a partir de três, né? Não curto muito dupla sertaneja, não."
"Cara, eu ainda tô engatinhando no violão. Eu já toco tem uns três, mas fiquei muito tempo parado recentemente. Eu acabei de voltar a tocar. Não evoluí quase nada, na verdade. Não é a toa que as minhas músicas são bem simples."
"Não tenho como saber se você serve ou não se continuar escondendo suas músicas de mim. De todo mundo. O Marlon também quer ouvir suas músicas."
"O Marlon o quê?"
"Quer ouvir as suas músicas. As do caderno."
"Ah, então você contou pra ele" digo, meio rindo e indignado.
"Contei ué. Não tô te dizendo que vamos formar uma banda?"
"Você realmente contou pra ele?"
"Tá com a cabeça craquelada ou quê?" ele ri, sem perceber que estou chateado de verdade.
Eu só me viro de costas e saio. Olho para trás e Alecs está lá, com uma cara de quem não entendeu nada. Sei lá, ele parece um cara legal, mas meio inconveniente. Mas dá pra ver que ele não está fazendo por m*l. Dá pra ver, nitidamente, que ele está agindo naturalmente. Não quero machucá-lo, de verdade, mas ninguém pode ver o que tem naquele caderno. Quase tudo ali é sobre o que venho passando nos últimos meses. Quase tudo escrito nele é sobre Augusto. É pessoal demais para compartilhar com qualquer pessoa. Qualquer pessoa.
Estou caminhando em direção ao dormitório, para bem longe da festa, mas acabo sendo parado pelo clube dos quase-trinta. Meu irmão me conduz até os jovens e solta um:
"Vocês sabiam que eu tenho um irmão compositor?" ele diz, e todo mundo faz cara de surpreso "E canta bem, sabia? E toca também. Artista completo."
"E o que ele tá fazendo fora da equipe de louvor?" uma das meninas que cantam na igreja pergunta, sorrindo.
"Acho que isso foi um convite" ele diz pra mim "Ele é meio tímido pra mostrar os talentos dele. Tenham paciência. Eu só descobri porque sou um pouco fofoqueiro" ele ri, e todos os outros também.
"Um pouco?" a noiva dele diz, e todos continuam rindo.
"O que vem primeiro, a melodia ou a letra?" um dos garotos me pergunta "Sempre quis perguntar isso a um compositor.''
"Não tem uma regra. Às vezes vem separado. Às vezes chega tudo junto."
Eles continuam a me fazer perguntas sobre composição, e até me pedem aulas de como escrever músicas e outras coisas impossíveis. Sei que meu irmão não fez de má intenção (estou cercado de idiotas de bom coração), mas tudo que eu quero agora é dar um soco nele, fazendo-o ir bem longe. E depois queimá-lo com meu super raio poderoso que sai pelos meus olhos. Queria vê-lo explodir e virar cinzas.
Camisa i****a. Festa i****a.
Já deitado, quase uma da manhã, os garotos estão quase pegando no sono, mas ainda conversando no escuro. A única luz do quarto vem das telas de celulares acesas. Recebo uma mensagem de um contato não salvo em meu w******p. Alecs. Claro. Quem mais poderia ser.
"Quando todos dormirem, me encontra lá fora perto das árvores depois do campo de futebol, ok?"
Ou ele quer me pegar ou está com muita raiva de mim e quer me m***r.
Espero que seja a segunda opção.
L U C A S
Meus pais se separaram quando eu tinha sete anos. Naquela época minha avó não morava com a gente, mas ela vivia aqui porque sua antiga casa era só a umas duas ruas da nossa. Eu lembro do quanto eles dois brigavam por conta dela, da velha. Tudo porque minha mãe sempre pôs a minha vó em primeiro lugar, sempre. Geralmente acontece o oposto: a filho se casa e o cônjuge se torna a pessoal principal de sua vida, causando um sentimento de revolta nos pais. Como se o filho fosse ingrato. Isso não vale para todas as mães, não, só para as mais possessivas, como a minha vó. Por um momento até acho que foi assim, meu pai ser tudo para minha mãe. Talvez da festa de casamento até a lua de mel, estendendo-se, no máximo, até as bodas de papel.
Eu lembro como se fosse ontem. Os meus olhinhos pequenos observando a última briga entre eles no pequeno espaço entre a guarnição e a porta entreaberta, no quarto deles. Foi a primeira e última vez que ele bateu nela. E eu vi com meus próprios olhos. Meus olhinhos inocentes de crianças.
PÁ.
Um único t**a. E depois ela começou a gritar, gritar, gritar, e ele não parava de dizer CALA A BOCA, CALA A BOCA, CALA A BOCA. Ele ia bater nela de novo, mas eu acabei esbarrando na porta por segundo. O pequeno barulho irritante de porta se abrindo foi o suficiente para parar a briga.
Ele olhou pra mim e...
