Eu não deveria estar ali.
Repeti isso para mim mesmo três vezes antes de descer do carro. A universidade não fazia parte da minha rotina. Eu tinha reuniões, contratos, problemas maiores para resolver. Mas, desde cedo, uma inquietação não me deixava em paz. A imagem dela tinha me acompanhado durante toda a manhã. O bloqueio. O silêncio. A ausência de resposta.
Ela tinha visto.
Claro que tinha visto.
A foto no bar. A entrada no motel. Meu erro estampado em todos os sites.
Passei a mão pelo rosto, fechei o carro e entrei no campus como se tivesse um motivo formal para estar ali. Alguns alunos me reconheceram. Cochichos começaram. Ignorei.
Foi então que ouvi o tumulto.
Gritos. Vozes alteradas. Um círculo de estudantes no corredor principal.
E no centro estava ela.
Ana Lis.
O cabelo levemente bagunçado, o olhar firme, o corpo tenso. À frente dela, Eleonora Petrovich completamente descontrolada. O ambiente estava elétrico. Antes que eu pudesse entender exatamente o que tinha acontecido, vi o movimento brusco. Um tapa. Depois outro. Um empurra-empurra. O caos instalado.
Meu corpo reagiu antes da minha razão.
Avancei alguns passos, mas o reitor chegou primeiro, acompanhado por dois funcionários. Separaram as duas e as conduziram para a sala da diretoria.
Meu maxilar travou.
Eu poderia ter ido embora.
Não fui.
Caminhei pelo corredor sentindo todos os olhares sobre mim. Bati na porta da sala do reitor e entrei sem esperar autorização.
O reitor levantou o rosto, surpreso.
Eleonora estava sentada, postura teatral, fingindo indignação. Ana Lis estava do outro lado. Erguida. Orgulhosa. O rosto vermelho denunciando que tinha sido atingida também.
Ouvi apenas o final da decisão.
Suspensão imediata.
Foi então que falei.
Quero ver quem vai suspender ela.
A sala ficou em silêncio absoluto.
Não alterei o tom. Não precisei. Minha voz saiu controlada, mas carregada de algo que eu nem tentei esconder.
O reitor pigarreou. Tentou justificar. Falou sobre regras, disciplina, imagem institucional.
Eu caminhei até o centro da sala.
Acho prudente reavaliar a situação, diretor. Pelo que entendi, houve agressão de ambas as partes. Aplicar suspensão unilateral pode gerar questionamentos… desnecessários.
Ele entendeu o que eu não disse.
A universidade dependia de investimentos. Parcerias. Apoios.
Eleonora ficou pálida.
Ana Lis permaneceu em silêncio. Não agradeceu. Não me olhou. Aquilo me incomodou mais do que qualquer coisa.
Depois de alguns minutos de conversa tensa, a suspensão foi retirada.
As duas foram liberadas.
Ela saiu antes de mim.
No corredor, chamei.
Ana Lis.
Ela parou, mas não virou de imediato.
Oi.
Frio. Distante. Cortante.
Olha para mim.
Ela virou.
E quando vi a marca do tapa no rosto dela, algo dentro de mim queimou.
O que foi isso.
Ela cruzou os braços.
Nada que eu não resolvesse sozinha.
Por que está brigando com ela de novo.
Eu que comecei? Ela não me deixa em paz.
O orgulho na voz dela me atingiu de um jeito estranho. Ela não precisava de mim. Não queria minha defesa. E mesmo assim, eu estava ali.
Você ia ser expulsa.
Mas não fui. Aliás, muito obrigada, senhor Salvatori.
Ela enfatizou meu sobrenome como se fosse um muro entre nós.
E saiu.
Fiquei parado no corredor, sentindo algo que eu odiava admitir.
Ciúmes.
Raiva.
Medo.
Eu não sabia exatamente o que tinha sido a briga, mas sabia que envolvia Enrico. Eleonora sempre orbitava em torno dele. E Ana Lis também.
A ideia dela se envolvendo em conflitos por causa de outro homem fez meu estômago revirar.
Eu não tinha direito.
Eu tinha passado a noite com outra mulher.
Mas mesmo assim, a ideia me corroía.
Saí da universidade mais perturbado do que entrei. Entrei no carro e permaneci alguns minutos sem ligar o motor.
Ela me bloqueou.
Ela não precisava de mim.
Ela tinha os irmãos.
Tinha os amigos.
Tinha uma vida inteira onde eu não era essencial.
E isso me incomodava mais do que deveria.
A lembrança do que eu tinha decidido na noite anterior voltou com força.
O contrato.
Se Bento estava finalizando a compra da empresa onde trabalhava, eu poderia interferir. Poderia criar obstáculos. Poderia propor uma solução.
Eu odiava admitir, mas conhecia Ana Lis o suficiente para saber que ela faria qualquer coisa pelos irmãos.
Inclusive aceitar algo que não queria.
Passei a mão no volante.
Eu não deveria.
Mas precisava.
Não por um ano.
Por toda a vida.
No início ela vai me odiar.
Mas eu aguento o ódio dela.
O que eu não aguento é a indiferença.
Liguei o carro.
Enquanto saía do campus, a imagem dela no meio do corredor, firme mesmo depois da briga, não saía da minha cabeça.
Ela era fogo.
E eu estava prestes a brincar com algo que podia me queimar para sempre.
O telefone vibrou no banco ao lado. Mensagens da equipe jurídica. Atualizações sobre contratos. Notificações da imprensa ainda tentando reaquecer a história com Tábata. Ignorei tudo.
Nada daquilo importava de verdade.
Só uma coisa importava.
Ela.
Parei no sinal vermelho e fechei os olhos por um segundo.
Eu podia ter ido ao hospital.
Podia ter explicado.
Podia ter sido diferente.
Mas eu escolhi fugir.
E agora estava prestes a escolher manipular.
Ri sozinho, sem humor.
Que tipo de homem faz isso com a mulher que diz amar?
Um homem com medo.
Medo de não ser suficiente.
Medo de perdê-la antes mesmo de tê-la.
O sinal abriu. Continuei dirigindo.
Eu conhecia Ana Lis. Conhecia o coração dela. Sabia que, se algo ameaçasse os irmãos, ela enfrentaria qualquer coisa. Inclusive a mim.
Talvez eu estivesse usando isso.
Talvez eu estivesse cruzando uma linha que não deveria.
Mas, no fundo, eu também sabia de outra coisa.
Se eu a pedisse em casamento da forma tradicional, ela diria não.
Ela precisava de um motivo.
Eu precisava criar um.
Apertei o volante com mais força.
Eu não queria um contrato.
Queria uma chance.
Queria acordar e saber que ela estava ali.
Queria ser o homem que ela escolhe, não o que ela suporta.
Mas, se para começar eu tivesse que ser o vilão da história, que fosse.
Eu suporto o papel.
O que eu não suporto é vê-la seguindo em frente… sem mim.
E naquele momento eu soube.
Eu já estava perdido.
Não por ciúmes.
Não por orgulho.
Mas porque, pela primeira vez na vida, eu queria algo que dinheiro nenhum podia comprar.
Ela.
E eu estava disposto a arriscar tudo para não perdê-la.