Ana Lis
Voltei para a sala e sentei como se nada tivesse acontecido. A cadeira parecia mais dura do que o normal, o ar mais pesado, os olhares mais insistentes. Senti cada par de olhos sobre mim, como pequenas agulhas silenciosas tentando perfurar minha calma recém-conquistada. Cochichos surgiam aqui e ali, discretos demais para serem confrontados, altos o suficiente para serem ouvidos. Fingi que não percebia. Não daria palco para ninguém. Não depois de tudo.
Laura tocou meu braço com cuidado, seus olhos cheios de preocupação contida. Márcio inclinou-se levemente na carteira ao lado, também atento.
Disse que estava bem. Minha voz saiu firme, mais firme do que eu realmente me sentia. Decidimos focar na aula. Abri o caderno, alinhei a caneta na margem da folha e passei a copiar o que o professor dizia, como se aquelas palavras técnicas fossem capazes de organizar também os meus pensamentos.
Por dentro, no entanto, eu ainda sentia o ardor do tapa no rosto, não pela dor física, mas pelo que ele representava. Eleonora não suportava a ideia de dividir espaço. Não suportava que alguém existisse ao redor de Enrico sem se curvar à sua vontade. E agora, pelo que parecia, também não suportava que meu nome estivesse, ainda que indiretamente, ligado ao de Theo.
O tempo passou devagar, arrastado. Quando a aula finalmente terminou, o burburinho explodiu pela sala. Mochilas sendo fechadas, cadeiras arrastando pelo chão, conversas retomando o volume habitual. Levantei-me com calma.
Disse à Laura e a Márcio que iria ao banheiro antes de irmos embora. Eles assentiram, ainda me observando com aquele cuidado que às vezes me irritava e às vezes me confortava.
O corredor estava mais vazio do que eu esperava. Entrei no banheiro feminino e, por alguns segundos, agradeci o silêncio. Apoiei as mãos na pia, encarei meu reflexo no espelho. Meu rosto ainda guardava um leve tom avermelhado. Toquei a pele com os dedos e respirei fundo.
Você é mais forte do que isso, pensei.
Lavei as mãos, ajeitei o cabelo, retocando levemente o brilho nos lábios. Quando me aproximei da porta para sair, ouvi passos no corredor. Instintivamente, parei. Algo dentro de mim disse para esperar.
A porta se abriu e vozes preencheram o ambiente.
Aquela v***a acha que é quem.
Reconheci imediatamente o timbre. Eleonora.
Fiquei imóvel atrás da divisória, o coração desacelerando de propósito. Não sairia agora. Não daria a ela o prazer de me ver reagir.
Ela não sabe com quem está mexendo, continuou outra voz, uma das garotas que sempre a acompanhavam como sombras bem vestidas.
Não sei como tem meninas que se submetem a isso, pensei. Inteligentes, bonitas, com futuro pela frente, orbitando alguém que precisava diminuir os outros para se sentir maior.
Eleonora, você é linda, muito mais linda que ela. O Enrico só quer se divertir com ela, assim como o irmão dele. Acho que ela já deu para os dois.
A frase ecoou no banheiro como um estalo sujo. Senti meu estômago revirar, não de vergonha, mas de indignação. A facilidade com que inventavam histórias, com que manchavam reputações apenas para alimentar o próprio ego, era quase impressionante.
Fechei os olhos por um segundo. Eu poderia sair agora e confrontá-las. Poderia estourar mais uma vez. Mas havia aprendido, nem que fosse à força, que nem toda batalha precisava ser travada com as mãos.
Eleonora soltou uma risada baixa, cheia de veneno.
Ela acha que o Theo gosta dela. Faça-me rir. O amor da vida do Theo é a Tábata, todo mundo sabe. Ela é linda, famosa, perfeita. O Theo sempre foi apaixonado por ela. Todos sabem.
Meu peito apertou de maneira involuntária.
Tábata.
As imagens dos sites voltaram à minha mente. As fotos, os títulos exagerados, as manchetes insinuando reconciliação, romance, destino. Eu havia dito a mim mesma que não me importava. Que a vida era dele e que ele fazia o que quisesse. Repeti isso como um mantra.