Isso é tudo que eu lembro. Minha mãe já me contou que depois disso ele fez as malas e foi embora. Mesmo a casa sendo dele, ele foi embora. Deixou tudo pra trás, inclusive a casa. Deixou pra mim. Segundo ela, ele deixou bem claro que a casa ficaria pra mim. Acho que isso foi tudo que ele me deixou, além das lembranças ruins.
É claro que ele tinha uma outra casa, no Rio de Janeiro, que era do falecido pai dele. Mas nós sabemos que ele não está mais lá hoje em dia.
Sempre digo a minha psicóloga que alguma aconteceu depois que ele me viu na porta. Algo que minha mãe nunca quis me contar. Nem minha avó.
Toda terapia, como esta de agora, coloco Sarah entre cruz e a espada. Porque eu fico revoltado de não conseguir me lembrar.
A imagem que eu tenho é a cara dele de surpreso ao me ver na porta. E logo depois o rosto dele se enrijeceu. A cor do meu pai é um branco ultra pálido, assim como eu, infelizmente, e quando estou com raiva o meu rosto vira um tomate.
Naquela briga o corpo dele estava inteiro assim. Vermelho. Um vermelho vivo.
Eu: "Eu tenho certeza disso. Ele me bateu também, não foi?", digo, como um estalo.
Mas o meu tempo já acabou. Sarah (ela é muito nova, então nem consigo chamá-la de algo mais sério) só se levanta e me oferece um copo com água.
Mais tarde, correndo com Luiz pelas ruas do bairro, eu tento imaginar a cena. Sei que só estou criando tudo isso na minha cabeça. São memórias falsas. São memórias falsas.
Ou não?
PÁ.
O mesmo t**a que ele deu nela, sinto em minha pele de criança. E aí ele vai embora.
PÁ.
Taisa: "Marcus tá gripado", é a primeira coisa que ouço quando chego em casa. Luiz cumprimenta dona Isabel, e a velha faz um carinho no pescoço dele.
Vó: "Se não melhorar até amanhã, vamos ao médico", a velha fala, olhando com cara de pena pro bebê, que está dormindo.
Mãe: "Trouxa o que eu te pedi?", ela aparece vindo da cozinha, mesmo sabendo que eu esqueci porque não tenho absolutamente nada nas mãos.
Eu: "Putz."
E eu volto para rua, indo em direção ao mercado (comprar o que esqueci), e Taisa acaba aparecendo atrás de mim, ofegante, com seu cabelo liso e ruivo pintado todo desgranhado só por ter corrido um pouquinho.
Taisa: "Tenho uma entrevista amanhã", ela diz assim que chega, e eu sorrio imediatamente.
Eu: "Que f**a" digo "Pra onde?"
Taisa: "Você não precisa saber. Se eu passar, não quero que nenhum de vocês saibam."
A mulher surtou.
Eu: "Quê?" e tombo a cabeça com meus olhos semicerrados.
Taisa: "Eu sei que você não liga pro Marcus. E eu não aguento mais sua mãe e sua avó, sinceramente."
Mas o que está...
Taisa: "Sei que fiquei meio m*l na gravidez e pior quando ele nasceu, mas agora eu tô bem. Já me acostumei com isso de ser mãe."
Ela está falando de sua depressão pós parto.
Taisa: "Mas eu não tenho paz nessa casa. Só ainda não caí fora porque d***a do inútil do meu pai não me aceita de volta. Você conhece o velho, ele te odeia. Já implorei pra ele milhares de vezes nas últimas semanas, você não faz ideia."
Eu: "Por que você não me conta nada?" falo, e ela dá um sorriso irônico.
Taisa: "A gente não tem privacidade pra isso. E também não é um tipo de assunto pra falar na p***a do celular, enfim."
Eu: "O que você pretende fazer?"
Taisa: "Assim que eu conseguir esse emprego eu vou juntar dinheiro e me mudar com o Renato. É indicação da mãe dele, então é quase certo."
Ela está falando do namorado dela, que minha mãe e minha avó não sabem que existe. E eu a vejo se arrepender um pouco de ter falado sobre a indicação, porque é uma pista sobre onde é, de certa forma. Não que eu queria descobrir. Só comentando.
Taisa: "E eu vou precisar da sua ajuda. Porque elas não vão aceitar. Elas são loucas pelo Marcus. Mas você não, então por isso você vai me ajudar."
Eu: "Dá pra parar de falar que eu não me importo com a p***a do meu filho?", digo, e agora já estamos entrando no mercado.
Taisa: "Não vai ser agora agora, eu preciso passar pelo período de experiência, ser efetivada e depois segurar uma grana", ela diz, e, enquanto eu escolho o melhor tomate na mesa de legumes (não me venha com a p***a de história de velho de que é uma fruta), olho para ela torcendo para que eu não esteja tão vermelho quanto o que seguro em minha mão.
Eu: "Eu..."
Taisa: "Vai me ajudar ou não?" ela pergunta, mais incisiva que nunca.
