capítulo 22 - Entre Tapa, Orgulho e Silêncios

910 Palavras
Ana Lis Acordei cedo, mas não dormi bem. Sonhei com Theo. Sonhei com as fotos, com os sites, com o sorriso dele ao lado dela. Quando abri os olhos, a primeira imagem que veio à minha mente foi aquela manchete c***l. Fiquei alguns segundos encarando o teto, o peito pesado. Depois virei para o lado e respirei fundo. Quer saber? Que se dane. Que eles se explodam. Levantei decidida a não deixar aquilo me afetar. Tomei banho demorado, lavei o cabelo, como se pudesse levar embora qualquer resquício de sentimento. Vesti uma roupa leve, fiz uma maquiagem discreta e desci para o café. Achei estranho. Bento não estava. Pedro também não apareceu para se despedir, como fazia todos os dias. Devem estar ocupados, pensei. A vida não gira ao meu redor. Meu telefone tocou. Chamada de vídeo. Luca. Atendi sorrindo. Oi, maninho. Oi, princesa. Como você está? Melhor, respondi. E você? Estou melhor agora, vendo você assim. Logo o rosto de Ananda surgiu na tela, lindo como sempre, mas com os olhos marejados. Oi, meu amor, ela disse. Oi, minha irmã mais linda do mundo. Os dois riram. Perguntaram de novo se eu estava bem. Respondi que sim, firme. Eles se entreolharam, como se avaliassem cada expressão minha. Ana? Oi, Ananda. Como está o dia aí? Lindo, respondi. Mostra. Achei estranho, mas abri a porta e apontei a câmera para o céu claro da manhã. Foi então que eu vi. Bento e Pedro estavam na frente da casa. E atrás deles, estacionada como uma promessa, uma BMW branca, impecável, com um laço vermelho enorme sobre o capô. Levei a mão à boca. As lágrimas vieram antes que eu pudesse impedir. Gostou do presente, meu amor? Luca perguntou, a voz emocionada. É todo seu, completou Ananda. Eu só conseguia chorar e agradecer. Desci correndo as escadas. Bento abriu os braços e me envolveu num abraço apertado. Pedro fez o mesmo logo em seguida. É toda sua, princesa, ele disse, colocando a chave na minha mão. Eu não conseguia parar de chorar. Me recompus aos poucos. Passei a mão no rosto, respirei fundo. Dirija com cuidado, tá, minha princesa? Bento falou. Tá certo. Pode ir, vai estrear seu carro, Pedro incentivou. Entrei no carro ainda incrédula. O cheiro de novo me envolveu. Liguei o motor com o coração acelerado. Pela primeira vez em dias, eu me senti leve. Feliz. Fui para a faculdade. Quando cheguei, Laura e Márcio já me esperavam. Assim que viram o carro, começaram a gritar no estacionamento como duas crianças. Ana Lis! Eles ficaram mais felizes do que eu. Eu amo esses dois. Agora os rolês ficaram muito mais interessantes, Laura disse, animada. Rimos e seguimos para dentro da universidade. Foi quando dei de cara com Eleonora Petrovich. Ela parou exatamente na minha frente, bloqueando meu caminho. Essa é a última vez que eu vou falar. Fica longe do Enrico. Eu ri. Ri mesmo. Ou o quê? Ela levantou a mão para me bater. Segurei o pulso dela por instinto. E antes que eu pensasse, bati no rosto dela. Bati mesmo. O caos se formou. Gritos. Gente filmando. Em um momento de descuido, ela conseguiu me dar um tapa. Meu rosto queimou. Eu devolvi. Foi quando o reitor chegou. Fomos levadas para a sala dele. A bronca veio pesada. Mas eu percebi que ele amenizava para ela. Quando anunciou minha suspensão, senti o sangue ferver. Foi então que ouvi uma voz atrás de mim. Quero ver quem vai suspender ela. Eu congelei. Conhecia aquela voz. Eleonora travou. O reitor também. Ele entrou. Theo. O que ele estava fazendo ali? Como soube? Ele pediu que saíssemos. Ficaram apenas ele e o reitor. Eleonora me lançou um olhar venenoso. Está se achando demais, ela sussurrou. Quer outro tapa? perguntei, calma demais. Ela ficou quieta. Minutos depois, o reitor saiu da sala e disse que não haveria suspensão. Que o caso estava encerrado. Eu sabia o motivo. Quando eu estava saindo, ouvi meu nome. Ana Lis. Parei, mas não olhei. Oi. Ele se aproximou. Pediu que eu olhasse para ele. Relutei por um segundo, mas olhei. Os olhos dele desceram para meu rosto vermelho. A mandíbula dele travou. Havia raiva ali. Não contra mim. O que você queria? perguntei, fria. Por que está brigando com ela de novo? Eu que comecei. Ela não me deixa em paz. Ana Lis, você ia ser expulsa. Mas não fui. Aliás, muito obrigada, senhor Salvatori. Virei para sair. Ele segurou meu braço, não com força, mas o suficiente para me impedir de ir embora. Não me chama assim. Soltei meu braço devagar. E como você quer que eu te chame? O silêncio entre nós era mais pesado que qualquer briga. Ele parecia querer dizer algo. Eu também. Mas orgulho é uma coisa terrível. Você não precisava ter vindo, falei. Precisava, sim. Não respondi. Laura e Márcio estavam mais afastados, fingindo não olhar. O corredor inteiro cochichava. Eu ajeitei a bolsa no ombro. Não precisa me salvar, Theo. Eu sei me defender. Eu sei, ele respondeu, a voz mais baixa. E é exatamente isso que me assusta. Meu coração falhou uma batida. Não dei espaço para aquilo crescer. Tenho aula, falei. Passei por ele. Senti o olhar dele me acompanhar até o fim do corredor. E pela primeira vez, não sabia dizer se estava mais irritada com Eleonora… ou com o fato de que, apesar de tudo, o simples fato de ele aparecer ainda mexia comigo.
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