Theo
Chegamos.
A mãe da Laura nos atendeu com um semblante preocupado, mas gentil. Não fez perguntas. Apenas nos conduziu até o quarto.
E lá estava ela.
Ana Lis.
Pequena demais naquela cama que não era a dela. O cabelo espalhado no travesseiro, o rosto corado pela febre, os olhos fechados como se estivesse tentando fugir até mesmo dormindo.
Eu senti algo apertar dentro de mim.
Culpa.
Pesada. Incômoda. Insuportável.
Bento parou ao lado da cama e levou a mão à boca. Pedro ficou imóvel, mas o maxilar estava tão travado que parecia pedra.
Ela se mexeu.
Mesmo dormindo, murmurou:
Mãe… pai…
A voz saiu fraca.
Colo… abraço…
Aquilo desmontou qualquer resto de orgulho naquela casa.
Me desculpa… por preocupar meus irmãos…
Bento virou o rosto, mas as lágrimas já tinham escapado. Pedro respirou fundo demais, como se estivesse tentando manter o controle à força.
Saímos um pouco do quarto para que ela descansasse.
Na sala, Laura e Márcio nos contaram o que tinha acontecido.
Ela estava andando na chuva Laura disse, a voz embargada. Chorando. Com as sandálias nas mãos.
A imagem se formou na minha cabeça e me atingiu como um soco.
Ela não queria voltar para casa Márcio completou. Disse que estava sufocada.
Pedro fechou os olhos por um segundo.
Sufocada… ele repetiu baixo.
Laura continuou, hesitante:
Ela disse que quer sair da casa de vocês.
Bento e Pedro tensionaram imediatamente.
O quê? Bento perguntou, incrédulo.
Quer morar sozinha. Disse que não quer dar trabalho para vocês.
Bento ficou indignado.
De onde a Ana tirou que ela dá trabalho?
Márcio respondeu com cuidado:
Acho que… por causa de algumas palavras que vocês disseram.
O silêncio caiu pesado.
Ela falou que vai trabalhar, se virar sozinha… Laura acrescentou.
E então, tentando aliviar, mas piorando:
Disse que vai arrumar um homem, casar e deixar todo mundo em paz.
Enrico riu.
Bento soltou um riso nervoso. Pedro também.
Eu não achei graça nenhuma.
A ideia de Ana Lis “arrumar um homem” e desaparecer da nossa vista me causou um desconforto imediato, quase possessivo. Meu rosto deve ter entregado, porque Enrico me lançou um olhar atravessado.
O clima só foi quebrado quando a mãe da Laura apareceu.
Ela acordou. Chamou por Bento e Pedro.
Eles foram imediatamente.
Eu fiquei.
Laura se aproximou devagar e falou baixo:
Quando ela estava com febre… chamou seu nome também.
Eu travei.
Enrico riu baixo.
Mas aquilo não teve graça nenhuma para mim.
Olhei para a porta do quarto.
E então ela apareceu.
Amparada pelos irmãos.
O rosto corado pela febre, os olhos inchados de tanto chorar. Pequena. Vulnerável.
E com culpa no olhar.
Me desculpa… ela sussurrou.
Bento a abraçou primeiro.
Não pede desculpa nunca mais por existir, ouviu?
Pedro a envolveu logo depois.
A gente errou. Nós que pedimos desculpa.
Ela assentiu, frágil.
Olhou para Enrico e o abraçou também.
E então…
Ela me olhou.
Houve um segundo de silêncio entre nós.
Eu vi tudo ali.
Medo. Vergonha. Cansaço. Confusão.
Desculpa… ela murmurou para mim também.
Eu nem consegui responder direito.
Ela deu um passo à frente.
E me abraçou.
Foi rápido.
Mas foi forte.
E então o corpo dela amoleceu.
Ana! Bento gritou.
Ela desmaiou nos meus braços.
O desespero foi imediato.
Pedro assumiu o controle na hora.
Carro. Agora!
