Theo
Ela respondeu à minha mensagem.
Foi simples. Breve. Mas suficiente para aliviar um pouco o peso que estava esmagando meu peito desde ontem.
Enrico me contou que o irmão dela pegou o cara. Que foram à delegacia. Que Ana Lis pediu ao Pedro para deixar a justiça agir.
Ela conhece o irmão.
Mas eu o conheço também.
Sei do que ele é capaz quando alguém toca na família. Sei dos métodos, do olhar frio, da forma silenciosa como resolve as coisas. Ele não vai deixar assim.
E eu também não vou.
Enrico comentou, como se estivesse falando de algo banal, que amanhã Ana Lis vai para a casa dos meus pais com ele. Vai ela, Noah, Márcio e Laura.
Dia de piscina.
Não gostei da ideia dela de biquíni perto do Noah.
Não gostei nem um pouco.
Mal terminei de processar o pensamento quando meu telefone tocou.
Enrico.
Atendi já com aquela sensação incômoda de que coisa boa não vinha.
— Theo… a Ana Lis sumiu.
Meu coração falhou uma batida. Depois outra.
— Como assim sumiu?
— O Bento chegou. Acho que brigou com ela… todo mundo brigou. E ela saiu. Ninguém sabe pra onde.
Senti o sangue gelar.
Ela já estava machucada. Em choque. Assustada. E nós… brigamos.
Ela só queria um abraço.
Não lembro de ter pegado as chaves. Não lembro de ter fechado a porta.
Só sei que, quando dei por mim, já estava dentro do carro, acelerando em direção à casa dela.
A chuva começou a cair pesada no para-brisa, como se o céu tivesse decidido piorar tudo.
Cheguei e encontrei Bento e Pedro na sala, tensos, andando de um lado para o outro. Dona Ana chorava baixinho no sofá.
— Ela não atende — Pedro disse, segurando o celular com força demais.
Tentei ligar também.
Nada.
Ela ignorou todos nós.
Bento passou a mão pelo cabelo, claramente abalado.
— Eu briguei com ela — ele murmurou. — Ela já estava machucada… e eu briguei.
A culpa estava estampada no rosto dele.
Pedro respirou fundo.
— Eu também. Ela é nova aqui. Tem direito de sair, de se divertir. É jovem… e eu só pensei em repreender.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Denso. Quase sufocante.
Então o telefone de Enrico tocou.
Laura.
Ele colocou no viva-voz.
— Oi, Laura — ele disse.
— Enrico… você está em casa? Tem alguém com você?
Pedro fez sinal para ele dizer que não.
Enrico hesitou por um segundo.
— Não.
Houve um pequeno silêncio do outro lado.
— A Ana está comigo.
Meu coração disparou.
— Fui buscar ela no Parque Rosas. Ela estava sentada sozinha… chorando. Está dormindo agora, mas chorou muito. Está com os olhos inchados… e com febre. Minha mãe deu remédio pra ela.
Febre.
Aquilo me atravessou.
Bento fechou os olhos. Pedro apertou os lábios. Eu senti algo apertar no meu peito de um jeito quase físico.
— O que ela falou? — Enrico perguntou.
Laura respirou fundo.
— Que todo mundo só brigou com ela. Que ninguém perguntou dos pesadelos. Dos choros silenciosos na madrugada. Que ninguém percebe que ela ainda está com medo.
Cada palavra era um golpe.
— Ela disse que está machucada — Laura continuou. — Que só queria que alguém entendesse isso.
Eu fechei os olhos.
Ela queria um abraço.
E nós demos sermão.
— Ela falou… que quer voltar para os pais.
O mundo pareceu parar por um segundo.
Bento e Pedro se entreolharam.
Eu senti o peso daquela frase como se tivesse sido dita diretamente para mim.
Porque eu também briguei.
Eu também cobrei.
Eu também deixei de perceber que ela ainda estava tremendo por dentro.
— Enrico — Laura continuou — ela está com muita febre. Mas não quer que ninguém saiba.
Pedro se aproximou do telefone.
— Laura, por favor. Manda o endereço. Estamos indo agora.
Houve uma pequena resistência do outro lado, mas depois de alguns minutos de conversa, ela cedeu.
O endereço chegou.
Saímos praticamente ao mesmo tempo.
No carro, a chuva parecia mais forte. As luzes da cidade borradas no vidro davam a sensação de urgência, de culpa, de algo que precisava ser consertado.
Eu não sabia o que diria quando a visse.
Não sabia se ela iria olhar para mim.
Mas uma coisa estava clara, mais do que nunca:
Eu não tenho medo do irmão dela.
Não tenho medo de enfrentar o mundo por ela.
Tenho medo, sim…
De perdê-la por não ter sabido abraçar quando ela mais precisava.