Mas ouvir aquelas palavras ali, naquele tom debochado, doeu de um jeito diferente.
Eu não queria ser comparada. Não queria disputar lugar na vida de ninguém. Muito menos ser motivo de riso.
Ele nunca olharia duas vezes para ela, continuou uma das garotas. Ela é só uma distração. Uma fase.
Fase.
A palavra ficou martelando na minha cabeça.
Respirei fundo. Endireitei os ombros. Meu silêncio não era fraqueza. Era escolha.
Elas continuaram falando por mais alguns minutos, alternando comentários maldosos sobre mim e elogios exagerados a Eleonora. Era um teatro estranho, onde todas sabiam seus papéis e ninguém ousava improvisar.
Quando finalmente a porta se fechou atrás delas, esperei alguns segundos antes de sair da divisória. O banheiro estava vazio outra vez, mas o ar parecia mais pesado.
Aproximei-me do espelho novamente. Olhei para mim com mais atenção.
Eu não era Tábata. Não era atriz famosa, não estampava capas de revista, não tinha multidões comentando minha vida. Eu era eu. Com meus erros, minhas confusões, minhas incertezas. E, ainda assim, havia algo em mim que incomodava o suficiente para gerar tanto ódio.
Talvez fosse isso que mais as irritasse.
Ajustei a bolsa no ombro e saí do banheiro com passos firmes.
No corredor, o movimento já era menor. Alguns alunos conversavam perto das escadas, outros caminhavam apressados em direção à saída. Avancei como se nada tivesse acontecido, como se aquelas palavras não tivessem tentado me atingir.
Lá fora, o sol estava alto, iluminando o campus com uma claridade quase provocadora. Encontrei Laura e Márcio perto do portão.
Demorei, Laura comentou, analisando meu rosto.
Falei que a fila estava grande. Sorri de leve.
Márcio me observou por um segundo a mais, como se tentasse ler o que eu não dizia. Depois assentiu.
Enquanto caminhávamos em direção ao estacionamento, senti o peso do que havia ouvido se misturar com algo novo. Não era exatamente tristeza. Também não era raiva.
Era decisão.
Eu não seria a garota que se escondia no banheiro chorando por causa de fofoca. Não seria a que implorava por atenção de um homem que talvez nem soubesse o que queria. Não seria a que aceitava ser medida pela régua de outra mulher.
Se Theo gostava de Tábata, se havia sido apaixonado por ela, isso era parte da história dele. Não da minha. E eu não precisava competir com fantasmas.
Ao chegar ao meu carro, ainda senti um breve orgulho ao ver a BMW branca reluzindo sob o sol, o laço já guardado, mas a lembrança viva. Meus irmãos haviam me presenteado com aquilo não apenas como um gesto de carinho, mas como um símbolo de confiança.
Entrei no carro e fechei a porta, isolando-me por alguns segundos do mundo exterior.
Apoiei as mãos no volante e deixei que um pensamento sincero emergisse.
Eu estava cansada de ser alvo. Cansada de ser comentada, julgada, disputada como se fosse um troféu ou um erro.
Liguei o carro.
Enquanto o motor ganhava vida, fiz uma promessa silenciosa.
Se alguém quisesse me enfrentar, teria que fazer isso olhando nos meus olhos. Não atrás de portas fechadas, não em cochichos venenosos, não em manchetes de sites de fofoca.
E quanto a Theo…
Aquele nome ainda provocava algo dentro de mim. Um misto de irritação e expectativa que eu odiava admitir. Mas, se ele realmente achava que podia viver entre contratos, fotos armadas e silêncios convenientes, teria que aprender que eu não fazia parte desse jogo.
Engatei a marcha e saí do estacionamento.
O vento entrou pela janela levemente aberta, bagunçando meus cabelos.
Que falassem. Que rissem. Que inventassem.
Eu seguiria em frente.
E, se precisasse lutar de novo, lutaria. Mas da próxima vez, seria do meu jeito.