Noah, que tinha acabado de chegar após insistir para vir junto, abriu a porta rapidamente.
Eu dirijo!
Descemos correndo.
Bento segurava a mão dela no banco de trás. Pedro falava com o hospital pelo telefone, já organizando tudo.
Eu só conseguia olhar para o rosto dela.
Frágil demais.
No hospital, fomos atendidos rápido.
Depois de exames, soro e medicação, o médico veio falar conosco.
Ela está muito fraca. O corpo já estava debilitado. E claramente não está dormindo bem há dias.
Pedro ficou sério.
Como assim?
Estresse pós-trauma. Insônia. Ansiedade acumulada. O organismo cobra.
Bento passou a mão pelo cabelo, devastado.
Ela não falou nada…
Pessoas fortes quase nunca falam o médico respondeu.
E então entendemos.
Não era só a droga.
Não era só a bronca.
Ana Lis não estava lidando bem com o que tinha acontecido.
Ela estava com medo.
Estava tendo pesadelos.
Estava chorando sozinha.
E nós só vimos a imprudência.
A culpa veio como uma onda.
Pedro encostou na parede do corredor, respirando fundo.
Bento sentou, com os olhos fixos no chão.
Noah ficou em silêncio sério, diferente do habitual.
E eu…
Eu percebi algo com uma clareza brutal.
Ela precisava de proteção.
Mas também precisava de espaço.
E nós estávamos falhando em encontrar o equilíbrio.
Quando finalmente pudemos vê-la, ela dormia sob o efeito do medicamento.
Pedro se aproximou da cama.
A partir de hoje ele disse baixo a gente vai fazer diferente.
Bento assentiu.
Eu também.
Porque naquele momento ficou claro para todos nós:
Não era sobre controlar Ana Lis.
Era sobre aprender a cuidar dela sem quebrá-la.
E, pela primeira vez desde aquela maldita noite na boate…
Eu senti medo de verdade de perdê-la.
Ana Lis despertou devagar no quarto do hospital. A luz branca parecia intensa demais, e por um instante ela não sabia onde estava. A cabeça latejava, o corpo ainda fraco, como se tivesse corrido uma maratona invisível.
Pedro estava sentado ao lado da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, observando cada movimento dela. Bento permanecia de pé, braços cruzados, mas o olhar já não era rígido — era preocupação disfarçada de controle.
Eu estava alguns passos atrás, quieto, apenas observando.
Ela piscou algumas vezes, tentando focar.
Eu… desmaiei de novo? perguntou, a voz fraca.
Nos braços do Theo Pedro respondeu, sério, mas com a voz mais suave do habitual.
Ana Lis fechou os olhos, constrangida.
Desculpa…
Não pede desculpa por passar m*l Bento cortou, firme, a voz carregada de medo e cuidado.
Antes que o silêncio voltasse, o celular de Pedro começou a tocar. Ele olhou a tela.
Pai.
Ana Lis prendeu a respiração. Pedro atendeu e colocou no viva-voz.
Ana? a voz do pai veio firme, mas carregada de preocupação. Filha, você está me ouvindo?
Ela engoliu em seco.
Tô, pai…
Sua mãe está aqui comigo.
A voz da mãe entrou na chamada, suave, mas preocupada.
Minha menina… você está bem? Falaram que você desmaiou de novo…
As lágrimas começaram a se formar nos olhos dela.
Eu tô bem, mãe… só fiquei fraca.
A gente já sabe de tudo disse o pai, controlado. A boate acionou a polícia. O Pedro nos explicou.
Pedro abaixou o olhar, sério.
Filha, continuou a mãe você ficou sozinha com isso, não ficou?
Ana Lis tentou negar, mas o silêncio entregou a verdade.
Eu não queria preocupar vocês… murmurou, quase infantil.
Você é nossa filha respondeu o pai, firme — preocupação faz parte do cuidado.
O telefone de Bento começou a tocar. Ele olhou a tela e suspirou.
Luca.
