Gabriel Eu observava das sombras, corpo rente ao muro de concreto, enquanto o crepúsculo tingia de vermelho as vielas da Rocinha. O cheiro de pólvora misturava-se ao odor de lixo e suor — a essência da vida que eu mandava ali. À minha frente, Henrique, o pai de Carol, surgia exigente e altivo, entalhado num terno caro demais para aquele lugar. Seus sapatos engraxados pisavam firme no chão de pedra irregular, um som estridente em contraste à melodia sombria das sirenes ao longe. Ele me carregava no olhar, uma mistura de medo e determinação. E Carol… Carol se colocou entre nós, ereta e desafiadora, como se fosse a muralha que ele quebraria para chegar até mim. Seu rosto, iluminado pela lanterna de um capanga próximo, mostrava a mesma fé brilhante que eu conhecia, o mesmo amor inabalável —