A U G U S T O
já passou da hora de deixar a casa de guilherme.
a minha vontade é de ficar aqui pra sempre, verdade, mas sei que não é o certo a se fazer. a casa de yan é quase como parte da minha, e eu não posso ser um peso a mais pra família de gui por tanto tempo. não é como se eles fossem miseráveis, mas também não são ricos.
amanhã é meu último dia aqui. na verdade já é hoje, porque já passa de uma da manhã de domingo, no caso, mas ainda não dormi e acordei, então na minha cabeça hoje ainda é sábado. faz sentido?
ainda não contei pra eles que vou embora amanhã. aliás, estou fugindo até em pensar nesse assunto, vagando na internet e preocupado com samuel, que está tuitando milhares de coisas tristes. gabriel ainda não apareceu, mas a festa já deve estar acabando. de qualquer forma, também não quero pensar sobre gabriel.
voltando, o plano era ir embora na sexta, falando a verdade, mas o yan acabou tendo uma viagem da igreja de última hora e eu resolvi adiar. seria estranho começar a morar naquela casa sem ele.
gui está no banho, e o único barulho na casa inteira neste momento é o barulho que o chuveiro quente faz, um zumbido meio sem sentido. é como está a minha cabeça agora. eu não vejo nada, e tudo que eu escuto é isso. um zumbido. e nada faz sentido. nada faz sentido.
por que ela fez isso? por que ela faria isso? que tipo de mãe faria isso?
eu sei de casos de mãe que se revoltam, batem nos filhos e, sei lá, mas abandonar? sério? eu nunca pensei nisso. nunca foi uma possibilidade na minha cabeça.
ser adolescente é assustador. é a parte da vida onde você não faz ideia do que é ou o que quer ser. é a idade em que você precisa decidir para onde quer ir, mas não saber como tirar os pés do chão.
quando se é um garoto gay e crente você imagina a vida inteira — leia-se quando você percebe que gosta de garotos — como seus pais vão reagir em relação a você.
apesar de nunca ter conhecido meu pai, sempre tentei imaginar o que ele diria com base no que sei dele, por tudo que minha mãe já disse pra mim. na minha cabeça, ele seria um cara bem r**m. do tipo que abandona o filho. ou que bate no filho. até do tipo que mata, de tanto bater. mas ela? não. eu nunca imaginei isso.
ela está me matando por dentro. ela está me matando por dentro.
mãe, o seu silêncio dói muito mais que a p***a de um soco no estômago. o seu silêncio significa desprezo. significa que você não quer lidar com isso. comigo. com o seu filho. a coisa que você mais ama no mundo.
amava. você sempre disse isso. e eu sempre acreditei nisso.
adolescência: fase em que você pensa que sabe de tudo, mas é tão ingênuo quanto uma criança.
o zumbido para. guilherme sai do banheiro, a toalha enrolada na cintura e o celular em mãos. ele olha para mim com pena.
"o que houve?" ele diz, e a minha cara de choro permite que as primeiras lágrimas caiam.
"vou embora amanhã" digo depois de um tempo. ele continua parado na porta do quarto.
guilherme se senta ao meu lado, no chão, próximo a cama. ele pega na minha mão, e então sorri. ele não tem o direito...
"é tão bom ter você aqui, poxa" e ele entrelaça os dedos dele nos meus, acariciando minhas unhas sem cor.
"acho que já me aproveitei demais da bondade dos seus pais. mas eu vou ser eternamente grato. por tudo. você tem uma família incrível, sabe?"
"nós podemos ser sua família também" ele diz enquanto eu seco as poucas lágrimas que me restam "eu sei que não sou o yan, e que você não me considera um irmão, mas eu te considero um irmão" guilherme sorri, e eu balanço a cabeça.
"você é meu melhor amigo. sabe disso. irmão é só um jeito de falar."
"não vai embora" ele sorri, os olhos cheios de lágrimas "por favor."
ele fixa os olhos dele nos meus. parece que não, mas há um clima estranho no ar. quer dizer, o guilherme tá molhado, sem camisa e de toalha. não estou bem da cabeça.
"eu amo você" e ele diz algo que nunca diz "mas eu respeito seu namoro com o filho do prefeito. mesmo sabendo que não tem muita chance de dar certo."
ele se levanta e caminha para fora do quarto. paro para respirar por um momento. eu me levanto, indo até o banheiro.
"eu tô confuso" digo, olhando pra ele através do espelho. ele passa um creme no rosto.
"você tá bem sexy assim, meio macho" ele ri "faz muito meu tipo. mas relaxa. não quero estragar nossa amizade."
"você me assustou pra c*****o" falo, entrando de vez no banehiro, porque eu também preciso tomar banho.
"a parte do eu te amo é verdade, mas como amigos, pô" e agora ele já está usando um shorts "mas sei que você não curte amizade colorida."
"você foi estranhamente fofo" digo, tirando a camisa enquanto ele ajeita o cabelo no espelho "nada típico de guilherme."
"eu costumo exagerar quando estou com t***o, você sabe" agora, ele me olha através do espelho.
ele continua sem camisa. e está extremamente lindo. pra c*****o.