Ana Lis fechou os olhos, tensa. Bento atendeu e colocou no viva-voz.
São três da manhã aqui a voz de Luca veio, levemente atrasada pela ligação internacional. Acordei com várias mensagens.
E eu também, Ananda falou do outro lado. Pedro, explica direito o que está acontecendo.
Pedro respirou fundo.
Ela foi drogada na boate ontem. Hoje está exausta, medicada, mas está estável.
Silêncio do outro lado. Pesado.
Eu pego o primeiro voo Luca falou, decidido.
Não! Ana Lis reagiu imediatamente. Eu estou bem!
Você desmaiou duas vezes retrucou Ananda. Isso não é “estar bem”.
O pai de Ana Lis interveio na chamada, firme, mas com carinho.
Filha, calma. Não estamos bravos com você, mas estamos assustados.
Eu fiquei com medo… ela murmurou, as lágrimas escorrendo. Mas parecia que todo mundo só lembrava de me dar bronca.
Pedro apertou os punhos, respirando fundo. Bento abaixou a cabeça, sentindo a culpa da própria rigidez.
Seus irmãos reagiram com medo, não com raiva disse o pai, em um tom que transmitia amor e autoridade.
A gente te ama mais que tudo completou a mãe.
E ninguém aqui acha que você é fraca disse Luca, preocupado, do outro lado do mundo.
Mas você não precisa carregar tudo sozinha: Ananda acrescentou. Não precisa ser forte sozinha.
Ana Lis respirou fundo, sentindo o peso da emoção.
Eu amo vocês sussurrou, com a voz frágil.
A gente te ama também — vieram as vozes, quase em coro, atravessando continentes.
As ligações terminaram. Pedro passou a mão pelo rosto, aliviado de vê-la calma, ainda que exausta. Bento se aproximou da cama, segurando a mão dela com firmeza, mas suavidade. Eu dei um passo à frente, observando.
Para de tentar carregar o mundo sozinha disse eu, baixinho.
Ela me olhou, sem orgulho, sem defesa, apenas cansaço.
De repente, a porta do quarto se abriu e Laura, Márcio e Enrico entraram apressados, visivelmente preocupados. Noah estava atrás deles, um pouco hesitante, mas claramente aliviado ao vê-la viva e medicada.
Ana Lis! Laura exclamou, aproximando-se e segurando a mão dela.
Você está bem? Márcio perguntou, ansioso, observando cada movimento.
Noah ficou parado, mas o olhar dele se fixou em mim. Eu senti um frio subir pela espinha ciúmes. Cada gesto meu perto dela parecia despertar algo nele.
Pedro e Bento trocaram olhares, avaliando minhas expressões e o desconforto que eu sentia. A tensão entre nós crescia, mas o foco era Ana Lis.
Ela tentou sorrir, mas parecia tão frágil.
Obrigada… por virem murmurou, a voz embargada. Eu… não queria que ninguém se preocupasse.
A gente não ia deixar você sozinha disse Laura.
Nem eu Noah completou, com a voz firme.
Theo Ana Lis olhou para mim, tentando disfarçar a emoção. Obrigada.
Meu coração disparou, incapaz de disfarçar minha preocupação. Ela estava aqui, viva, mas frágil. Meus olhos não se desgrudavam dela.
Pedro se aproximou mais, firme, mas gentil.
Vamos mantê-la confortável agora. Ela precisa descansar, mesmo que seja só um instante.
A gente fica disse Enrico. Ninguém sai daqui.
Bento passou a mão no cabelo dela, quase aliviado por vê-la segura.
Você é nossa responsabilidade, Ana Lis disse baixinho. Sempre será.
Ela fechou os olhos, finalmente permitindo que o corpo cansado relaxasse.
Mesmo assim, entre as respirações mais lentas, entre os olhares atentos, os sentimentos se misturavam: amor, medo, culpa, ciúmes. Cada um no quarto sabia que, por enquanto, a prioridade era só uma: que Ana Lis se recuperasse, cercada de quem a amava de verdade.