Capítulo 25- Entre água e fogo

1161 Palavras
Nossa, a semana passou rápido demais. Quando percebi, já era sábado. Dia de piscina na casa do Enrico. Ele me garantiu que o Theo não estaria lá, que tinha viajado a trabalho e só voltaria na segunda-feira. Fiquei aliviada. Eu realmente não estava com vontade de vê-lo, não depois de tudo o que aconteceu. Acordei cedo, tomei café com calma e fiquei esperando o pai do Márcio trazer ele e a Laura. O Enrico viria nos buscar. Antes de sair, como sempre, o Pedro e o Bento fizeram mil recomendações. Cuidado ao dirigir. Não bebe demais. Me liga se precisar. Parece exagero, mas eu sei que é amor. Quando o carro do Enrico parou em frente de casa, já estávamos animados. O caminho foi leve, cheio de risadas e provocações. Laura implicando com o Márcio, Enrico entrando na brincadeira, eu apenas observando e aproveitando a sensação rara de normalidade. Mas nada me preparou para o que vi quando os portões se abriram. Aquilo não era uma casa. Era uma mansão. A mansão Salvatori se erguia imponente, elegante, com jardins impecáveis e uma fachada que parecia saída de um filme. Ficamos de queixo caído. Enrico riu da nossa reação e nos conduziu para dentro com naturalidade, como se aquele cenário fosse comum. Para ele, era. Logo na entrada, fomos recebidos pelos pais dele. Dona Elena Salvatori surgiu com um sorriso aberto e acolhedor, irradiando uma energia leve que contrastava com a imponência da casa. O senhor Eduardo Salvatori veio logo atrás, sério, mas com um olhar atento e educado. Conversamos um pouco na sala principal, que mais parecia um salão. Dona Elena nos proibiu imediatamente de chamá-la de dona. Disse que era tia Elena. O senhor Eduardo reforçou que era tio Eduardo. Rimos e concordamos. Era impossível não gostar dela. Ela mesma nos levou até os quartos para nos trocarmos. Márcio foi com Enrico e Noah, que havia acabado de chegar. Eu e Laura ficamos em um dos quartos enormes, com vista para a área da piscina. Vesti meu biquíni e me senti bonita. Leve. Confiante. Quando olhei para Laura, percebi que ela estava quieta demais. Mexia na própria roupa, insegura. Perguntei o que era e ela confessou, quase sussurrando, que estava com vergonha de usar biquíni. Disse que não tinha o corpo ideal. Eu ri. Falei o quanto ela era linda. Que tinha um corpo maravilhoso. Que era perfeita do jeito que era. Insisti até ela acreditar um pouco. Depois de muito encorajamento, ela vestiu. Quando saímos para a piscina, os meninos já estavam lá. Enrico olhou para Laura e não disfarçou. O olhar dele percorreu o corpo dela com admiração evidente. Laura corou na hora. Eu sorri. Noah veio em nossa direção, nos cumprimentou e disse que estávamos lindas. Entramos na água e, por um tempo, tudo foi leve. Risadas, brincadeiras, mergulhos. A água fresca ajudava a dissolver os pensamentos que eu insistia em empurrar para o fundo. Até que tia Elena apareceu na borda da piscina e chamou Enrico. Ele saiu da água e foi até ela. Voltou alguns minutos depois com uma expressão estranha no rosto. Ele me chamou pelo nome. A forma como falou já me deixou alerta. Ana, o Theo está aqui. Eu enrijeci por dentro, mas por fora apenas balancei a cabeça, como se aquilo não tivesse importância alguma. Fingi naturalidade. Disse que tudo bem. Mas não estava tudo bem. Meu coração começou a bater mais forte, traindo a indiferença que eu queria sustentar. Para disfarçar, mergulhei. Fiquei alguns segundos debaixo d’água, como se pudesse me esconder ali. Quando voltei à superfície, senti. Aquele olhar. Não precisei procurar. Eu sabia. Fingi que não vi. Noah me colocou nas costas e começou a nadar comigo. Márcio fez o mesmo com Laura. Rimos, espirramos água uns nos outros, criamos uma pequena guerra aquática que arrancou gargalhadas até da tia Elena. Mas mesmo sorrindo, eu sentia. A presença dele era como uma corrente elétrica no ar. Depois de um tempo, pedi para ir ao banheiro. Enrico me indicou o caminho e eu saí da área da piscina tentando controlar a respiração. O corredor estava silencioso. A casa parecia grande demais de repente. Quando estava prestes a sair do banheiro, ouvi passos. Decidi esperar alguns segundos. Não queria cruzar com ele. Respirei fundo e abri a porta. Foi quando senti meu pulso ser puxado. Um movimento rápido. Firme. Fui arrastada para dentro de um cômodo ao lado. A porta se fechou. O cheiro doce, familiar, me atingiu primeiro. Era ele. Theo. Ele ficou me encarando. O silêncio entre nós era pesado. Ele parecia querer falar, mas a voz não saía. Eu tentei me soltar, mas ele segurou meu pulso com mais força. Vamos conversar, Ana. A voz saiu baixa, carregada. Não temos nada para conversar. Temos, sim. Não, Theo. Não temos. Ele me puxou um pouco mais para perto. A proximidade era perigosa. Eu conseguia sentir a respiração dele misturada à minha. Me desbloqueia, Ana Lis. O tom autoritário me irritou. Não gostei. Não sou propriedade de ninguém. Ele soltou meu pulso apenas para pegar meu celular das minhas mãos. Fiquei sem reação por um segundo. Quando percebi, ele já estava com o aparelho. Tentou procurar o próprio número. Mas parou. As mensagens do Luan estavam ali. Vi a mudança no olhar dele. A mandíbula travou. A respiração ficou mais pesada. O que ele quer? Não é da sua conta, Theo. Ele me olhou como se a resposta fosse um desafio. Como se o nome Luan fosse uma afronta pessoal. Não respondi mais nada. O silêncio ficou denso. E então ele fez o que não deveria. Me puxou pela cintura e me beijou. Foi um beijo urgente. Intenso. Carregado de posse, medo e algo que parecia desespero. Não foi doce. Não foi gentil. Foi como se ele estivesse tentando provar algo. Por um segundo, meu corpo reagiu antes da minha razão. Mas a razão voltou com força. Eu o empurrei. O som do tapa ecoou no cômodo. O rosto dele virou para o lado. A marca da minha mão começou a surgir na pele. Eu estava tremendo. Não ouse fazer isso de novo. Minha voz saiu firme, mesmo com o coração descompassado. Abri a porta e saí quase correndo pelo corredor. Sentia os olhos arderem, mas me recusei a chorar ali. Quando voltei para a área da piscina, todos ainda estavam rindo, distraídos. O mundo não tinha parado. Só o meu. Laura percebeu primeiro que algo estava errado. Veio até mim, mas eu apenas disse que estava tudo bem. Entrei na água novamente como se nada tivesse acontecido. Mas nada estava bem. Eu sentia o gosto do beijo ainda nos lábios. E odiava o fato de que ele mexia comigo daquela forma. Do outro lado da piscina, vi Theo surgir alguns minutos depois. Ele estava sério. O olhar preso em mim. Não havia mais indiferença ali. Havia guerra. E eu sabia, no fundo, que aquilo estava longe de acabar.
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